sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

NATAL: O QUE A FARTURA NOS ENSINA?

A mesa farta não deve nos fazer esquecer que aquele que celebramos só teve espaço para nascer numa estrebaria
A fartura do Natal pode nos revelar Cristo (Unsplash/ Eugene Zhyvchik)

Felipe Magalhães Francisco*

Passado o Natal, talvez tenham ficado alguns quilos a mais em nós, já que tanto a ceia do dia 24 quanto o almoço do dia 25 foram como que indultos para a desforra alimentar. E o Réveillon vem aí, também com suas possibilidades de excessos alimentares e, queira Deus que não, problemas de digestão. Mas não é sobre os excessos da comida que aqui queremos falar. É sobre a fartura e sobre como estar ao redor da mesa, no prazer da convivialidade que nos enche o coração e a boca, pode nos ensinar a nos tornarmos pessoas melhores.

Talvez as famílias mineiras não percebam muito a diferença entre o estar ao redor da mesa, no Natal e nos domingos em família, a não ser pelo clima e pela variedade do cardápio. A mesa farta é uma das maneiras pelas quais nos realizamos. E a fartura – um dos textos de nossa especial nos alertarão! – não se trata da quantidade, em última instância. Ela tem a ver com a saciedade, com o aprazível, com a não falta. A fartura tem a ver com a generosidade de quem cozinha; com a espontaneidade de quem fica com os olhos brilhando, ao olhar a mesa arrumada; com o suspiro e o fechar de olhos de quem saboreia a primeira garfada... A fartura tem a ver com o desfrutar da companhia, apesar das dessemelhanças, dos pontos de vista, das visões de mundo.

A fartura tem a ver, também, com a solidariedade, no modo como ela pode nos educar a nos alegrarmos, sim, com a mesa posta e cheia, mas sem que nos esqueçamos daqueles e daquelas que são, pela força mortal da injustiça, os esquecidos de sempre. O Natal que celebramos com a mesa farta não deve nos fazer esquecer que, aquele que celebramos, só teve espaço para nascer numa estrebaria. E que isso deve nos colocar solidários e solícitos para com aqueles que aquelas que são relegados às estrebarias do mundo. A fartura do natal deve nos ajudar a compreender que é bom que nos aprazamos com a boca cheia, mas que é preciso responsabilidade no modo como consumimos e oneramos o planeta e tudo o que nele contém e habita. A fartura do Natal nos conduz a uma ética!

A fartura do Natal pode nos revelar Cristo e, aqui, está uma das pedagogias e mistagogias para os cristãos e cristãs: festejamos a memória do nascimento daquele que se fez carne e pão. Existência e alimento: vida! Passado, em tese, o Natal, talvez seja o momento de buscar um sentido para o que vivemos, junto aos que amamos, nos últimos dias e fazer dos dias que seguem, um prolongamento do Natal, além dos muros de nossas casas. São tempos cediços de tudo aquilo que o Natal nos inspira: amor, solidariedade, empatia, simpatia, generosidade... A memória da mesa, lida teologicamente, como pode nos inspirar a esses valores tão cheios de significados e tão prenhes da transformação e do alento que nossa sociedade tem precisado, para superar essas dificuldades atuais nas quais estamos imersos?

O Dom Especial desta semana prolonga a experiência do estar ao redor da mesa, agora mastigando o sentido do que isso significa, teológica e cristicamente. No primeiro artigo, Entra... Vem comer comigo!, Rodrigo Ladeira nos toma pela mão, para um passeio ao redor da mesa que está para além do espaço, pois a convivialidade que nos desvela o Menino-Deus nos aponta para um outro tempo... Rodrigo Ferreira Costa, no artigo As refeições do natal como uma atualização da manjedoura, propõe-nos uma mistagogia da experiência celebrativa da mesa de Natal, para nos ajudar a vislumbrar o mistério do Cristo que se revela no partir do pão. Por fim, Teófilo da Silva, reflete sobre a pedadogia do Natal, lida a partir da encarnação, com o artigo Natal, festa da carne!, no qual reflete sobre a fartura e sobre o que ela tem a nos ensinar.

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com

Fonte: Domtotal

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