terça-feira, 25 de setembro de 2018

JOGA AS ARMAS PRA LÁ

A internet se tornou palco para os mais distintos discursos de ódio.
Vociferam violências que nada têm a ver com o Reino de Deus e com a sua Palavra.

Posições extremistas tenderão a prevalecer sobre aquelas que conclamam ao diálogo e consequente entendimento mútuo.
Os Evangelhos testemunham que Jesus ensinava sobre o Reino às multidões. Não são raros os momentos em que o Mestre narra para seus ouvintes uma sabedoria a ser vivida como resposta de quem assumiu para si os valores evangélicos. Por isso, os que optam radicalmente pelo Reino não tomam os ensinamentos de Jesus apenas como um conjunto de conteúdos a serem apreendidos intelectualmente, mas como uma ética que orienta o modo como se vive. Por isso, o cristianismo é o convite a um modo de vida a ser assumido na liberdade, jamais como imposição que escraviza e mata.
No Evangelho de Mateus, Jesus ensina às multidões que acorrem a ele do alto de uma montanha. O ensinamento ficou popularmente conhecido como sermão da montanha, no qual predomina o convite às bem-aventuranças. Uma das bem-aventuranças estabelece o comportamento necessário para ser reconhecido como “filho de Deus”. Trata-se de empenhar-se na promoção da paz (cf. Mt 5,9). Não a paz dos cemitérios concorde ao silêncio dos túmulos, mas uma paz em proveito da vida, disposta a denunciar as injustiças que comprometem os direitos das pessoas e o bem comum. Como se pode ver, tanto para a comunidade de Mateus como para a comunidade cristãs ao longo das épocas, promover a paz é uma atitude ética, critério dos que acolhem o Reino anunciado por Jesus, que, como tal, não deve ser relativizado.
O distanciamento de uma leitura sistemática e histórico-crítica das Escrituras da fé podem nos conduzir ao esquecimento da ética cristã, do seu conteúdo e da sua vivência. O risco de cairmos em sedutores cantos de sereia é bastante alto, principalmente quando um clima de histeria coletiva, fomentado midiaticamente, faz com que as pessoas fiquem sem a expectativa de um futuro melhor e mais feliz. Posições extremistas tenderão a prevalecer sobre aquelas que conclamam ao diálogo e consequente entendimento mútuo. E o que temos visto no Brasil são pessoas cristãs, em nome do combate a uma espécie de inimigo imaginário, elegerem as pautas que contradizem uma vida alinhada ao Evangelho anunciado por Jesus.
A internet se tornou palco para os mais distintos discursos de ódio. Vociferam violências que nada têm a ver com o Reino de Deus e com a sua Palavra. Condenam-se antes mesmo de um julgamento honesto das posições que divergem. Por outro lado, tornou-se mais fácil identificar os posicionamentos duros, muitas vezes preconceituosos, de pessoas que estão ao nosso lado convivendo cotidianamente conosco. Entristece quando, por exemplo, um comentário numa rede social justificava o voto em nome da fé cristã e elegia como preferência o armamento da população à educação para o convívio respeitoso com a diversidade sexual. Não se trata apenas da escolha desse ou daquele candidato, não se trata apenas de eleger essa ou aquela cartilha política, mas de ser concorde com um comportamento que está muito distante daquele esperado de um cristão ou cristã.
Mas como sempre é tempo para o arrependimento e a conversão, é proveitoso voltar ao Evangelho é perceber que é maldito todo aquele que deposita sua esperança no homem e na segurança das armas. É tempo propício de promover a paz, não como silêncio obsequioso, mas como compromisso responsável para que a vida seja mais. Os filhos e filhas de Deus sabem que o verdadeiro caminho para o Reino definitivo não é o da violência, mas o da misericórdia e do perdão. Joguemos nossas armas para lá e com nossas mãos façamos a paz que só pode surgir do respeito.
*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

Nenhum comentário:

Postar um comentário