sexta-feira, 28 de setembro de 2018

CELIBATO E CASTIDADE EM TEMPOS PÓS-MODERNOS

A castidade é, na visão cristã, um elemento de integração da sexualidade
ao exercício da realização humana, e não uma ruptura. (Grant Whitty by Unsplash)

Viver castamente é, dentro da compreensão cristã, uma abertura ao amor capaz de se ver como livre e de ver o outro como livre também.

Falar de sexo no ambiente religioso é quase sempre uma fria. Afinal de contas, situar-se diante deste tema é expor-se francamente ao juízo, nem sempre ponderado, de quem lê ou escuta sobre o assunto. Qualquer termo de um discurso que relacione fé e sexualidade pode ser lido como laxista ou conservador em demasia. Vamos aqui assumir o risco de colocar novamente esse assunto na mesa para lançar luz e conversar sobre ele, sem a pretensão de levantar bandeiras de autoridade ou ufanismos de apologética – deixemos isso para os textos doutrinais das religiões.
Coube-me discorrer sobre castidade e celibato, dois termos que parecem exalar retrocesso nos ouvidos pós-modernos. Eu, na condição de professor de religião para adolescentes, dou testemunho: como é árido o terreno da sexualidade nos nossos meninos e meninas! Refletir sobre os méritos de alguma continência em relação ao exercício da sexualidade parece uma aberração. A leitura de um livro do saudoso Frei Antônio Moser, um dos pilares da Teologia Moral no Brasil, me fez lembrar que a mídia exerce, nos tempos de hoje, uma força quase que exclusiva na formação das ideias e na moldagem dos comportamentos, inclusive no campo da sexualidade. Frei Moser ainda lembra que “embora as igrejas e religiões continuem tocando os corações, e talvez até mais do que no passado, chegando em alguns contextos e momentos a levar ao entusiasmo, elas perdem o poder de convicção em termos de ideias e de comportamentos. Isto não vale apenas para o campo da sexualidade; mas sem dúvida é aqui que a força da mídia se manifesta como mais determinante” (MOSER, A. Teologia Moral: Questões Vitais. Petrópolis, 2005. p. 36). Refletir então de maneira propositiva sobre celibato e castidade hoje em dia é, no popular, quase que dar um ‘tiro no pé’. Mas vamos em frente.
Comecemos pelo primeiro termo – a castidade. Na doutrina cristã, lê-se que a castidade é uma virtude universal e está intimamente ligada à capacidade de amar. Na versão para jovens do Catecismo católico (o Youcat), está escrito que “nem todas as pessoas estão vocacionadas para o casamento, mas todas estão vocacionadas para o amor [...] Ser casto significa amar sem reservas. Quem não é casto está dilacerado e não é livre” (YOUCAT, p. 221).
Nas origens do Cristianismo, entendia-se a castidade como a completa negação da dimensão sexual e a canalização das energias provenientes desse componente da existência para a edificação do Reino e para o serviço a Deus e à Igreja. Lembremos da admoestação que Paulo faz aos coríntios, num tempo em que se via como temporalmente próxima a segunda vinda de Jesus: “O que quero dizer é que o tempo é pouco. De agora em diante, aqueles que têm esposa, vivam como se não tivessem” (1a Carta aos Coríntios 7,29). Nos primeiros séculos, entendeu-se com clareza que a consagração total ao Reino significava a ruptura com a afetividade e a vida sexual. Muitos santos (e especialmente as santas virgens) se notabilizaram na Igreja por essa noção. Houve até quem levasse essa ideia às últimas consequências. É o caso de Orígenes, um teólogo fundamental para entender o Cristianismo entre os séculos II e III. Queria tanto ser casto que decepou a própria genitália – diz a tradição que ele justificava esse ato por conta da leitura literal do texto de Mateus 19,12 em que Jesus diz que alguns homens se fazem eunucos por conta do Reino dos Céus. Orígenes teve tudo para ser considerado santo pela Igreja. Não o é justamente por conta dessa mutilação. Diz a Igreja que o bom casto é aquele que se faz assim de corpo inteiro.
A castidade (ao lado da pobreza e da obediência) é um dos votos que faz qualquer homem ou mulher que deseja se dedicar à vida religiosa no catolicismo – ser um frade religioso, uma freira, um irmão consagrado, um monge ou algo semelhante. Como ler esse voto nos tempos atuais? O frade José Lisboa Moreira de Oliveira, da congregação dos verbitas, escreveu em 2001 um livro sobre este assunto. Ele diz que “em determinadas situações, por falta de aceitação da dimensão sexuada de toda pessoa humana, a vida consagrada ficou resumida ao surgimento e à tentativa de resolução de conflitos e problemas afetivos. Toda a energia é canalizada para a busca de ‘negociação’ de tais conflitos [...] Porque a sexualidade é negada, a vida comunitária torna-se insuportável. As pessoas não se amam de verdade. Vivem fazendo guerra umas com as outras. O ambiente fica infestado de ciúme, inveja, ódio, rancor, fofoca e assim por diante. Nesse clima torna-se quase impossível viver castamente” (OLIVEIRA, J. L. M. de. Viver os Votos em tempos de pós-modernidade. Loyola, 2001. p. 45).
Percebe-se aqui, tanto no cenário do cristianismo primitivo quanto na contemporaneidade, que a castidade é, na visão cristã, um elemento de integração da sexualidade ao exercício da realização humana, e não uma ruptura. Viver castamente é, portanto, dentro da compreensão cristã, uma abertura ao amor capaz de se ver como livre e de ver o outro como livre também. Assim, ainda na leitura cristã, consegue-se compreender com mais nitidez a insistência pela prática sexual dentro do matrimônio – sacramento no qual, de modo livre, homem e mulher se dão um ao outro para a eternidade. A partir dessa noção, diz o catolicismo, fora do casamento o sexo tende a viciar, a escravizar, a objetivar, a mercantilizar e a individualizar o prazer. Não é, portanto, fruto de um amor-doação livre e sem reservas.
Derivado da castidade, o celibato aparece como outro termo nebuloso nos nossos dias. O celibato não é uma virtude, mas um estado de vida. Trata-se da decisão de permanecer solteiro, sem envolvimento afetivo-sexual, de modo a dedicar o tempo e o esforço para a evangelização. Há fiéis leigos celibatários por opção. E, entre os clérigos católicos (diáconos não casados, padres e bispos), esse estado de vida ganha uma dimensão disciplinar. Em tese, ao decidir por ser padre o sujeito acolhe livremente a disciplina do celibato. Diz o direito do catolicismo romano, no cânon 277: “Os clérigos têm obrigação de guardar continência perfeita e perpétua pelo Reino dos céus, e portanto estão obrigados ao celibato, que é um dom peculiar de Deus, graças ao qual os ministros sagrados com o coração indiviso mais facilmente podem aderir a Cristo e mais livremente conseguir dedicar-se ao serviço de Deus e dos homens”. Trata-se de um caminho de coração indiviso, diz o texto. Ou seja, mais uma vez, subjaz a ideia de um amor exclusivo, livre e consciente.
Estaria nossa sociedade adoentada demais para ao menos compreender esses conceitos? Ou a contemporaneidade já provou que essas construções existenciais caíram em desuso e estão em vias de serem suplantadas? Em cada consciência reside uma resposta. Qual é a sua?
* Felipe Zangari é jornalista (Faculdade Cásper Líbero, 2005), bacharel em Teologia (Claretiano, 2016) e mestrando em Ciências da Religião (PUC-Campinas). É diretor executivo da Rádio Brasil (emissora da Arquidiocese de Campinas) e professor de Ensino Religioso do Colégio Notre Dame em Campinas-SP
 Fonte: domtotal.com

  

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