sábado, 25 de janeiro de 2020

O GRITO DE BRUMADINHO

Modelo de extração mineral adotado no Brasil é extremamente nocivo à vida humana.
A sina de Minas Gerais parece a de um território a ser espoliado até nada mais ter a oferecer (Mauro Pimentel/ AFP)

Dom João Justino de Medeiros Silva*

Hoje, 25 de janeiro de 2020, completa-se um ano do crime de Brumadinho. Todos temos na memória as imagens que circularam o mundo mostrando o mar de dejetos da exploração mineral avançando sobre tudo o que estava à frente, deixando um rastro de mortes e desolação. O crime anterior, ocorrido em Bento Rodrigues, município de Mariana, em novembro de 2015, era ferida aberta na memória, quando veio o impacto de mais uma destruição, dessa vez muito maior, com a morte de 270 pessoas, entre funcionários da mineração, moradores locais e turistas. As equipes de resgate encontraram corpos de 259 vítimas, e 11 ainda permanecem desaparecidos. Desespero e dor, indignação e revolta, desânimo e tristeza. O descaso com a vida parece não ter limites. 

Nos dias e semanas subsequentes, a busca pelos corpos dos desaparecidos foi resultado do trabalho heroico dos bombeiros brasileiros e de incontáveis voluntários. Entre lágrimas, histórias de vida foram expostas nos meios de comunicação. Pairava sobre todos a pergunta crucial sobre a responsabilidade do ocorrido. A verdade parece escapar e a demora na responsabilização indica um sistema de justiça frágil diante da gravidade do caso. O sofrimento das famílias que perderam seus entes queridos e, inclusive, as que perderam seus bens, não toca o coração e a consciência dos que deveriam trabalhar para que não houvesse mais situações como essa. 

É sabido que a mineração rende fortunas aos investidores e bons salários a diretores, mas parcos salários aos operários, pouco recolhimento de impostos aos cofres públicos e terrível destruição da natureza, quase sempre com muita poluição. Espalhadas nas Minas Gerais, as represas de dejetos parecem bombas prontas a explodir e tudo destruir ao seu redor. Cidades inteiras vivem o pesadelo de um dia serem surpreendidas pela invasão da lama destruidora. Porém, nada disso desperta a consciência do povo mineiro, que aceita subjugar-se para sobreviver. A título de exemplo, uma visita à comunidade de Pedregulho, no município de Bocaiúva, evidencia bem o que é a ganância da exploração dos cristais e o descarte das pessoas. Não é recente a denúncia: ricos cada vez mais ricos à custa de pobres cada vez mais pobres. 

O modelo de extração mineral adotado no Brasil é extremamente nocivo à vida humana. A história dos que perderam e perdem a vida para a mineração precisa ser escrita. Não há justificativa ética para uma atividade cujo fim enriquece alguns, mas destrói a natureza, nossa casa comum, e a vida de incontáveis pessoas. A voz do papa Francisco é pontual ao denunciar: “Assim como o mandamento ‘não matar’ põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, hoje devemos dizer ‘não a uma economia da exclusão e da desigualdade social’. Essa economia mata” (EG, 53). 

A sina de Minas Gerais parece a de um território a ser espoliado até nada mais ter a oferecer. No tempo colonial foi assim. No presente não é diferente. Grandes empresas pesquisam, tem dados sobre nosso solo e seduzem as autoridades, que negociam nossas riquezas fechando os olhos aos resultados já previamente conhecidos e tapando os ouvidos às denúncias de quem defende o território com uma visão ecológica integral. A crise ambiental é grave. É urgente encontrar soluções. Não sufoquemos o grito de Brumadinho. 

Fonte: Domtotal

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