quarta-feira, 11 de setembro de 2019

HOMO INCURVATUS IN SE: O FUNDAMENTALISMO CRISTÃO E A AUSÊNCIA DE UMA ÉTICA DA ALTERIDADE

Ao ressaltar o caráter privado da moralidade como algo
desejado por Deus, o fundamentalismo se esquecendo-do
caráter social da mensagem de Jesus. (Unsplash/ Igor Rodrigues)

Uma das expressões do fundamentalismo está na preocupação com a dimensão privada da fé e as questões morais em detrimento do seu caráter ético e social. 
Qualquer pessoa cristã atenta, que olha a sociedade de hoje com olhar crítico, perceberá que há uma crescente onda fundamentalista em todo mundo, principalmente no cenário brasileiro. Essa pauta, ancorada tanto no movimento evangélico de caráter neopentecostal quanto em alguns movimentos católicos, tem ganhado força na sociedade, ainda que com bastante resistência por parte de outros grupos sociais.
Algo interessante de se notar nesse crescimento é o enorme esforço colocado em pautas de caráter moral. Isso não seria de se espantar, visto que grande parte dos movimentos fundamentalistas também trazem em seu bojo uma preocupação exacerbada com a moralidade. Esta deriva de interpretações de textos bíblicos retirados de seus contextos, o que ocorre principalmente em grupos evangélicos. Essas interpretações servem de pretexto para afirmação daquilo que se considera vontade de Deus para a humanidade, tendo como carro chefe as questões de caráter sexual.
Um exemplo bem claro disso, ainda que deplorável, e que não gera nenhum espanto aconteceu no evento da última semana. O prefeito do Rio de Janeiro, pertencente a uma igreja neopentecostal, insatisfeito por ver dois rapazes se beijando em uma revista em quadrinhos, ordenou que o material fosse recolhido da bienal do livro que acontecia na cidade. Ele considerou o material pernicioso às crianças.
Ao mesmo tempo em que o movimento fundamentalista prega suas pautas moralizantes, tomando por base as Escrituras, desconsidera o forte caráter social que o próprio texto bíblico traz  – tanto o Antigo quanto o Novo Testamento. No lugar da preocupação social entra a preocupação com o privado, com a alma que precisa estar em santidade para poder ir para o céu quando “Jesus voltar”. Assim, o que importa é somente uma pureza interior, uma santidade que permite orar sem culpa e se considerar mais justo, fiel e amado por Deus, por fazer aquilo que “Ele ordenou” em sua palavra.
Aqui surge um paradoxo interessante: ao mesmo tempo em que se prega uma santidade pessoal e privada para se aproximar de um Deus que é amor, não se importa com o fato da taxa de violência contra os homossexuais no Brasil seja uma das mais alarmantes no mundo. Essa violência é insuflada, precisamente, por um discurso de que essa prática é considerada pecado por Deus. Ao mesmo tempo em que se propõem evangelismos proselitistas nas favelas para a “salvação das almas”, comemora-se quando a polícia mata alguém que comete algum crime e se fala que “bandido bom é bandido morto”. Esses são apenas alguns dentre tantos outros exemplos que podem ser citados em que a realidade social do outro é deixada de lado desde que um “eu” se sinta em santidade. Em outras palavras, desenvolve-se um fundamentalismo meramente moral sem nenhuma preocupação ética que leve em conta a sociedade, o outro e suas respectivas questões.
Ao ressaltar o caráter privado da moralidade como algo desejado por Deus, esquecendo-se do caráter social da mensagem de Jesus, o movimento fundamentalista joga por terra todo o Evangelho e todo texto bíblico, cujo foco sempre se mostrou na transformação da sociedade para que esta se torne um lugar em que habita a justiça e a misericórdia de Deus, que somente pode ser entendida no cristianismo tendo em vista que Deus é amor.
A preocupação com uma moral privada, que não olha para a sociedade, nada tem a ver com o Evangelho e com a humanidade desejada por Deus. O homo incurvatus in se, pecador, sobre o qual Lutero falava, é todo ser humano que se volta somente para si. Em outras palavras, aquele que é incapaz de olhar para além de si mesmo em direção ao seu próximo, que, como afirma João, é o critério pelo qual podemos avaliar se alguém ama a Deus ou não.
Diante disso, relembrar o caráter social do Evangelho anunciado por Jesus em Lucas 4,18-19 se mostra de extrema importância no cenário atual: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para pregar o Evangelho aos pobres. Ele me enviou para proclamar a libertação dos aprisionados e a recuperação da vista aos cegos; para restituir a liberdade aos oprimidos, e promulgar a época da graça do Senhor”.
Uma moralidade cristã privada, que se preocupa somente consigo, sem se importar com a crise social que vivemos ao redor do mundo, mostra-se como moralidade que não compreendeu a mensagem de Jesus. Consequentemente, mostra-se como moralidade sem ética. Em outras palavras, uma moralidade não cristã.
*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), Doctor of Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), Bacharel em Filosofia (UFMG) E-mail: fveliq@gmail.com
Fonte:domtotal.com


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