sexta-feira, 4 de outubro de 2019

OS CUSTOS DA MIOPIA GERACIONAL SERÃO PAGOS PELAS PRÓXIMAS GERAÇÕES

Pessoas idosas praticam atividade física com halteres de madeira
 durante um evento que marca o "Dia do respeito pelo idos" em
 Tóquio, Japão, 16 de setembro de 2019. (EPA/ Franck Robichon/ MaxPPP)

Um Japão de idosos ou uma Igreja sem acesso à Eucaristia é tragicamente o sinal precursor de um mundo de crescente pobreza, doenças, fome, extinção de espécies e desastres naturais.
A cada ano, em meados de setembro, o Japão marca um feriado nacional, o "Dia do respeito pelo idoso". No mesmo dia, o governo japonês publica suas últimas estatísticas sobre o envelhecimento no país.
O Japão é o país mais velhos do mundo, não em termos de duração de sua história, mas da idade de sua população. De acordo com as estatísticas recém-publicadas de 2018, mais de 71.000 pessoas comemoraram seu 100º aniversário, um novo recorde. Os 35,88 milhões de pessoas com 65 anos ou mais representam 28,4% da população.
A projeção é que, em 2025, daqui a seis anos, 30% da população terá mais de 65 anos e, nos próximos 15 anos, esse percentual crescerá para 35,3%. Enquanto isso, as diminutas gerações mais jovens lutam para pagar os custos de uma sociedade de idosos.
Nesse ritmo, em pouco tempo, a escassez de pessoas disponíveis para respeitar os idosos será tal, que o "Dia do respeito pelo idoso" poderá legitimamente ser renomeado para "Dia da admiração mútua entre idosos".
Parte disso é o resultado inevitável e há muito previsto da recusa do Japão em compensar seu declínio na taxa de natalidade ao acolher imigrantes no passado.
Essa loucura está sendo repetida em outros países com taxas de natalidade em queda, inclusive nos Estados Unidos, que, com exceção da população indígena, são totalmente uma nação de imigrantes, assim como seus descendentes.
Uma resposta a essa situação no Japão foi o lançamento de projetos para manter as pessoas trabalhando por mais tempo. Além do fato de que os idosos não são capazes de trabalhar arduamente ou tanto quanto os jovens, os programas ignoram a estatística mais importante e menos variável: a taxa de mortalidade. Ela permanece 100%, portanto, estender os anos de trabalho realmente não é uma forma saudável de lidar com os problemas que a demografia produz.
Há alguns pequenos passos a serem dados para trazer trabalhadores estrangeiros para o país, mas não existe previsão de torná-los parte do Japão e de maneira alguma em número suficiente para atender às necessidades.
Esse tipo de tentativa de adiar os inevitáveis resultados da inação não se limita ao Japão. Era óbvio, meio século atrás, que a Igreja Católica enfrentaria uma crise quando o clero declinasse em números e energia.
Em vez de transformar a reforma do sacerdócio em um projeto para todo o Povo de Deus, fomos instruídos a orar por vocações. A resposta para essas orações certamente não foi o que alguns esperavam.
Agora, na imitação inconsciente do Japão, uma maneira pela qual alguns bispos tentam lidar com a escassez de clérigos é aumentar gradualmente a idade em que os padres podem se aposentar.
A verdadeira voz da experiência
Muitos anos atrás, quando era jovem seminarista, estava em uma sala cheia de padres enquanto eles discutiam alguns pontos da teologia ou da prática pastoral. Um deles defendia opiniões diametralmente opostas às dos outros.
No meio da discussão acalorada, um padre idoso, com quase 80 anos, entrou na sala. O discípulo o viu e disse: "Padre Joe, dê-nos a voz da experiência".
Joe silenciosamente caminhou atrás da minha cadeira, colocou as mãos nos meus ombros e disse: "Se você quer a voz da experiência, terá que perguntar a esse homem. Ele está fazendo a experiência hoje".
É comum que a sabedoria venha com a idade. Mas Joe foi sábio o suficiente para reconhecer que a idade não lhe dava nenhum conhecimento especial do mundo.
O jornalista americano H.L. Mencken deu voz ao que é, talvez, a única verdadeira sabedoria que vem com a idade quando diz: "Quanto mais velho eu sou, mais desconfio da doutrina comum de que a idade traz sabedoria". Certamente estou descobrindo que isso é verdade no meu caso. De fato, sou um dos 28,4% da porcentagem de residentes no Japão acima de 65 anos.
Os jovens de todo o mundo estão alarmados com o que está acontecendo no futuro porque os adultos e idosos se recusam a tomar medidas efetivas para melhorar os efeitos (é tarde demais para a prevenção) das mudanças climáticas causadas pelo homem.
Esses jovens são simbolizados por Greta Thunberg, a adolescente sueca que se tornou porta-voz do futuro, denunciando os mais velhos que falam sobre o problema, mas não fazem nada a não ser exalar ar quente. E ainda há quem se recuse a aceitar os fatos. Enquanto isso, o futuro de Thunberg, sua geração e seus filhos, torna-se cada vez mais sombrio.
De fato, os exemplos do Japão, que deixam sua crise demográfica chegar à situação atual, e a administração da Igreja Católica (que até agora não demonstrou liderança) ao lidar com a sua, dificultam a confiança de que haverá alguma ação significativa para proteger o planeta que Deus deu. A inércia parece tão atraente.
Assim, um Japão de idosos ou uma Igreja sem acesso à Eucaristia é tragicamente o sinal precursor de um mundo de crescente pobreza, doenças, fome, extinção de espécies e desastres naturais.
O egoísmo e a timidez acham muito fácil deixar os problemas para o futuro, em vez de tomar medidas para evitar o que a miopia se torne inevitável.
Não é a primeira vez que o egoísmo estúpido de uma geração repassa os custos aos seus descendentes, e certamente não é a última. Mas, como os efeitos são planetários, será ainda pior do que imaginamos.
Publicado originalmente por La Croix.
*O padre William Grimm MM é sacerdote, nascido em Nova York, ativo em Tóquio. Ele também atuou no Camboja e Hong Kong e é o editor do ucanews.com.


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