sexta-feira, 24 de maio de 2019

ENTRE A TRADIÇÃO E O TRADICIONALISMO

Os grupos tradicionalistas ganham força na reconstrução de
 modelos imaginários de tempos perdidos, para os quais não
 podemos voltar. (Shalone Cason/ Unsplash)

No cristianismo há dois tipos de 'olhar para o passado'. Um é fruto da própria espiritualidade e o outro consistem em saudosismo de tempos onde 'as respostas e o contexto eram outros'.
"Vou abrir a janela da Igreja para que possamos ver o que acontece do lado de fora e para que o mundo possa ver o que acontece na nossa casa"
(São João XXIII, Papa.)
A fé é um organismo vivo e se renova, continuamente, pela ação do Espírito Santo no corpo eclesial. É essa a crença dos cristãos católicos, e é dessa maneira que se expressa a Palavra de Deus, sempre atual, revelada nas Sagradas Escrituras, na Tradição da Igreja e no Magistério. Tal articulação, revigorada no Concílio Vaticano II a partir da publicação da Constituição Dogmática Dei Verbum, recoloca dentro da temporalidade, da história e dos “sinais dos tempos” a presença e a eficácia dos ensinamentos divinos. Apesar da consciência dos padres conciliares de que a vida ordinária era essencial para a interpretação da Palavra, o que vemos, no contexto dos últimos anos, é um retorno irresponsável a elementos descontextualizados que, anacronicamente, pretendem resgatar uma “tradição” que já não dialoga com o cotidiano, a vida e a sociedade.
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A Igreja, durante séculos, dialogou com as comunidades nas quais estava inserida buscando, a partir das demandas sociais, culturais e religiosas, respostas inspiradas pelo “frescor do Evangelho”. Na história do cristianismo vemos os inúmeros percalços encontrados, seja pela necessidade de uma resposta “dura” e institucionalizada, seja pela demora na compreensão de que os tempos exigiam medidas rápidas de aproximação e presença da Igreja. Esses contratempos fortaleceram a dissociação de uma experiência dita “sagrada” de uma outra realidade denominada “profana”. Quando a experiência humana foi se configurando desta maneira, na dicotomia proposta pela própria vivência da fé, o clamor pela “voz do divino” ficou, cada vez mais, restrito aos âmbitos da “religião”. Essa diferenciação se fortaleceu, ainda mais, no distanciamento do estado e da religião, um processo que se iniciou na revolução da modernidade e que modificou nossa sociedade de maneira estrutural. Chegamos à contemporaneidade com a ideia do mundo profano e do mundo sagrado solidificado em nossas práticas.
Quando reduzimos a experiência do “divino” à faceta específica da existência, revestimos esse âmbito da vida de adereços que, ao invés de nos formar enquanto seres plenos, parecem nos levar a uma realidade que está distante e só pode ser alcançada a partir da negação total dos outros aspectos que vivemos. A herança do dualismo “espírito-corpo” se reorganiza em nossa sociedade atual com o “sagrado-profano”, “humano-divino”. Eis que essa distorção da experiência das primeiras comunidades nos levou para um cristianismo maniqueísta, uma batalha entre o “bem” e o “mal” personificados que se distancia fundamentalmente da fé no “Deus encarnado”. O cristianismo (nos moldes das primeiras comunidades cristãs católicas e no resgate da Tradição proposto pelo Concílio Vaticano II) é uma religião essencialmente do corpo, onde a terra e o céu se encontram e o sagrado e o profanos não se separam, mas possuem um único modelo: Jesus.
O mistério de Deus que se encarna no “hoje” da história humana é fortalecido pelo espírito que “nos une em um só corpo”; este corpo é o mesmo – porque se configura com o Cristo – mas também é plural, pois está inserido em uma cultura, uma história, um tempo, uma linguagem e um contexto. Somente desta maneira a Palavra de Deus se torna “viva e eficaz” porque dialoga com os seus filhos, agentes de um mundo que, cada vez mais, precisa de respostas. A Igreja, no Congresso Mundial das Universidades Católicas (CMUC), em 2013, já nos ensinava que “novos tempos precisam de novos sentidos”.
Diante desta dificuldade em perceber que a realidade do ser humano é completa em si, sem a necessidade de uma ruptura para o “plano do sagrado”, muitos grupos reivindicam a retrógrada visão de uma existência fragmentada em dois polos, repudiando uma existência “do mundo” e exaltando uma “vida de Deus”. Tais movimentos exaltam uma “visão da fé” que respondia aos problemas da Idade Média, ou do início do secularismo moderno, resguardando os símbolos e elementos culturais do cristianismo em uma época onde os ataques não buscavam um diálogo, mas a destruição. Uma outra comunidade humana vivia aquele contexto que, a partir dos seus problemas e dilemas, precisava de respostas que sustentassem sua existência no mundo, lugar da experiência de Deus. Quando a busca por essas “tradições” se torna uma exaltação daquilo que já aconteceu, sem entender o contexto específico e a realidade na qual elas estavam inseridas, encontramos uma desfiguração da própria Tradição e, consequentemente, do cristianismo.
Temos, nesse nostálgico retorno, uma incompreensão do lugar da Tradição na igreja e um movimento que chamamos de “tradicionalismo”. É preciso distinguir os dois tipos de “olhar para o passado” porque um é fruto da própria espiritualidade cristã e o outro um saudosismo de tempos antigos onde “as respostas e o contexto eram outros”. Como já explicitamos no início deste texto, a Tradição é uma fonte rica da revelação da Palavra de Deus e deve ser resgatada sempre a partir da interpretação dos tempos, da realidade da comunidade no “hoje” e da experiência convivial que é intrínseca ao contexto onde ela está. A Tradição é vista como uma “lente” na qual o presente e o passado se articulam, apresentando caminhos e respostas novas aos problemas da humanidade. Por outro lado, o “tradicionalismo” é a retomada de uma realidade passada como “norma” ou “prática” pelo simples fato de constar dentro de uma tradição. É o resgate de estruturas caducas que não dialogam com o contexto, mas reafirmam os enlaces da própria instituição da qual eles são “retirados” em uma autoafirmação e um isolamento diante dos desafios. Os “tradicionalistas” não estão abertos ao diálogo, pois todas as respostas que precisam já foram dadas pelas estruturas estabelecidas através dos séculos, e, ademais, o tempo atual é a corrupção, uma “comunhão divina perdida”. No lugar da busca pelo Evangelho no mundo atual, os “tradicionalistas” desejam um retorno ao tempo onde o “Evangelho era revelado”.
Os grupos “tradicionalistas” ganham força na reconstrução de “modelos” imaginários de tempos “perdidos”, para os quais não podemos voltar. O fenômeno das missas em latim, da retomada de devoções medievais, da visão de uma Igreja juíza e reguladora da moral e da liberdade, da visão teológica de um Deus vingativo, guerreiro e mercantilista, baseiam-se, em muitos casos, em documentos, comunidades, experiências e ensinamentos da própria Igreja, que, com o passar dos séculos e da vida eclesial, foram dialogando com os novos tempos e apresentando novas maneiras de tornar nossa a “carne de Cristo”. As janelas do Vaticano, abertas pelo papa João XXII, são um contraponto aos “tradicionalistas” e um bonito sinal do diálogo, caminho percorrido por Jesus ao elevar o ser humano à dignidade de filhos e filhas de Deus. Os cristãos são chamados, a partir da própria figura missionária de Jesus, a viver a plenitude de humanidade em todos os contextos, tendo como tesouro da fé todos os irmãos e irmãs que responderam, com suas limitações, sua realidade e seu tempo, o chamado por um Reino de Justiça.
O que vemos, portanto, não é um retorno às tradições para clarear a visão do nosso tempo, dos nossos desafios e da nossa realidade, mas um conservadorismo puro e simples, no intento de manter estruturas obsoletas que excluem filhas e filhos de Deus, invisibilizando os problemas e os questionamentos que a Igreja hodierna precisa responder. O “tradicionalismo” que ataca, inclusive, o “papa filho do Concílio”, busca uma igreja que se afasta do mundo em direção ao Divino. Esses grupos são míopes, pois não conseguem enxergar na própria vida da igreja, e na Tradição que eles tanto enaltecem, que o mandamento de Jesus, de “espalhar o Evangelho do amor” nos quatro cantos do mundo só é possível no diálogo com o tempo, o espaço e a cultura. A resposta adequada aos “sinais dos tempos” é, portanto, a dialética entre o modelo proposto por Jesus e os problemas que se apresentam, pois, o único mediador da nossa fé é o Cristo.
Enquanto os “tradicionalistas” querem trancafiar a Igreja em seus palácios, galerias e corredores, aqueles que acolheram a boa notícia sabem que Evangelizar é fazer da “história do povo” a “história da Igreja”. É por isso que Francisco (o papa) está nas ruas, resgatando o primeiro sinal da tradição: o brasão dos cristão reconhecidos como aqueles que amavam radicalmente.
*Daniel Couto é mestrando em filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), com pesquisas na área de filosofia antiga, retórica grega, filosofia aristotélica e recepção da filosofia antiga. Trabalha, ainda, com a Liturgia, a Ritualidade Cristã, a Cerimonialidade e a Teologia Litúrgica e é membro da REDE CELEBRA.
Fonte:domtotal.com

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