sexta-feira, 2 de agosto de 2019

FRANCISCO E SUA GEOPOLÍTICA 'MEDICINAL'

Papa Francisco conversa com crianças doentes no Hospital Infantil Federico
 Gómez na Cidade do México, 14 de fevereiro de 2016. (AFP/Gabriel Bouys)
As viagens do papa ao longo de 6 anos de pontificado têm muito a dizer. Com espírito aberto e visão estratégica, Francisco tem conquistado o mundo.

Na estreia de papa Francisco no twitter, ele disse o seguinte: “O verdadeiro poder é o serviço. O papa deve servir a todos, especialmente aos mais pobres, aos mais fracos, aos mais pequeninos”. Na época, mal sabíamos nós que, naquela frase simples, se sintetizava todo o programa de governo de um pontificado.

E não há o que discutir: todo sumo pontífice da Igreja Católica assume para si uma linha que acaba sendo muito influenciada pela sua própria personalidade. As favelas portenhas visitadas pelo então arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, foram a sua “escola teológica”, onde ele aprendeu o significado das periferias existenciais. 

A amizade com rabinos, imãs e pastores protestantes, o levou a perceber que existe uma cultura do encontro capaz de recolocar o mundo nos trilhos. A misericórdia, que se tornou a palavra-chave da missão de Francisco, se encarna a partir da sua própria experiência com essa que ele considera a principal característica de Deus. O Miserando Atqve eligendo(Olhando-o com misericórdia, o elegeu) é o lema sacerdotal do papa atual – a frase de são Beda, presente na liturgia das horas da festa de são Mateus, que foi eternizada pela vida sacerdotal de “padre Jorge”, como ainda hoje é chamado por alguns de seus amigos.

É muito importante, para quem deseja compreender as decisões e escolhas de um papa, não focar somente em biografias, as quais são publicadas aos montes após a eleição de qualquer líder máximo da Igreja Católica. É necessário ir além das frases de efeito e analisar cada palavra, levando em consideração o contexto no qual ela foi proferida. Do contrário, há o grande risco de todo um magistério ser instrumentalizado, como tem acontecido desde João Paulo II. 

Foi por culpa de muitos católicos, por exemplo, que a humildade de Bento XVI foi ofuscada pela figura fabricada de um líder rígido e tradicionalista, cuja visão de mundo não acompanhou “os sinais dos tempos”. O mesmo que disse, alto e bom som, que o cristianismo não é uma lista de regras, mas o encontro com uma pessoa.

Uma das coisas que precisamos entender é a respeito da geopolítica de um pontificado. As viagens papais têm muito a dizer, a começar do porquê se escolhe um determinado país para se visitar. Depois dos Estados Unidos, a Santa Sé é o Estado que mais mantém relações diplomáticas no mundo. E, em meio às crises, a instituição não pode colocar tudo a perder através de pronunciamentos feitos no calor do momento, o que fatidicamente aconteceria se alguns grupos católicos fossem ouvidos. A viagem ao Brasil foi cancelada, em 2017, por causa da instabilidade política. A Venezuela também ficou fora da lista por causa das tensões provocadas pelo atual governo, o que não quer dizer que a Santa Sé não participe das tratativas de pacificação, algo que tem feito sem muita publicidade.

Há um livro chamado Francisco, o médico do mundo, do italiano Andrea Monda. O título é bastante sugestivo, já que a geopolítica de Francisco não visa somente reforçar ou estabelecer relações diplomáticas, mas “confirmar a fé dos irmãos” em lugares onde o povo jamais sonhou receber visita de um papa. É assim: o papa tem colocado faixas sobre muitas feridas como o médico de um “hospital de campo”, termo que ele usa para se referir à Igreja.

A primeira viagem do papa, não por acaso, foi a Lampedusa (Itália), onde ele, pensando nos imigrantes, inaugurou a expressão “globalização da indiferença”. Na visita a Mianmar e Bangladesh, que recebeu um papa pela primeira vez na história, a estratégia de reaproximação com Pequim. E nos Emirados Árabes, o apelo à paz diante dos monarcas dessa confederação muçulmana. Tudo isso para mostrar que, no mapa de viagens de Francisco, demarcado com audácia e estratégia, o acesso às periferias do espírito é o critério de escolha. Onde Jesus não pode ser anunciado como se gostaria, que ele seja o construtor da da paz e da concórdia. É a missão de Francisco. É missão do papa.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé. 

Fonte: Vatican News 

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