terça-feira, 29 de janeiro de 2019

VISITA ESTA VINHA!

Sentimo-nos como a vinha devastada e pisoteada,

destruída pela lama da barragem de rejeitos que se rompeu em

Brumadinho, Minas Gerais. (Douglas Magno/ AFP)

A ganância dos inimigos passou pisoteando vidas que jamais deveriam terminar de maneira tão violenta

O Salmo 80 é uma súplica coletiva que muito provavelmente se popularizou ao longo das épocas em Israel, sendo rezado pelo povo em sua história, sobretudo em contextos de fortes crises e nos ambientes nos quais a vida e a fé estavam ameaçadas. A consciência do salmista de que a vinha do Senhor, que fora arrancada do Egito, plantada e cultivada (cf. v. 9-10) numa terra preparada, está agora abandonada ao poder e ação dos inimigos (cf. v. 13-14), faz-nos acreditar que a composição do salmo remonte aos períodos de conflitos com outros povos estrangeiros, nos quais Israel se viu invadido e devastado. A compreensão de que Deus derrubou as cercas que protegiam a vinha, permitindo que os carrascos a destruíssem se dá na esteira da consciência de que a ira inflamada do Senhor está intimamente relacionada à infidelidade do povo por causa dos seus pecados. Mas o refrão que se repete ao longo do salmo reconhece a fidelidade de Deus e, por isso, consiste em um pedido de restauração do povo que se sebe devastado. Se Deus visitar sua vinha (cf. v. 15) e voltar seu olhar sobre seu povo (cf. v 4;8;20), eles serão salvos e viverão.

A metáfora da vinha foi fortemente utilizada na tradição judaica, ganhando bastante destaque nas literaturas profética e sapiencial. Jesus afirma de si que ele é a videira verdadeira que está unido ao Pai e no qual todos nós devemos permanecer (cf. Jo 15). Logicamente, Jesus recapitula em si a experiência do povo de Deus capaz de responder com fidelidade ao projeto do Reino de paz e fraternidade. À luz da vitória de Cristo sobre a morte, a experiência da videira deverá ser outra, não mais abandonada e destruída, mas aberta aos cuidados do agricultor que é o Pai. Nesse sentido, em Jesus temos realizado de uma vez por todas a súplica do salmista do Salmo 80. Deus visitou sua vinha, voltou seu olhar, salvou e deu a possibilidade de uma nova vida.

Olhando para nossa realidade, o sentimento do povo antigo que se reunia para rezar o Salmo 80 vem-nos a garganta como um grito de dor sem fim: “Deste-lhe a comer um pão de lágrimas e tríplice medida de lágrimas a beber” (v.6). Sentimo-nos como a vinha devastada e pisoteada, destruída pela lama da barragem de rejeitos que se rompeu em Brumadinho, Minas Gerais. A ganância dos inimigos passou pisoteando mães, pais, filhos, sobrinhos, netos, filhas, namoradas, pessoas com relações e histórias, vidas que jamais deveriam terminar de maneira tão violenta. O lucro ri de nós. O capitalismo cospe na nossa cara. O pecado cometido não é o do povo humilde e simples da cidade e dos trabalhadores e trabalhadoras da VALE, mas dos empresários, pessoas que ainda dormem em paz com as mãos sujas de lama e sangue inocente. Essas pessoas estão sempre esquecidas dos povos, seus costumes, ambientes naturais, suas criações e plantações, pois estão focados nas metas e resultados, no dinheiro que corrói a consciência humana e os faz deixar de pensar nas pessoas. Tem parte nesse pecado o Estado com suas leis caducas, sua fiscalização precária e o lobby político para a manutenção de interesses e privilégios. Tudo isso é consolidado como práxis de um modelo perverso de sociedade que degrada, exclui e mata todos os dias pessoas concretas como eu e você. Só em Brumadinho, o capitalismo assassinou vidas que jamais poderão ser recuperadas a qualquer preço das indenizações. Trata-se de uma maldade inescrupulosa.

Compreendendo que Deus cuida do seu povo em todos os momentos da vida e que acolhe as súplicas sinceras que brotam dos corações dilacerados, à luz da ressurreição de Jesus que é a videira verdadeira desejamos que, muito em breve, a esperança pela restauração seja o sentimento mais forte que ajudará a dar novo sentido à vida dos que perderam seus entes queridos no mar de lama e de ganância. Que o Deus que visita e permanece com a sua vinha, mesmo quando ela está devastada e ferida, traga a consolação e a paz, Ele que dá a todos, sem distinções, o Reino no qual não mais haverá morte, nem pranto, nem luto, nem dor.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com

Fonte: domtotal,com


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