quarta-feira, 1 de maio de 2019

QUEM SÃO OS QUE TEMEM O ESTUDO DA SOCIOLOGIA, FILOSOFIA E TEOLOGIA?

Um povo que pensa é um povo que não aceita ser dominado. 
(Giammarco Boscaro/ Unsplash)


Temor da filosofia e da teologia se dá porque essas disciplinas contribuem para libertar as pessoas dos cabrestos impostos por líderes escusos

Durante muito tempo se ouve no meio evangélico a premissa de que estudar filosofia e teologia é algo que afasta o cristão da fé em Jesus Cristo. O discurso é de que ambas as disciplinas fazem a pessoa cristã questionar as coisas e, de questionamento em questionamento, chega-se a um ponto em que ela desiste da fé e se torna uma pessoa desviada, longe dos caminhos de Deus.

Por causa desse tipo de pregação, muitas pessoas, ao saberem que determinado/a membro da Igreja está cursando alguma dessas disciplinas, começam a olhar e ouvir com desconfiança tudo que esse/a membro diz, porque pensa que ele/a está sendo usado/a pelo diabo para enganar o povo e afastá-lo da vontade divina.

Um olhar atento, contudo, mostrará que grande parte dos pregadores e pregadoras que usam esse tipo de discurso o faz por terem medo dos questionamentos que essas duas disciplinas fazem florescer quando são bem feitas e assimiladas. Qualquer estudante de filosofia, ainda que em seus semestres iniciais, é desafiado a ler, interpretar e se posicionar diante de determinado texto ou determinado discurso, o que, claramente, torna-se um perigo muito grande para lideranças que querem pessoas que somente obedeçam ao que lhes é dito.

Da mesma forma, a pessoa que começa a estudar teologia também é levada ao questionamento e à interpretação dos textos lidos e, mais ainda, a ter uma visão do contexto e situação histórica no qual determinado texto bíblico foi escrito, bem como o pano de fundo social e cultural do/a autor/a do texto, no intuito de compreender mais a fundo qual o significado que determinado escrito teve para aquela época e como pode ser lido hoje da sociedade.

Assim, aprende que um mesmo texto bíblico pode ter interpretações diversas, dependendo de qual método exegético se tome. Ao mesmo tempo, é alertado de que, mesmo havendo métodos interpretativos diversos, as interpretações não são infinitas. Como consequência, torna-se capaz de avaliar até que ponto uma leitura do texto bíblico está sendo corretamente feita e quando essa interpretação está a anos-luz daquilo que o texto quer dizer.

Fazer isso, no entanto, é bater de frente contra pregações, pregadores e pregadoras que tomam o texto bíblico de qualquer maneira, a fim de justificar seus posicionamentos e suas posturas políticas e sociais de opressão e exploração da fé de pessoas inocentes. Diante disso, não é de se espantar que classes dominantes e líderes religiosos exploradores desejem que não se estude filosofia, teologia, sociologia, ou qualquer outra disciplina que leve ao questionamento do status quo.

Por saberem que um povo que pensa é um povo que não aceita ser dominado, antes, é um povo que reconhece a própria força que tem, podendo assim lutar por sua liberdade e quebrar as correntes da opressão, insistem em dizer que o estudo filosófico, teológico, sociológico e humano afastam as pessoas cristãs de Deus.

Ficar atento a esses discursos é fundamental. Toda vez que determinado/a pregador/a ou liderança for contra qualquer tipo de estudo, pode ter certeza que essa liderança, seja religiosa, seja política, seja social, quer perpetuar a exploração em nome de Deus ou de alguma ideologia.

Em momento tão assombroso em nosso país, é papel teológico e filosófico expor as artimanhas daqueles e daquelas que, por meio de um discurso barato, querem relegar as pessoas cristãs e de boa fé à ignorância, a fim de facilitar que sejam pessoas que não questionam e não lutam por seus direitos, tornando-se, assim, facilmente dominadas e exploradas pelos/as detentores/as do poder.

A fé cristã deve ser sempre uma fé que pensa e uma razão que crê, como diz o lema da Mocidade para Cristo no Brasil (MPC). Assim, todo cristão e toda cristã deveria ser ávida pelos estudos humano, teológico, sociológico e filosófico, reconhecendo que permitem melhor percepção sobre a situação em que nos encontramos e, com isso, possibilite-nos buscar meios para lutar pela liberdade e emancipação.

Se toda pessoa cristã estudasse filosofia, sociologia e teologia, os estelionatários da fé, tão presentes em nosso país, não teriam lugar e estariam com seus dias contados.

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE) e Doctor in Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven). E-mail: fveliq@gmail.com 

Fonte: Domtotal.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário