quarta-feira, 31 de outubro de 2018

BOLHAS E NÃO HUMANIZAÇÃO.

As redes sociais são bons instrumentos para se fazer amizades e expor ideias,
mas não podem ser os únicos para as relações humanas (Reprodução)

O humano se faz a partir do outro e somente a partir desse encontro é que nos tornamos mais humanizados.

O ser humano é um ser de relação. Embora muito conhecida, essa frase, muitas vezes, não é vista em sua profundidade. Principalmente em tempos tão conturbados como os nossos, com extrema polarização na sociedade e o crescente de discursos fechados em si mesmos, que considera todo diferente como inimigo, resgatar essa característica humana se torna tarefa imprescindível para todo teólogo e toda teóloga que deseja fazer uma teologia que faça sentido para pessoas dos dias atuais.
Dizer que o ser humano é ser de relação é dizer que este se constrói a partir dos relacionamentos que estabelece com seus semelhantes e com o mundo à sua volta. Mais ainda, é dizer que não conseguimos nos tornar humanos de maneira isolada, como se fosse possível viver em uma ilha deserta, sem ninguém e, ainda assim, fosse possível que desenvolvêssemos nossa humanidade. Em outras palavras, o humano se faz a partir do outro e somente a partir desse encontro é que nos tornamos mais humanizados.
Embora seja muito bonito de se ouvir, na atualidade isso tem se tornado um grande problema. Isso por causa das diversas bolhas sociais que têm se criado na sociedade, fruto, em grande parte, das redes sociais, em que se escolhe, com somente um clique, quais pessoas entram e quais pessoas saem de nosso convívio.
As amizades seguem o mesmo rumo e de clique em clique vai se adicionando os conhecidos e os conhecidos dos conhecidos, a ponto de poder ter até 5000 amigos listados no seu perfil. Quem imaginou que um dia se poderia ter à disposição 5000 amigos/as com os/as quais se pudessem conversar a qualquer momento, somente dando uma chamada a partir do chat? Isso era algo impensável para uma sociedade sem computadores e sem aparelhos eletrônicos desenvolvidos como os que temos hoje.
Mesmo com todas as vantagens que as redes sociais podem trazer, tais como encontrar pessoas que não vemos há muito tempo, ou organizar manifestações em favor de causas comuns, ou ainda encontrar algum emprego de forma mais rápida e fácil, é também importante se perguntar até que ponto nessas redes há uma relação pessoal com quem está do outro lado e até que ponto há um desenvolvimento humano nessas relações.
Se a relação se dá somente com quem compactua com determinada forma de pensamento, se a relação se dá somente no nível virtual, sem o contato presencial do outro, com suas manias, questões, problemas, emoções etc, seria essa relação humanizada ainda que realizadas entre dois humanos virtualmente?
A relação humana é marcada, desde seus primórdios, pelo contato com outro humano, com outro igual, mas diferente, que é trazido a meu caminho pelas contingências da vida, de maneira que os encontros não são somente agendados ou escolhidos por um aplicativo que conhece minhas “preferências”. Muito mais que isso, é na relação com os pensamentos divergentes que nos tornamos melhores. É na escuta atenta das posições alheias que aprendemos mais profundamente nossa própria humanidade. Se Deus, como afirma o Cristianismo, é um Deus de relação, então é importante recuperar essa característica e estarmos dispostos a ouvir posições que fogem àquilo que nós consideramos como corretos, reconhecendo que diferentes visões de mundo podem nos auxiliar a nos tornar pessoas melhores e, consequentemente, mais humanizadas.
Sair da bolha que o próprio Cristianismo criou para si é tarefa fundamental em momentos de polarização exacerbada. É preciso ouvir, é preciso estar presente, é preciso o corpo a corpo. O Cristianismo que se fecha em si mesmo, como detentor da verdade absoluta não diz nada de bom para a sociedade e não segue o esvaziamento feito pelo próprio Deus para se relacionar com a humanidade.
As redes sociais são bons instrumentos para se fazer amizades e expor ideias, mas não podem ser os únicos para as relações humanas, nem para as lutas da sociedade, nem para a promulgação do Evangelho.
O Evangelho se vive na vida real, a partir de decisões que se coadunam com aquilo que Jesus fez enquanto esteve conosco, de maneira que não há um “mundo do discurso” e um “mundo da ação”, mas as ações devem refletir as palavras e as palavras devem embasar as ações, de maneira que dizer-se cristão nas redes e dar suporte a discursos não cristãos na vida real é um contrassenso.
A humanização proposta pelo Cristianismo se dá pela relação com as pessoas. Essa relação, por sua vez, deve ser de tal maneira que as bolhas sejam destruídas e a vida prática reflita a Boa Nova que é a Palavra de Deus.
*Fabrício Veliq é teólogo. Doutor em teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE) e Doctor in Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven) - Bélgica, formado em matemática e graduando em filosofia pela UFMG. Membro do grupo de pesquisa Fundamental and Political Theology em KU Leuven e dos Grupos de Pesquisa “Estudos de Cristologia” e “Diversidade afetivo-sexual e Teologia” da FAJE
Fonte: domtotal.com

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