sexta-feira, 31 de maio de 2019

NOVA POLÍTICA: POUCOS COM MAIS E MUITOS COM MENOS


E todas estas pesquisas reveladoras da realidade, nua e crua,
são produções das universidades (Reuters/Nacho Doce/)

Vivemos um momento de falsificação da realidade.
As manifestações do domingo 26 de maio, pró-governo, mobilizaram a imprensa e deram eco a um mal arranjado acordo entre poderes por um pacto pelo Brasil.
Não se sabe ao certo o conteúdo do pacto, mas palavras como “combate à corrupção” e “reforma da Previdência” foram ditas.
Este artigo é escrito antes e será publicado após o segundo dia de jornadas pela educação e contra a reforma da Previdência, por isso, não contabilizará o saldo das manifestações do dia 30, apesar de ter como objetivo reforçar sua legitimidade e importância.
Vivemos um momento de falsificação da realidade, em que as poucas camisas amarelas de domingo, dia 26 de maio, parecem, aos olhos do público, tão importantes quanto as de diversas cores que saíram às ruas, em número maior que 1 milhão, em 260 cidades, e que pretendem repetir o feito neste dia 30. Não são tão importantes, pois baseadas na falsificação da realidade.
Pequeno atlas da tragédia da Previdência brasileira[1], publicação de pesquisadora e pesquisador da Universidade Federal de Goiás, inicia sua reflexão sobre os números e mapas a indicar o que mudará com a reforma da Previdência, dizendo que a média de rendimento das aposentadorias urbanas foi, em 2018, de R$ 1.487,37 e das rurais de R$ 953,43. Baixíssima!
Se a média é essa, os salários apontados como privilégios pelos jornalões[2], que rondam os R$ 30 mil, são de fato exceções à regra das remunerações previdenciárias. E não a regra, como querem que acreditemos.
O argumento central desta e de toda reforma previdenciária, desde que a Previdência foi reestruturada com a Constituição de 1988, é que sem ela o Estado quebra. Contudo, ninguém contou, não em cadeia nacional, que a pretendida economia de R$ 1 trilhão em 10 anos poderia ter sido atingida com diversas outras medidas que não prejudicariam os 27,97 milhões de pessoas (só entre aposentados e pensionistas) que receberam benefícios em 2018.
Uma dessas medidas seria o cancelamento da "MP do Trilhão". A MP 795/2017, editada por Temer e consolidada na Lei 13.587/2017,pelo Congresso Nacional, isentou as petrolíferas estrangeiras de tributos em valores que alcançarão o trilhão de reais em duas décadas. Um pouquinho mais de esforço e dá pra perceber que a escolha pela Previdência é puramente ideológica. Ou realmente as petrolíferas estrangeiras valem mais que 27 milhões de brasileiras e brasileiros?
Esta imagem é muito bem retratada, literalmente, pelo citado Atlas da tragédia da Previdência, ao mostrar que é na zona rural e nos lugares mais pobres, como as periferias urbanas, que a reforma da Previdência terá maior impacto.
Nos mesmos lugares, e não é coincidência, poderemos localizar o maior impacto do pacote “anticrime” proposto pelo ministro Sérgio Moro. O aumento do poder discricionário das polícias para amplificar a política de guerra contra o crime e o tráfico, como está comprovado em diversas outras pesquisas, resultará em aumento da morte e encarceramento de pessoas pobres, negras e das periferias.
Torço para que um próximo atlas mostre a tragédia do suposto combate ao crime, que resulta historicamente em repressão contra as classes trabalhadoras e empobrecidas.
E todas estas pesquisas reveladoras da realidade, nua e crua, são produções das universidades, do sistema educacional público, objeto dos cortes e da retaliação feita desde o início deste governo. Talvez daí tanta fúria contra as universidades.
Por isso, é de extrema importância e urgência defender a educação e a Previdência pública, e o direito de saber que as escolhas de um governo são mais políticas do que técnicas, e neste caso, a tal “nova política”, só não tem a mesma cara da “velha política”, por que o resto é idêntico: tirar dos pobres e transferir aos ricos.
 Marcel Farah: educador popular
[1]Disponível em: https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2019/05/um-atlas-sobre-a-tragedia-do-fim-da-previdencia-publica/
[2]Exemplo em: https://blogs.oglobo.globo.com/ancelmo/post/esposa-de-conselheiro-cassado-do-tce-recebera-aposentadoria-de-r-35-mil-pela-alerj.html
 Fonte:domtotal.com

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