segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

RELIGIÃO PRA QUÊ, AFINAL?

A era da estupidez entrou em cheio na Igreja e, no Brasil, vimos como tem sido nociva até mesmo para a política
Na era das imagens, a religiosidade católica se reduz ao estético: batinas, roupas clericais medievais, correntes, véus (Unsplash/ Josh Applegate)

Felipe Magalhães Francisco*

Popularizou-se que religação seja o significado da palavra religião, apesar de boa parte dos estudiosos e estudiosas desse campo não concordarem. Não entrando nessa discussão – mesmo sabendo que ela exista e que seja assaz importante – vamos pautar nossa reflexão nesse significado que tem mais abrangência entre as pessoas, o de que o papel da religião seja o de religar nós, a humanidade, com a divindade, reconhecida como força transcendente que está radicalmente separada do mundo material (para boa parte das religiões, é claro!).

A experiência religiosa acompanha o processo evolutivo do ser humano e, pouco a pouco, essa experiência foi se instituindo a partir de símbolos e ritos, formando as religiões. Para além da questão de existir ou não divindade, Deus ou deuses, é certo afirmarmos que tal institucionalização das experiências religiosas – sejam elas de terror ou de fascínio – revelam que há algo que nos escapa, que nos transcende. No início, esse algo era as manifestações da natureza e, paulatinamente, foi se transformando em outras compreensões de sagrado.

Atualmente, quando vemos qualquer menção à religião, sobretudo de aportes críticos, somos tentados a pensar imediatamente no cristianismo, sobretudo no catolicismo. Nossa cultura ocidental está enraizada também nessa tradição religiosa, que muito atuou para moldar o espírito do ser humano ocidental. O declínio da Idade Média foi também o declínio da Cristandade e o mundo ocidental mudou. Com a Modernidade, apregoou-se o fim da religião: aqui, o fim da religião, corresponderia, sobretudo, ao fim do cristianismo e com sua imagem de Deus (foi o fim da metafísica, importa dizer!). Sob a luz da razão, o ser humano poderia caminhar pelas próprias pernas, sem a necessidade de Deus que lhe outorgasse caminhos, tampouco sem a necessidade daqueles que se reconheciam como os representantes da divindade.

Para além das expectativas dos chamados mestres da suspeita, a religião não encontrou seu fim. O religioso, depois de muitas transformações, permanece aí. A teologia cristã avançou, a partir do diálogo profícuo com outras ciências e, até mesmo, na escuta atenta das críticas que a filosofia vinha há tempos fazendo a ela. O catolicismo viu florescer o Concílio Vaticano II, que significou a abertura da Igreja para o mundo moderno: finalmente, algumas frestas nas janelas da instituição se abriram para os ventos do Espírito, a trazer o frescor do Evangelho de Jesus, que a tudo tende a renovar. Mas, rapidamente, atuaram para que tais frestas fossem fechadas, confundindo o frescor do Espírito com a ameaça de pneumonia, que amedronta as estruturas envelhecidas.

Mais forte que o movimento de renovação da Igreja foi o movimento de volta à grande disciplina – para usar a expressão do grande e saudoso teólogo João Batista Libanio. Tal movimento restauracionista encontrou grande vazão nestes nossos tempos de liquidez e inseguranças. A falsa ilusão de que se apegar a práticas cheias de teias de aranha do passado possa trazer algum sentido seguro e firme para a vida hodierna seduz a muitos e, em toda a Igreja, temos visto vozes que dirigem à marcha-ré, mesmo sabendo que engatar essa marcha só é permitido para fins de manobra, e não de direção contínua. Na era das imagens, a religiosidade católica se reduz ao estético: batinas, roupas clericais medievais, correntes, véus. Mas nada disso revela o grito lancinante do Cordeiro sobre o altar; nada disso impulsiona os cristãos e cristãs a viverem o verdadeiro Evangelho da justiça e da transformação. Nada mais simbólico para manifestar o fechamento ao movimento do Espírito, que as correntes a prenderem jovens pelos pulsos.

O projeto restauracionista se tornou agressivo. A agressividade não parte mais do Santo Ofício, mas de movimentos leigos, que policiam até mesmo discussões acadêmicas, incapazes que são de conviver com o discurso que parta de outras perspectivas e compreensões. A era da estupidez entrou em cheio na Igreja e, no Brasil, vimos como tem sido nociva até mesmo para a política. Cuidar e defender o direito dos pobres se tornou escândalo, mas padres paramentados portando e abençoando armas de fogo, na visão de muitos, é ser fiel à sã doutrina. Doutrina da morte, gritada por aqueles e aquelas que se dizem pró-vida, mas que nem de longe o são. Nunca foi tão fácil para o ateísmo propagandista, o apregoar da nocividade da religião: são os próprios religiosos os principais estandartes do ateísmo.

Religião para quê, afinal? O que o cristianismo tem religado, atualmente? Será que somos capazes de responder a essas perguntas, com alguma lucidez, a partir da prática que temos visto emergir com força em nosso meio? A fé busca compreender, aprendemos com esse adágio que remonta ao início da escolástica. Uma fé inteligente, lúcida, fecundada pelo Evangelho é o que nos salvará dessa era de estupidez eclesial. A atuação de teólogos e teólogas comprometidos com sua vocação se faz cada vez mais urgente. É preciso mobilização em serviço ao Evangelho, para que o cristianismo não se torne, de vez, obsoleto, pois é esse o caminho para o qual estamos rumando. Por amor ao seguimento de Jesus e ao Reino que ele inaugurou e ao qual somos vocacionados, é preciso tornar o cristianismo fiel à sua missão, e não prisioneiro de um sistema fechado em si mesmo, que se maquia de esteticismos litúrgicos que não nos ascendem a Deus.

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com 

Fonte: Domtotal

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