terça-feira, 26 de novembro de 2019

'ESPÍRITO DE JOIO"


A sabedoria bíblica ensina que a ação mais eficaz é aquela que
 dá tempo ao tempo para que o joio e o trigo cresçam e possam
 ser identificados sem possibilidade de erro. (Pixabay)
Um desafio para a fé cristã é a superação de uma religiosidade que atribui a um terceiro a responsabilidade humana pelos seus erros e mesquinharias.
Não é de hoje que a fé convive no interior da comunidade cristã com um jogo de interesses pessoais que vão desde a adesão livre e desinteressada até aquela que se propõe tirar algum proveito da proximidade com o grupo de Jesus. Por isso, não raras vezes se poderá ver no cristianismo cristãos que parecem estar desvinculados ao projeto do Reino em nome de um projeto próprio de poder excludente e de morte. A identificação desses nem sempre é imediata, porque se vestem de ovelhas ou com as mais finas vestes de uma religiosidade da aparência.
Essa realidade é amplamente denunciada nos evangelhos. Jesus tinha plena consciência de que muitos dos seus discípulos estavam o seguindo porque, em certa medida, sua atuação não discernida ia de encontro com as expectativas messiânicas cultivadas na época. A saber, de que um messias viria libertar Israel e instaurar um novo paradigma social e cultural para o povo. Essa expectativa é, sem dúvidas, frustrada pelas ações e pelas pregações de Jesus que tornam claros seus objetivos e postura diante do mundo.
Ainda assim, na companhia de Jesus estiveram homens e mulheres que demoraram compreender que seus objetivos pessoais não iam de encontro com os do Mestre. O caso mais popular é o de Judas. Ele era um dos doze escolhidos que pôde conviver na intimidade com Jesus, e, no entanto, possuía objetivos contrários e demasiadamente diferentes dos exigidos pelo Reino de Deus. Essa divergência de olhar e de ação é explicitada no contexto de uma refeição, lugar de maior proximidade e intimidade para um judeu, pois só se come com quem se faz comunhão de vida. Essa comunhão, no entanto, não existia entre Judas e Jesus, de modo que o discípulo não demorou em trair e entregar o Mestre às autoridades religiosas para ser morto.
O fato é que posturas divergentes sempre estiverem presentes no interior da comunidade cristã. O grande problema é quando essa divergência é uma contraposição incoerente. Quando isso acontece, a sabedoria bíblica ensina que a ação mais eficaz é aquela que dá tempo ao tempo para que o joio e o trigo cresçam e possam ser identificados sem possibilidade de erro. O joio, todos sabemos, deve ser arrancado pela raiz e queimado no tempo devido.
Um desafio para a fé cristã é a superação de uma religiosidade que atribui a um terceiro a responsabilidade humana pelos seus erros e mesquinharias. Desse modo, o diabo, o satanás, o capeta, o demônio, o encardido, etc., são evocados como realidades exteriores ao ser humano, responsáveis por fazer a pessoa tomar um caminho contrário daquele proposto por Jesus. Mas o próprio Jesus ensina que o mal está dentro do coração humano e lá precisa ser combatido. Por isso, ele é incansável em convidar à conversão urgente do coração ao Reino.
Quando o mal que fazemos é terceirizado para uma espécie de “entidade”, torna-se mais fácil conviver com aquilo que há de pior em nós e que podemos ser, e que escondemos atrás de nossas máscaras, pois não somos os responsáveis pelas escolhas realizadas e os caminhos tomados. Logicamente, tudo se veste da certeza de que não é preciso nos implicarmos e nos responsabilizarmos, pois estávamos possuídos, sem poder discernir e agir livremente. Assim fica fácil demais a vida, não é mesmo? Atrás das máscaras, sem responsabilidade.
Quando esse tipo de compreensão prevalece, promove-se uma infantilização e desresponsabilização, caminhos opostos à maturidade que se requer de uma fé verdadeiramente cristã. Mas acontece que tem muita gente disposta a cultivar e a fazer prevalecer essa consciência errônea, justamente para poderem continuar a exercer seus planos e projetos de poder dentro e fora da comunidade cristã. E essas pessoas precisam ser convidadas à conversão verdadeira, que sabemos e acreditamos ser possível.
Mas para saber se de fato houve uma conversão profunda, é imprescindível dar tempo ao tempo para que haja discernimento sem precipitações. Talvez, a sorte do cristianismo seja possuir uma obviedade constatada a partir das ações e das palavras de Jesus que faz mais rapidamente perceber quem é lobo em pele de cordeiro e quem é joio no canteiro de trigo. E essa obviedade, muitas vezes, pode ser mais presente para aqueles que não frequentam as igrejas cristãs, mas que guardam o conhecimento cultural sobre os ensinamentos de Jesus. Por isso, a denúncia dos falsos cristãos, daqueles que nutrem um “espírito de Jô” pode ser feita também pela arte, que também é síntese do mal-estar humano deste nosso tempo de ruídos e aparências.
*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. 
Fonte: domtotal.com 

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