quinta-feira, 30 de agosto de 2018

QUEM É O SEU PRÓXIMO?

"É bonita a vida de quem ajuda os outros a viver de novo"(Dom Luciano) (Noah Buscher by Unsplash)

Os profetas defendem o humano, seus direitos, sua dignidade

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Em tempos de Francisco é bom relembrar outros três pastores-profetas que muito se assemelham a ele em gestos e palavras. Em 27 de agosto celebramos a Páscoa de dom Helder Câmara (1999), Dom Luciano Mendes de Almeida (2006) e Dom José Maria Pires (2017). A caridade quanto mais personificada, mais é perseguida e rejeitada. Chamados de rebeldes e bispos de esquerda, são homens que escolheram o mesmo que Jesus: acolher os pobres e marginalizados. Puro Evangelho!
Logo depois de ser eleito, ainda cardeal Bergoglio, Francisco ouviu baixinho as palavras do amigo Cláudio Hummes: “Não se esqueça dos pobres!” Não foram diferentes as palavras de Dom Luciano antes de morrer: “Cuide dos pobres, não esqueça dos pobres!” ditas ao irmão Luiz. O Bispo de Roma, como Luciano, escolheu a simplicidade e a misericórdia como estilo de viver. O “bispo do Brasil” foi amoroso e humilde. “Em que posso ajudar?”, era sempre sua pergunta. Tudo “em nome de Jesus” foi seu lema. Movido pela misericórdia, disse uma vez que se deveriam “abrir as portas das casas e Igrejas para abrigar à noite os pobres”.
Um dos responsáveis pela criação da Pastoral do Menor, Luciano foi nomeado bispo auxiliar de São Paulo, arcebispo de Mariana, foi Secretário Geral (1979-1988) e Presidente (1987-1995) da CNBB. “Os Santos são o evangelho vivo”. Os que o conheceram o dizem santo. Em breve será canonizado.
Os profetas defendem o humano, seus direitos, sua dignidade. Foi assim a vida de Dom Helder Câmara, conhecido como "irmão dos pobres", mas também como “Bispo Vermelho”. Apelido que ganhou dos militares em tempos da ditadura. “Sempre que procura defender os sem-vez e sem-voz, a Igreja é acusada de fazer política”, disse. Mas, antes de ser identificado assim, cometeu “um erro de juventude” como costumava justificar os tempos em que apoiou a direita integralista. Mas o contato permanente com os mais pobres mudou sua vida. "Se dou comida aos pobres, eles chamam-me santo. Se pergunto por que razão os pobres não têm comida, eles chamam-me comunista".
Dom Helder, como Francisco, incomodou a muitos, principalmente ao denunciar fora do Brasil a violação dos direitos humanos e as atrocidades cometidas pelo regime militar. Acolheu em sua casa muitos perseguidos políticos. Foi o exemplo vivo da Igreja em saída que tanto defende Papa Francisco. Presente nas periferias e denunciando as injustiças. O bispo dos pobres foi articulador da fundação da CNBB, das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), teve papel decisivo na criação do Movimento dos sem Terra (MST) e de diversos sindicatos rurais. Foi chamado de "homem simples, pobre e desprendido", "exemplo de uma Igreja que tem muita coisa a mudar em si".
Grande amigo de Dom José Maria Pires, juntos estiveram no Concílio Vaticano II. Estavam entre os 40 bispos que assinaram o Pacto das Catacumbas da Igreja Serva e Pobre. Comprometeram-se a viver como o povo, sem títulos e roupas luxuosas, assim como do uso de ouro e prata, sem propriedade pessoal, estabelecer relações horizontais de diálogo em suas dioceses. Essa é a Igreja que Francisco almeja, distante dos “centros” e que se aproxime das “margens” do mundo. Era um homem sem meias palavras: “Dom José Maria vai às causas, vai às raízes... fala claro, sem perder a serenidade, chamando as coisas pelos nomes”, dizia dom Helder sobre o amigo. Depois de ser bispo de Araçuaí, assumiu a arquidiocese de João Pessoa por 30 anos. Tornou-se bispo emérito peregrino sempre animando as comunidades. Sua causa era a dos empobrecidos e sua luta a justiça social. Assumiu sua etnia e se entregou a defesa dos negros, carinhosamente chamado de Dom Zumbi. Incentivou a criação da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Trabalhou no processo de enculturação da liturgia e diálogo inter-religioso. Grande incentivador da Missa dos Quilombos e da Missa da Terra sem Males, junto com Dom Pedro Casaldáliga.  
Denunciou a ganância dos fazendeiros e coronéis do Nordeste. Como Francisco, criticou o capitalismo: “Dar esmolas, todos acham que é razoável. Mas aceitar que é um roubo guardar o supérfluo quando a outros falta o necessário, isto lhes cheira a marxismo. Realmente, dentro da mentalidade dominante, não é fácil aceitar a receita da Populorum Progressio que é a mesma do Evangelho”. Ir para a margem da sociedade, da Igreja, do mundo foi seu maior gesto.
“Insignis charitatis erga pusillos et pauperes” – de extraordinária caridade para com os pequenos e pobres – esse foi o traço mais marcante na vida destes pastores. Seus preferidos eram os mesmos de Jesus. Na Igreja desses bispos não há espaço para acomodados, acovardados e indiferentes. Inquiete-se: qual é a sua causa, quem é o seu próximo? “É bonita a vida de quem ajuda os outros a viver de novo” (Dom Luciano). Quer ser santo? Ame. “Quem ama o próximo cumpre plenamente a Lei” (Rm 13,10).
Fonte:domtotal.com.br
*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).
 

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