sexta-feira, 11 de outubro de 2019

ARCEBISPO DE PALMAS (TO) DESTACA A HUMILDADE DO PAPA FRANCISCO NA FILA DO CAFEZINHO


Na entrevista ao vivo no Facebook que concedeu hoje, 9 de outubro, o arcebispo de Palmas (TO), dom Pedro Brito, destacou os gestos de humildade do Papa Francisco. O arcebispo conta que o Santo Padre entra na fila do cafezinho como qualquer participante e não aceita nenhuma regalia. “Eu nunca tinha visto! O Papa está dando um exemplo muito bonito de acessibilidade e de protagonismo. Só isso deveria revolucionar o mundo“, disse.

É por este e outros fatores que dom Pedro disse que o Sínodo está sendo uma academia para ele. “Estou me formando na sabedoria de tanta gente que conhece a vida do nosso povo e têm interesse de aprofundar cada vez mais a nossa missão na Amazônia”, disse. Dom Pedro ressaltou o cuidado com a casa comum, a simplicidade, a importância da preservação da terra e a evangelização. Além de criticar todas as informações usadas que buscam desqualificar o Sínodo.

Leia a entrevista na íntegra:

As pessoas estão saindo para o almoço e o que a gente vê é um sorriso nos lábios. Sei que o senhor é uma pessoa que sorri muito?

Dom Pedro Brito: Na verdade, parece cansativo ouvir muita gente, língua diferente, mas tem um diferencial. Depois de quatro pessoas que falam, quatro minutos cada pessoa, nós paramos quatro minutos para refletir. Para mim é uma oxigenação da alma, me faz entrar em sintonia com aquilo que foi dito, com Deus. Renovar as energias. De forma que é uma coisa muito saudável e muito gostosa de ouvir as pessoas porque a gente refaz a história no silêncio, refazendo a nossa vida e a vida do nosso povo.

Foram muitas as temáticas tratadas até o momento, desde a questão pastoral, dos indígenas, do povo da Amazônia, a preocupação da presença da Igreja, também com os movimentos pentecostais. O que o senhor salientaria até este momento o que lhe chamou atenção?

Muitas coisas me chamaram a atenção. Algumas transversais, assuntos que aparecem em várias palavras, vários depoimentos. Mas tem alguns também que me parecem muito próprio. Eu pelo menos me encarreguei de falar dos pecados ecológicos que não tem na literatura ainda. O papa fala de conversão ecológica. Se eu tenho que me converter tem que ter um pecado anterior para me converter e eu fiquei muito feliz com a receptividade dessa abordagem.

Pecados ecológicos o senhor pode definir para gente?

Matar um animal, jogar poluente nos rios, vão nascer as doenças, colocar veneno nas comidas, pesticidas e agrotóxicos demais nos alimentos. Adoece as pessoas, aparece a dengue chicungunha, e outras doenças e o câncer também. A gente nem pensa, mas nós estamos matando a vida e matar a vida é um pecado. É uma ofensa contra Deus que é o autor da vida e criou todas as coisas. É uma ofensa contra a nós mesmos e a humanidade inteira. Vamos entregar o mundo pior do que recebemos. Esses são pecados que chamados ecológicos, aquilo que a gente faz a cada dia e não percebe que está pecando, fazendo aquele hábito consumista, irresponsável e depreciativo da nossa natureza.

Eu chamo a atenção também para quem vive na Amazônia, mas isso também é um chamamento para quem vive fora da Amazônia?

Exatamente, por isso que nós pedimos que sejam revistos os rituais de liturgia e do sacramento da penitência. Quando eu for me confessar não só eu falar mal de alguém, deixar de ir à missa, de rezar o rosário. É também confessar que eu estraguei a natureza, eu destruí o mundo criado por Deus, portanto, eu estou pecando contra Deus. Isso vale para todas confissões e para todo universo que tem consciência do dever cumprido e fazer seu exame de consciência contra isso que a gente não pensa.

Se encerram na tarde desta quarta-feira a participação de 4 minutos dos senhores padres sinodais. Aí nós teremos o início dos ciclos menores. Nós começamos a fazer o afunilamento dessas temáticas. O senhor tem alguma temática especial que o senhor quer ver nesse afunilamento e que depois seja levado em consideração e evidência?

Esse tema que eu acebei de dizer com todas as dependências disso. No fundo, nós estamos dizendo assim: nós estamos matando a terra. Esse é o grande problema. A nossa casa comum só tem essa, existe o céu evidentemente que nós vamos para lá. Mas aqui só existe essa. Se a gente não cuidar bem da natureza nós vamos morrer todos. Estamos cometendo um crime contra o nosso Deus. Essa temática da defesa, de contemplar, eu sempre tive essa visão um pouco producionista da natureza. Eu pensava na terra para plantar, vender, para fazer casa, para construir, para tirar proveito. Hoje eu penso o contrário, um espírito mais franciscano de olhar para natureza, contemplar, ver a beleza do sol, da chuva cair. Essa mística da contemplação da natureza nós precisamos recuperar que é muito próprio do mundo de hoje. Esses temas são os temas que eu me sinto mais à vontade para refletir e falar e assumir na minha causa.

Se chegou a falar durante a apresentação do Instrumento Laboris que o Papa disse que é um texto mártir, que nasceu para morrer. O que o senhor diria das polêmicas em torno desses temas?

Esse é um Sínodo de uma região apenas. Olhando o mundo é uma gotinha de água no universo. E uma região muito pequena que tem uma repercussão tão grande. Eu não sei se os outros tiveram tanta repercussão como este, positiva. Mas também muito negativa com pessoas que se acham no dever de dizer aquilo que pensa, independentemente da verdade. Eu sempre penso que o caminho desse Sínodo deve ser o caminho da verdade. Se a gente não seguir o caminho da verdade nós vamos errar. Então, eu vim aqui para esse Sínodo buscando a verdade. Eu não quero iludir ninguém, eu não quero mentir para ninguém, mas também não gostaria que alguém mentisse em meu nome em nome da minha Igreja. Jesus disse: ‘perseguiram a mim, perseguirão também a vocês’, essa perseguição que recebemos é sinal da veracidade e da profecia que esse Sínodo se apresenta para o mundo.

Pudemos notar também nos discursos dos Padres Sinodais que todos estão falando com o coração aberto. O papa pediu isso no primeiro dia. A oração é o primeiro elemento e, o segundo, a escuta e depois o discernimento?

A tônica é essa. Ninguém está proibido de falar o que pensa. A gente não pode ficar falando pra fora porque tolhe a liberdade das pessoas e a pessoa que diz aquilo que eu não concordo me leva também a refletir e a respeitar o pensamento dela. Então, quando eu escuto alguma coisa que eu não concordo, eu tenho que respeitar e tenho que assimilar e dizer aquela pessoa deve ter razão para dizer aquilo e o que ele diz eu tenho que considerar também. É um tema que me faz bem, mesmo ouvindo as vozes discordantes me faz bem, alimenta, plenifica e oxigena a minha opinião porque eu vou ouvi a opinião do outro, ouvi o contraditório.

Sínodo, caminhar juntos é uma realidade?

Exatamente, a palavra é essa. Sínodo é caminhar juntos e caminhar juntos como disse o Papa Francisco. Às vezes eu tenho que ir no fim da fila, no meio da fila, à frente da fila dependendo do grupo que eu vou caminhar. Não precisa caminhar só na frente, precisa também caminhar no meio ou no final também da fila e a fila anda e a história também.

E a participação do Papa nos trabalhos?

Linda, linda! Eu nunca tinha visto! Vejo o Papa mais assim em outros ambientes, mas vê-lo entrar na fila para pegar um cafezinho e não aceitar que a gente dê o cafezinho pra ele. É de tirar o chapéu e dizer que nós somos muito cheios de ondas em nossa vida e o Papa está dando exemplo muito bonito de acessibilidade e de protagonismo. Só isso deveria revolucionar o mundo, só essa capacidade que ele tem de ser o sinal mais bonito do mundo de hoje. Infelizmente é mal compreendido por alguns mal-intencionados.

Quem sabe é… o próximo encontro que o senhor tiver com seus diocesanos, o senhor vai entrar na fila e não vai deixar que ninguém traga o café para o senhor?

Mas eu faço isso. Eles não deixam. Eu não quero entrar na fila do primeiro prato, mas sou obrigado. Eu digo não, eu teimo e fico no meu lugar. Não quero me apresentar como modelo não. Mas é bom cada um no seu lugar quando Jesus passar eu quero estar no meu lugar.

Um pensamento para nossos irmãos da Amazônia. Mas também para aqueles que estão seguindo com muita atenção o Sínodo, com todas as polêmicas que foram criadas ou todos os temas que foram tirados desse Sínodo através do Instrumento Laboris.

É verdade. Tem gente que pensa que o Sínodo já acabou. Já decidimos tudo. O Sínodo está apenas no começo. Não sabemos o que vai acontecer no final. Mas creiamos, acreditemos que nós estamos em busca da verdade. Nós não viemos aqui para ser irresponsáveis, para fazer coisas da nossa cabeça, para mudar a história, para inventar a roda. O que nós estamos fazendo aqui é buscando a verdade. Então a minha mensagem é de positividade. Acredite no belo, no bom e no gostoso desse Sínodo e acreditemos nas proposições de sentido mais positiva, proativa, mais do que as polêmicas, mais do que perder ou ganhar, nós queremos evangelizar nosso povo na esperança. Minha palavra final é de esperança, de paz, de amor. Certamente vamos colher frutos desse Sínodo se assim Deus permitir.

A partir de amanhã começam os círculos menores, nós teremos quatro círculos em português. Ali nós temos uma alternância muito bonita porque o português e o espanhol são aquilo que brilha dentro da sala sinodal. É a primeira vez que temos isso né?

É tão bonito. Parece que são irmãos gêmeos o português e o espanhol. Muda naquilo que não é essencial e permanece que é essencial. Eu não tenho dificuldade nenhuma de ouvir alguém falar espanhol. Certamente eles não têm dificuldade de ouvir o português. São línguas complementares, neolatinas, nascidas do mesmo ramo e o português é a última flor do Lácio, culta e bela como dizia Olavo Bilac.

CNBB 

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