quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

AO ENCONTRO DE DEUS NO MEIO DA LAMA PRODUZIDA PELOS HERDEIROS DE CAIM


Crime sem castigo, capitalismo neoliberal em estado puro. Aos ricos, o lucro. Aos pobres, a morte

A Vale volta a matar! Apenas três anos separam o maior crime ambiental do Brasil (Samarco/Mariana) do maior crime trabalhista. Dezenas de mortos! Centenas de desaparecidos! A pouca transparência na divulgação dos dados deixa incerto onúmero de vítimas e as reais consequências socioambientais em Brumadinho. Mais uma vergonha internacional.

Homicídio coletivo! (Dom Joaquim Mol). Uma só vida humana sempre vale mais que todo o minério do mundo. Mas, para os avarentos, o lucro é o único bezerro de ouro digno de salvar. O resto são insignificâncias. Quem nada tem, nada vale. A Vale simboliza a infâmia global do capitalismo financeiro. Catástrofes humanitárias e ambientais não são exceção. São regra. Os pobres pagam a conta. Um país colônia serve para exportar riqueza e arcar com os prejuízos. O “capitalismo tende a destruir suas duas fontes de riqueza: a natureza e os seres humanos. A desvalorização do mundo humano aumenta em proporção direta com a valorização do mundo das coisas” (Karl Marx). Essa economia mata! (Papa Francisco). Necroeconomia!

O discurso nonsense da inexistente ideologia de gênero está servindo para concretizar a real ideologia da lama. Em Brumadinho ela revela seu grau mais perverso. Triste Horizonte. A maior de todas as tragédias socioambientais representa uma metáfora perfeita do abismo moral em que caímos, uma lama tóxica. Corpos arrastados. Crianças, idosos, mulheres, trabalhadores, gritos sufocados, olhos aterrorizados. Como em Mariana. Naturalizamos as tragédias em que estamos afundados? Os desastres são atribuídos ao imprevisto, crimes viram acidentes. “Licença ambiental atrapalha obras” (Jair Bolsonaro). Brumadinho é um retrato deste neofascismo de mercado. Essa política mata!

Optamos pela barbárie? Depois de sobrevoar Brumadinho, o presidente disse que a “Vale terá prejuízos bilionários”. Com que está preocupado o presidente que tem por ministro do meio ambiente um investigado por fraude ambiental e favorecimento a mineradoras? Presidente, que como outros, recebeu apoio de empresas que só querem ganhar dinheiro, como a Vale. Herdeiros de Caim, o primeiro homicida da humanidade. Suástica convertida em cifrão. Necropolitica!

O que um STF enlameado tem a dizer? Se a justiça brasileira fosse séria, o presidente e os executivos da empresa estariam presos. Dão entrevistas como se fossem também as vítimas. De bolsos cheios discursam consternados. Três anos depois nenhuma vítima de Mariana foi indenizada. A Samarco, que tem a Vale como acionista, ainda não pagou nenhum centavo de multa. O Ministério Público Federal anistiou uma multa de 20 bilhões da Vale/Samarco. No Espirito Santo foram 19 multas, a Vale não pagou nenhuma. Crime sem castigo, capitalismo neoliberal em estado puro. Aos ricos, o lucro. Aos pobres, a morte. Eventos catastróficos são extremamente benéficos para as grandes corporações. Com Brumadinho não será diferente.  Os juízes parecem ocupados demais em defender seus próprios bolsos. “O poder soberano é o poder de fazer viver e de deixar morrer” (Michel Foucault).

As últimas eleições deixaram um rastro de trevas e estupidez. Os maiores invocadores de Deus parecem sócios do maligno. Em nome do moralismo anti-humano busca-se legitimar nossa desgraça com argumentos religiosos. “Deus está no comando”. Medíocres, muitos cristãos assumiram seu cinismo de forma desavergonhada. Um conservadorismo enlouquecido em um país com mais de 55 milhões de pessoas pobres e 15 milhões de miseráveis.

O que Deus tem a dizer? Converter o dinheiro em poder supremo implica a negação do Deus da vida. As vítimas desmascaram toda a gravidade do pecado cometido em Brumadinho. Por trás da idolatria se esconde a ocultação da injustiça (Rm 1,18ss). Onde há idolatria, apagam-se Deus e a dignidade humana. Deus sofre com as vítimas e pede nossa responsabilidade. Mas o poder de tamanha violência não pode ser maior que o Deus da vida. A resposta ao sofrimento começa pela indignação diante desse crime e pela compaixão ativa com as pessoas atingidas.  Que se faça Justiça!

Bombeiros são esses agentes da vida, levam humanidade, são a única esperança dos abandonados. Para os que se debatem entre a vida e a morte no meio da lama, Deus se apresenta na dedicação extrema destas mulheres e homens de vermelho, sujos e exaustos, mas incansáveis na busca dos seus irmãos. Quando socorrem alguém, eles não perguntam pela religião, pela raça ou orientação sexual. É como se Deus, que grita em Brumadinho, não tivesse mais com quem contar. Rostos e olhares que inquietam e clamam por um gesto de amor. Ao responder a eles, bombeiros respondem a Deus. Ao fazê-lo, dão uma lição a tantos cristãos incapazes de misericórdia e solidariedade. O amor precede qualquer discurso religioso.

 Ir ao encontro de Deus no meio da lama. Quem está pedindo socorro, veio do “alto” e anuncia sua dignidade sagrada. Bombeiros deixam de ser o centro para centrar-se nestes outros. Sua verdade é a vida destes. Gratuidade absoluta. O resgatado não tem com que retribuir, a não ser com abraços e lágrimas de gratidão. Contra Vales da morte, humanismo em sentido pleno. Quanto mais o bombeiro salva, mais ele quer salvar: “Aqui estou, eis me aqui!” (Is 6,8). Isso é a verdadeira religião.

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

Fonte: domtotal.com

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