domingo, 13 de maio de 2018

O TEMA DA MULHER NÃO PODE SER ADIADO, É URGENTE NA IGREJA


A CAL, Comissão Pontifícia para a América Latina, analisou recentemente, na sua Assembleia plenária, o tema “A Mulher, pilar na edificação da Igreja e da sociedade na América Latina”. Maria Lia Zervino, sociológa da Argentina e Secretaria geral da União Mundial das Organizações Católicas Femininas, tomou parte nessa Assembleia e no final, entrevistou para o mensário "Donna, Chiesa, Mondo" o Cardeal Marc Ouellet, Presidente da CAL. Reproduzimos aqui esta entrevista que difundimos também na rubrica "África. Vozes Femininas" .
Dulce Araújo - Cidade do Vaticano
“A Igreja católica, seguindo o exemplo de Jesus, deve ser muito livre de preconceitos, de estereótipos e das discriminações contra a mulher. As comunidades cristãs devem fazer uma serie revisão da vida com vista numa conversão pastoral capaz de pedir perdão por todas as situações nas quais foram e são ainda hoje cúmplices de atentados à dignidade da mulher.”
Com base nesta reflexão a CAL, Pontifícia Comissão  para a América Latina, realizou de 6 a 9 de Março, no Vaticano, a sua Assembleia plenária, debruçando-se sobre o tema “A mulher, pilar na edificação da Igreja e da sociedade na América Latina”. O encontro terminou com algumas recomendações, entre as quais emerge um olhar teológico sobre a grandeza da dignidade e das vocações femininas em coerência com a Revelação.
O mensário “Mulher, Igreja, Mundo”, suplemento do jornal do Vaticano l’Osservatore Romano, dedica o seu número de Maio, a essa Assembleia da CAL, com diversos artigos, cujo denominador comum é a reciprocidade homem-mulher, na lógica da relação e do diálogo entre o feminino e o masculino. De entre esses artigos destacamos uma entrevista da socióloga argentina, Maria Lia Zervino ao Cardeal Marc Oullet, Presidente da CAL, propondo-a na rubrica dominical do Programa Português para a África, "África. Vozes Femininas." 
- A Assembleia plenária da CAL, Comissão Pontifícia para a América Latina, realizada em Roma de 6 a 9 de Março, desenvolveu o tema “A mulher, pilar na edificação da Igreja e da sociedade na América Latina. Um  tema atribuído ao CAL pelo próprio Papa. Qual terá sido, a seu ver, a razão desta escolha? O machismo clerical que o Papa Francesco tem posto em relevo em várias ocasiões, ou os holofotes da consciência social, focalizados sobre a mulher na Igreja?
O Papa não hesitou um instante: apresentamos-lhe dois temas e ele escolheu logo este. Ele é muito sensível às condições gerais da mulher: muitas situações de falta de reconhecimento, de maus-tratos , de solidão, de tráfico de pessoas. Por outro lado, o documento de Aparecida põe em evidência a irresponsabilidade masculina, a ausência do pai, a liberdade sexual – na mentalidade e na cultura – que os homens concedem a si próprios, mas não às mulheres. Trata-se de uma cultura machista que deve ser posta em discussão e que tem também incidência na Igreja, na mentalidade clerical, no desprezo em relação às mulheres, no que podem ou não podem fazer. Creio que tudo isso tenha tido influencia sobre a decisão do Papa.”
15 mulheres latino-americanas participaram na Assembleia
- Excepcionalmente, foram convidadas a participar nessa Assembleia plenária, umas 15 mulheres da América Latina (com diversas responsabilidades sociais e eclesiais) juntamente com os membros e os conselheiros da CAL (que são exclusivamente cardeais e bispos)  e ao secretário encarregado da vice-presidência, Gusmán Carriquiry, o leigo com maior responsabilidade e experiencia no seio da Cúria Romana. Que tipo de diálogo se estabeleceu entre as mulheres e os prelados? Qual foi o clima que se criou nesse encontro em que tanto uns como outros tiveram direito à palavra?
Obviamente, o tema não podia ser tratado sem a presença das mulheres, sem um número significativo de pessoas preparadas, mulheres com diversas capacidades e competências. Isto resultou num diálogo entre pares, na análise sociológica, histórica e mesmo pastoral. O contributo das mulheres teve igual valor ou mesmo superior ao dos prelados. Conseguimos partilhar as reflexões num clima muito cordial e construtivo, de autêntica escuta recíproca, de franqueza e ao mesmo tempo de debate respeitoso. Foi muito belo! Para mim, esses dias foram uma tomada de consciência. Devo confessar que o encontro me mudou profundamente no que toca às convicções que tinha sobre o tema. Estabeleci uma ligação com a cultura do meu país, o Canadá, onde a paridade homem-mulher é quase um dogma. Na minha experiencia pessoal havia um factor cultural positivo mas não de todo assimilado. Faltava-me o aprofundamento ligado à troca de ideias, coisa que tivemos nesse encontro. O diálogo autentico nos muda. Senti a presença do Espírito. É esta a chave.”
Uma teologia da mulher
- A partir de 2013, ano em que o Papa, no voo de regresso de Rio de Janeiro, disse, na sua primeira conferencia de imprensa , que era necessário uma teologia da mulher para discernir sobre a forma como as mulheres se devem inserir nos mais importantes processos de tomada de decisões na Igreja – dado que não pode limitar-se a ser “acólita, secretária da Cáritas, ou catequista”  - este pedido se repete muitas vezes. Acha que há actualmente  uma reflexão teológica  sobre a mulher? Poderia explicar brevemente o seu pensamento teológico subre este tema?
O Papa é incisivo em individuar os pontos da reflexão que devem ser aprofundados. Há uma teologia que se está a fazer. Depreende-se isto das actas do simpósio sobre o papel da mulher na Igreja, organizado pela Congregação para a Doutrina da Fé em 2016. Ocorre recuperar a teologia profunda de Ildegarda, Geltrude, Matilde, Edith Stein e das mulheres doutoras da Igreja. É preciso desenvolver uma teologia com forte capacidade racional, ou seja, de dialogo com a cultura, com as filosofias actuais, mas também com a teologia contemplativa, a teologia de Maria e dos padres da Igreja.
 Fonte: Vatican News

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