quarta-feira, 16 de outubro de 2019

ENGANO E ATRAÇÃO: FACES DOS FUNDAMENTALISMOS RELIGIOSOS

 
Muitos cristãos foram levados a acreditar que o retorno
ao Evangelho seria um retorno às normas morais definidas
 por algum grupo hierárquico. (Frank Mckenna/ Unsplash)

O fundamentalismo religioso atrai pela ideia de que há uma formula a ser seguida que garanta lugar no céu
O fundamentalismo religioso, em geral, e mesmo o cristão não são novidade, algo surgido no século 21. Os textos bíblicos mostram que a sociedade judaica do tempo de Jesus já possuía uma classe de fundamentalistas religiosos. Eles se consideravam donos da moral e dos bons costumes que, segundo diziam, eram necessários para agradar a Deus.
Todos os Evangelhos narram os diversos embates ocorridos entre Jesus e os fundamentalistas do judaísmo de seu tempo. Mostram que a mensagem de Cristo ia ao encontro justamente dos que estavam longe do templo por serem considerados impuros e não dignos. Ao mesmo tempo, narram que os verdadeiros cegos, aqueles que não compreendiam o Reino de Deus mostrado em Jesus, eram na verdade os próprios líderes religiosos. Devido aos seus rituais, estes se achavam mais próximos de Deus. O Evangelho de Marcos deixa isso muito claro.
Na Idade Média, quando o cristianismo se transformou em religião de Estado, esse fundamentalismo atingiu o ápice. Isso porque não se tratava mais somente de uma religião regional, mas de um Império e, dessa forma, com poder de alcance bem maior. As perseguições a todos que não se encaixavam nas normas morais, tidas como necessárias para agradar a Deus, eram comuns e a própria história mostra esse capítulo lastimável do cristianismo.
Com o advento da modernidade e toda crítica feita às instituições religiosas no Ocidente, juntamente com a separação entre Igreja e Estado, o fundamentalismo religioso passou a ser um movimento que buscava o “retorno” àquilo que cria ser vontade divina. Esse mesmo discurso se repete na contemporaneidade. Diz-se que a sociedade perdeu seu rumo, caiu em pecado e, por isso, seria necessário retomar as antigas práticas de obediência, penitência, humilhação etc. para a nação ser novamente aceita por Deus. Muitos cristãos foram levados a acreditar que o retorno ao Evangelho seria um retorno às normas morais definidas por algum grupo hierárquico, seja católico ou evangélico.
Ancorados em interpretações literais do texto bíblico, comumente esses movimentos arrogam para si o status de “guardião da fé verdadeira”, considerando-se os únicos a compreender realmente o que Deus quer para seu povo. Não é de admirar que estes movimentos sejam os que atacam terreiros de candomblé ou perseguem pais e mães de santos por os terem como filhos do diabo. São os mesmos que propõem agendas contra os homossexuais por acreditar que dois textos isolados, tirados da bíblia, servem para pautar as questões de gênero e sexualidade no século 21.
Ao mesmo tempo, são diversos os movimentos fundamentalistas a pregar uma agenda moral e de santidade extremamente pesada e que, ao mesmo tempo, estão envolvidos com tráfico de drogas e de influência. Vide o caso de narcotraficantes evangélicos que comandam favelas no Rio de Janeiro ou de padres e pastores que induzem o voto de seus fieis em período eleitoral. Há ainda os envolvidos em corrupção nas esferas política e judiciária. Basta observar os inúmeros milicianos que se dizem evangélicos ou servos do Senhor; os procuradores públicos que usam discurso de santidade e jargões cristãos, mas cometem ilegalidades processuais que ferem o princípio da justiça em um Estado de Direito. Vivem, assim, mundos paralelos de um só passo.
O fundamentalismo religioso atrai pela ideia de que há uma formula a ser seguida que garanta lugar no céu, ofereça acesso exclusivo a Deus ou, ainda, confira presença numa lista VIP celestial, o que daria uma credencial de pessoa melhor, mais justa e pura numa sociedade corrompida. A aura de santidade que envolve todo discurso fundamentalista se baseia na certeza de estar mais perto de Deus.
Porém, ao se voltar aos Evangelhos, percebe-se que Jesus nunca pregou um fundamentalismo religioso ou moral. Muito pelo contrário, ele mesmo era um péssimo exemplo de moralidade, sendo chamado de amigo de publicanos e pecadores, glutão, bebedor de vinho. Foi considerado como pessoa perigosa, que questionava as autoridades religiosas, um criminoso que se revoltou contra o domínio de César e por isso foi entregue à morte. Em tempos atuais, diversos pais e mães que se dizem cristãos não deixariam seus filhos andarem com alguém como ele. Sua preocupação sempre foi para com os pobres e excluídos da sociedade, pois o Reino de Deus era revelado aos grupos minoritários, os que eram capazes de compreendê-lo.
Diante de um cenário social em que cresce o fundamentalismo religioso cristão, é tarefa cristã e teológica lembrar de que a mensagem do Evangelho anunciado por Jesus não coaduna com isso.
*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), Doctor of Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), Bacharel em Filosofia (UFMG) E-mail: fveliq@gmail.com
Fonte: domtotal.com 

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