segunda-feira, 21 de maio de 2018

FILME ALERTA QUANTO AOS RISCOS DE CALÚNIA E INJUSTIÇA PELAS REDES SOCIAIS

Longa conta com Daniel de Oliveira conta história de professor acusado de pedofilia
Ainda em cartaz, o filme Aos Teus Olhos, de Carolina Jabor, toca numa ferida bastante atual: a perseguição e o linchamento virtual em tempos de redes sociais. Mais do que isso, o longa alerta para os riscos da condenação sumária no que se tornou (citando uma canção de Tom Zé) “o tribunal do Facebook”.
Em mais uma boa interpretação de Daniel de Oliveira, Rubens é um professor de natação atento e carinhoso com os seus alunos. Entre eles, Alex (Luiz Felipe Mello), passa a exigir um cuidado maior. Filho de pais separados (e estressados), o garoto demonstra comportamento irascível e até agressivo. Num dos diálogos com um colega de academia, Rubens chega até a reclamar que os pais na verdade bagunçam a cabeça das crianças.
Alex termina uma competição em segundo lugar e fica triste com o resultado, visivelmente sob pressão do pai. Na sequência, o menino arruma uma briga com o vencedor da prova no vestiário e o professor Rubens, de forma muito cuidadosa, surge para apartar. Contrariado, o jovem tem de apertar a mão do outro garoto.   
Na aula seguinte, o pai de Alex (Marco Ricca, sempre em atuações extremamente competentes) aparece na diretoria da academia com uma acusação grave. Ele diz que o professor teria beijado Alex na boca, no vestiário, um dia antes da competição. Além disso, ele ainda questiona a orientação sexual de Rubens, como se, caso fosse homossexual, ele se tornaria mais propenso a cometer um ato de pedofilia, o que não faz o menor sentido.
Pressionada e aturdida, a professora pede que ele se retire e reúne coragem para apurar o fato, o que vai incluir uma conferida nas câmeras de segurança da piscina e uma pressão sobre o próprio Rubens.
Mas antes que o fato seja devidamente investigado, a mãe do menino se exalta e posta um textão em uma rede social, incluindo a frase: “Temo que estejamos com um profissional PERIGOSO a cargo de nossos filhos”. A câmera mostra o número de likes e compartilhamentos viralizando. É tudo que precisa para que se instaure um clima de histeria coletiva entre os pais dos alunos e que a vida do professor Rubens seja virada do avesso.
Um dos grandes méritos do roteiro (de Lucas Paraiso, coautor do fantástico Gabriel e a Montanha) é que não é mostrado o diálogo entre o jovem e seus pais, deixando com que o espectador seja confrontado com os próprios preconceitos. Ao longo do filme, Rubens confessa ter dado um beijo carinhoso na bochecha de Alex, e como não vemos a fala do menino, ficamos sem saber se ele de fato especificou que a carícia teria sido na boca ou se isso foi presumido pelos seus pais, que não demonstram a menor estabilidade emocional.
Ainda que o garoto tivesse relatado isso, fica claro no filme que ele tem rancor pelo professor e uma acusação desse tipo seria uma maneira eficiente de não ser obrigado a ir na natação.
Em todo caso, tratando-se de uma democracia, onde a presunção de inocência é garantida constitucionalmente, o professor teria no mínimo de ser julgado, de preferência com provas materiais, antes de ser julgado. Mas, como tem sido comum na era da pós-verdade, em que informações não necessariamente verídicas são veiculadas pela internet, jogando com o medo das pessoas, a queixa da mãe do garoto engatilha o sentimento de cólera entre todos que de alguma forma participam daquela academia. O que também não é difícil compreender, principalmente para quem tem filhos.
Com sutileza e ambiguidade, o filme resvala numa ferida aberta dos tempos atuais: o quão bem fundamentados são nossos posicionamentos? Quanto há de preconceito na forma como enxergamos o outro? Acreditamos nas coisas com base em evidências ou simplesmente porque queremos acreditar? São todos questionamentos que cabem ao espectador.
 Fonte: Aleteia.org.br

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