quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

SAGRADA FAMÍLIA E NOVAS CONFIGURAÇÕES FAMILIARES

Na Igreja Católica, hoje, felizmente vai se abrindo espaço para
os que vivem em outras configurações (Unsplash/ Mario Purisic)

Mateus apresenta Jesus vindo de alguém que se prostituiu, uma prostituta, uma estrangeira e alguém que cometeu adultério
No tempo de Natal, além do nascimento de Jesus, celebra-se também a família na qual se deu este nascimento: a Sagrada Família, constituída por Jesus, Maria e José, que é elevada ao nível exemplar. A celebração litúrgica desta família a propõe como modelo, cujas virtudes devem ser imitadas. É uma família constituída por uma união heterossexual, monogâmica e indissolúvel. Mas como ficam então as outras configurações familiares, tão numerosas na sociedade atual?
Tomando a Sagrada Família como modelo e exemplo, convém refletir sobre a genealogia de Jesus apresentada nos Evangelhos. Para nós, hoje, aquela lista de nomes pode parecer desnecessária e não fazer sentido. Mas há aspectos importantes e mesmo surpreendentes. No mundo bíblico, mencionar a filiação era a marca da identidade, como por exemplo: Josué, filho de Nun; Simão, filho de Jonas; e Tiago e João, filhos de Zebedeu. Duas genealogias de Jesus são apresentadas: em Mateus e em Lucas. A linhagem é toda paterna e masculina, conforme o caráter patriarcal da sociedade. Em Mateus, a lista de nomes vai até Abraão, como no início se anuncia: “Genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão”. Com isto, Jesus se vincula ao grande rei Davi e ao patriarca dos hebreus e pai dos crentes, Abraão.
Há algo bem original na genealogia de Mateus. Ele menciona quatro mulheres. Não precisaria mencioná-las, como Lucas não o fez. As quatro mulheres mencionadas por Mateus poderiam ser as chamadas quatro mães de Israel: Sara, Rebeca, Lia e Raquel; esposas dos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó, respectivamente. Mas não. São mencionadas Tamar, Raab, Rute e “a que fora mulher de Urias” (Betsabé). Quem são estas mulheres?
Tamar foi casada com Onã, que por praticar coito interrompido foi castigado por Deus com a morte. Segundo a lei, Tamar deveria se casar com um irmão de Onã para gerar descendentes na família de seu marido falecido. Mas o seu sogro, o patriarca Judá, não lhe deu seu filho Sela, com quem ela deveria se casar. Então Tamar disfarçou-se de prostituta e seduziu seu sogro, ficando grávida dele. Depois que toda a história veio à tona, Judá reconheceu: “Ela foi mais honesta do que eu. É que não lhe dei meu filho Sela para marido” (Gn 38,26).
Raab era prostituta em Jericó no tempo da conquista de Canaã. Ela protegeu os espiões de Josué. Quando a cidade foi tomada pelos israelitas, seus habitantes foram dizimados, mas Raab e sua família foram poupadas em retribuição à sua colaboração, decisiva para a vitória israelita. Rute era estrangeira, uma ameaça ao povo hebreu pelo perigo dos casamentos mistos e dos costumes pagãos (Sl 106,34-41). A mulher de Urias foi a pessoa com quem Davi cometeu adultério. Ela engravidou, e depois disso Davi tramou a morte de seu marido.
Desta forma, Mateus nos apresenta Jesus, filho de Davi e filho de Abraão, como filho de Tamar, de Raab, de Rute e de Betsabé; alguém que se prostituiu, uma prostituta, uma estrangeira e alguém que cometeu adultério. Com isto, Mateus prepara o leitor do Evangelho para o que ele dirá em seguida: “Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José e, antes de passarem a conviver, ela encontrou-se grávida pela ação do Espírito Santo” (1,18). Portanto, Deus é surpreendente e desconcertante. Da longa saga de Israel, com suas grandezas e misérias, Ele fez nascer o messias, servindo-se de diversas situações humanas e familiares. Nas origens da Sagrada Família, portanto, mencionam-se outras configurações familiares.
Na Igreja Católica, hoje, felizmente vai se abrindo espaço para os que vivem em outras configurações. A CNBB tratou desta questão ao propor a renovação pastoral das paróquias, em 2014. Os bispos brasileiros reconhecem que nas paróquias participam pessoas unidas sem o vínculo sacramental e outras em segunda união. Há também as que vivem sozinhas sustentando os filhos, avós que criam netos e tios que sustentam sobrinhos. Há crianças adotadas por pessoas solteiras ou do mesmo sexo, que vivem em união estável. Os bispos exortam a Igreja, família de Cristo, a acolher com amor todos os seus filhos. Conservando o ensinamento cristão sobre a família, é necessário usar de misericórdia. Constata-se que muitos se afastaram e continuam se afastando das comunidades porque se sentiram rejeitados, porque a primeira orientação que receberam consistia em proibições e não em viver a fé em meio a dificuldades. Na renovação paroquial, deve haver conversão pastoral para não se esvaziar a Boa Nova anunciada pela Igreja e, ao mesmo tempo, não deixar de se atender às novas situações da vida familiar. “Acolher, orientar e incluir nas comunidades aqueles que vivem numa outra configuração familiar são desafios inadiáveis”.
O papa Francisco convocou o Sínodo dos Bispos para tratar da família, lançando a toda a Igreja um amplo debate sobre novas configurações familiares, incluindo uniões do mesmo sexo, contemplando muitas pessoas que vivem numa situação chamada irregular. Na Exortação Pós-sinodal, o papa ensina que a alegria do amor vivido nas famílias é também o júbilo da igreja. A força da família reside essencialmente na sua capacidade de amar e ensinar a amar. Os que estão em uma situação “irregular” podem viver na graça de Deus, amar e também crescer na vida da graça e do amor, recebendo para isso a ajuda da Igreja que pode incluir os sacramentos. Por essa razão, deve-se lembrar aos sacerdotes que o confessionário, onde comumente se ministra o sacramento da penitência, não é uma sala de tortura, mas o lugar onde se experimenta a misericórdia do Senhor. E a Eucaristia não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento aos que necessitam.
Com esta perspectiva inclusiva, celebrar a Sagrada Família traz mais alegria, vibrando com a grandeza do amor de Deus encarnado que vem ao nosso encontro.
*Luís Corrêa Lima é sacerdote jesuíta e professor da PUC-Rio. Trabalha com pesquisa sobre gênero e diversidade sexual.
Fonte: domtotal.com 

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