sexta-feira, 30 de novembro de 2018

O MÍNIMO QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE TEOLOGIA PARA NÃO SER IDIOTA

Como querem a simples repetição de documentos e o cumprimento
cego de normas eclesiais, estão fechando as portas da fé aos que querem,
de coração sincero, interpelar fé e vida. (Matt Botsford by Unsplash)

As pessoas estão acostumadas a frequentar igrejas e creem que entendem tudo de religião, fé e teologia.
Por estarem acostumadas a algo, é comum que as pessoas julguem entendê-las. Por assistir a muitos jogos, tem torcedor que se acha técnico de futebol. Por ver e ler jornais, há quem ache que sabe jornalismo. Daí se vê gente chamando artigo de opinião de fake News, porque é incapaz de diferenciar notícia de outros gêneros. Aliás, falar a palavra gênero já gera polêmica porque incautos, que nunca se dedicaram ao estudo ou reflexão mínima sobre a sexualidade, já entendem que existe uma “ideologia de gênero” que quer fazer com que menino se comporte como menina e vice-versa, o que é mentira. Mas quem fala isso acha que entende de sexualidade (porque já transou?).
O mesmo vale para a religião. As pessoas estão acostumadas a frequentar igrejas e creem que entendem tudo de religião, fé e teologia. Leram partes ou até mesmo a bíblia toda e se sentem sabedoras profundas – pasmem – da vontade de Deus, para si e para os outros. Ultimamente a ignorância vem em combo e - perdoem a palavra - os idiotas acreditam que entendem de jornalismo, religião, sexualidade, ciências sociais, educação, economia e política ao mesmo tempo. Fazem uma amálgama de boçalidade e, como têm voz nas novas mídias, gritam aos quatro cantos que estão certos até fazer valer o que querem.
Digo “idiotas” usando o sentido próprio do termo. Originando do grego antigo, ἰδιώτης (idhiótis) designava a pessoa que se apartava da vida pública – a política, a busca do bem comum na pólis (cidade) era assunto de suma importância – fechando-se nos próprios interesses. Hoje o idiota vai à vida pública, mas continua fechado em sim mesmo e toma a si como régua para medir e ditar o comportamento e pensamento alheios.  Se você reza diferente do que ele pensa ser a única maneira certa, será execrado por isso. O idiota é capaz de juntar outros como ele, gravar vídeos e mobilizar a Igreja até que o diferente seja excomungado. Isso tem valido para diversos campos da sociedade. Pergunte aos palpiteiros da Educação, quem leu Piaget, Vigotski, Dewey, Montessori, Paulo Freire. Esse último tem sido apedrejado por quem não só não entende da área, como nunca leu nada dele, no muito um texto de algum comentador ou um vídeo do YouTube repleto de deturpações, para dizer de forma educada.
De todas as áreas, a Teologia talvez seja uma das mais alarmantes no que tange à ignorância.  Isso se mostra por coisas bem evidentes. Basta olhar os efeitos nefastos que uma compreensão deturpada das Escrituras pode causar. No plano político, há uma legião de parlamentares eleitos para defender os interesses particulares de seus agrupamentos religiosos, compondo bancadas que querem obrigar a população a viver sua interpretação de mundo pautada nos seus equívocos teológicos. Eles usam a fé para se promoverem e manipular uma parcela da população. Além disso, há outros malefícios que se pode ler inclusive em páginas policiais, como gente que mata “em nome de Deus”; pessoas que se suicidam, adoentados pela culpa religiosa; famílias divididas porque um dos membros não partilha da mesma fé.
Por outro lado, o desconhecimento da Teologia não é um problema dos que se dizem crentes, ele toca também ateus, agnósticos e gente que não tem posicionamento certo.  Às vezes, doutores e pós-doutores são geniais em suas áreas mas, quando falam de Igreja e fé, só se ouve desconhecimento travestido de palavras bonitas. Afinal, saber muito de uma coisa não é o mesmo que saber muito sobre tudo e poucos se dedicam à História da Igreja e às questões teológicas. Um dos primeiros erros, por exemplo, é tratar a Igreja Católica como um bloco monolítico, sendo que, apesar de ser una, é plural e conta com diversas escolas de espiritualidades, correntes teológicas, etc. Não é tudo igual.
Há, sim, uma voz “oficial” expressa pelo Magistério da Igreja. Mas aí já entra uma polêmica teológica. O Magistério seria composto somente dos que que compõem a hierarquia da Igreja institucional, somente dos seus bispos e oficializada pelo papa? Alguns setores dizem que sim, principalmente os ligados a essa estrutura.  Assim, se um grupo diz que só se pode ouvir o Magistério e esse mesmo grupo disser que ele é o Magistério, não lhe geraria alguma suspeita? Perdoem-me por simplificar a questão, as linhas são poucas para detalhar algo que pode ser aprofundado num livro inteiro ou mais.
Além disso, há uma diferença que se deve fazer entre Teologia e Catequese. Essa última consiste na transmissão da fé. O catequizando apresenta questões enquanto é inserido na comunidade dos fiéis e vai obtendo respostas de acordo com a Tradição e as Escrituras à luz do Magistério que, particularmente, não seria composto só da hierarquia (entra também, por exemplo, o sensus fidei ), mas que por sua compreensão do todo pode ajudar assimilar o sentido da fé. Já a Teologia, apesar de partir da fé, constitui uma área de conhecimento autônoma e não se reduz a repetir o que os documentos da Igreja dizem. Isso não é Teologia.
Se a fé é dom de Deus desenvolvido e aprendido junto a uma comunidade de fé, as fontes da Teologia são, de fato, a Escritura, a Tradição e o Magistério. Contudo, essas fontes são acessadas de um lugar existencial e social, também chamado de lugar teológico. É daí que surgem as diferentes teologias, das diferentes abordagens que se faz às mesmas fontes segundo o lugar teológico que se ocupa. Desse modo, a Teologia do Corpo entende o corpo como lugar teológico, a Teologia Feminista entende a mulher como lugar teológico, a Teologia Queerentende os LGBTQ+s como lugar teológico, a Teologia da Libertação entende o pobre como lugar teológico. Cada um interpela a fé e as fontes de sua compreensão desde seu lugar no mundo.
Assim, cada lugar teológico se utiliza das ferramentas que possui para extrair sua compreensão da fé das fontes da teologia. Os pobres, por exemplo, em sua condição de exclusão social estarão mais atentos às lutas de poder presentes nos textos sagrados e às marcas do tempo em que foram escritos, e, por isso, utilizarão do método que melhor responde às suas questões. Talvez por isso o método histórico-crítico seja muito usado nessas teologias chamadas contextuais, pois é útil às interpelações apresentadas. Acontece que utilizar teorias de gênero, método histórico-crítico, método linguístico-pragmático, semiótica, estudos sociais etc. tornou-se algo próprio de quem se envolve academicamente com a Teologia. Com isso, essa área do saber foi se distanciando da vida das Igrejas. Deste modo, há uma religião popular e outra que se atém aos debates teológicos, embora a Teologia busque responder às interpelações vindas dos fieis e do dia-a-dia das igrejas.
Outro problema é que o cenário político cultural está afetando o fazer teológico. Aí voltam os ignorantes. Na demonização que houve da Esquerda, usar o método histórico-crítico se tornou sinônimo de ser marxista e, pela leitura fundamentalista do Magistério, algo condenável. Daí há um movimento para calar teólogos, onde se prega que não se deve pensar ou questionar nada da doutrina "oficial", basta repetir o que os documentos da Igreja dizem.  Por trás dessa censura não estão questões de fé, mas políticas e ideológicas.
Como querem a simples repetição de documentos e o cumprimento cego de normas eclesiais, estão fechando as portas da fé aos que querem, de coração sincero, interpelar fé e vida. Acontece o mesmo que no tempo de Jesus, quando os doutores da Lei sobrecarregavam os ombros dos que queriam viver a fé, mas eles próprios eram incapazes de vivê-la. Jesus, por se ater ao espírito mais que à letra, denunciava tal postura de quem fecha as portas do Céu aos pequeninos. Escândalo não oferece quem cria uma pastoral da diversidade sexual para acolher quem quer conciliar sua sexualidade e sua fé ou quem faz teologia crítica, mas é provocado por quem quer colocar a todos sob o jugo da lei. O capítulo 23 de Mateus é para esses que  "atravessam os mares e viajam por todas as terras a fim de procurar converter uma pessoa para a sua religião. E, quando conseguem, tornam essa pessoa duas vezes mais merecedora do inferno do que" eles mesmos.

Como um saber que se pergunta sobre Deus, a Teologia Cristã é possível porque Deus se revela aos homens na pessoa de Jesus. Este, por sua vez, em sua dupla natureza, não só nos ensina sobre o divino, mas sobre a própria humanidade. Assim, a Teologia não reflete somente sobre realidades sobrenaturais, mas sobre tudo aquilo que toca o humano. Pensando sobre isso, Teófilo da Silva, em seu texto A teologia e a responsabilidade para tocar as questões humanas, mostra como o fazer teológico não pode evitar questão humana alguma.
Felipe Magalhães Francisco, no texto A teologia não é tarefa infantil, explica como se faz Teologia, diferenciando-a de outras ciências porque nela está implicada a fé.  Em sua reflexão, o autor critica a compreensão infantil da fé que quer cercear a Teologia de modo que ela só possa repetir dogmas que compõem a fé cristã. Antes, ela interpela o dogma para que este possa fazer sentido às pessoas de cada época.
Na mesma linha, Gustavo Ribeiro discute qual é a tarefa que compete à Teologia, uma vez que ela trabalha com as fontes da Fé e experiência humana. Apoiando-se num dos maiores teólogos da contemporaneidade, o autor mostra o caráter profético que o fazer teológico deve assumir no texto Teologia: entre o sexo dos anjos e a profecia.
Boa leitura!
*Gilmar Pereira é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP; bacharel e licenciado em Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF); bacharel em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Também possui formação em Fotografia pelo SESI-MG/ Studio 3 Escola de Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante há 18 anos, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. 
Fonte: domtotal.com


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