segunda-feira, 6 de abril de 2020

A ATUALIDADE DA PROFECIA DE AMÓS E A URGÊNCIA DA MUDANÇA DE ROTAS

A irresponsabilidade genocida deste necrogoverno não pode passar
 despercebida pelos cristãos e cristãs (Marcello Casal JrAgência Brasil)

Não fosse o contexto de fé, por um lado; e o anacronismo, de outro, poderíamos dizer que Amós atuou como excepcional cientista político. Na metade do século 8 a.E.C., o profeta soube, como poucos, fazer uma pertinente análise social, que pôde compreender bem a sociedade de sua época, bem como ler o contexto dos povos circunvizinhos, que influenciavam de modo direto na vida de gente de Israel, sobretudo dos empobrecidos e empobrecidas. Amós não tem medo de apontar o dedo para aqueles que estão no centro do poder, tampouco para aqueles que gozam das benesses oriundas da injustiça.
Estamos num país, em que a maior parte da população se orgulha de se declarar cristã. Se, de um lado, isso revela a força que a religião cristã ainda exerce na atualidade; de outro expõe uma contradição atroz, no que se refere à distância entre religiosidade e prática ética dos valores religiosos. O cristianismo como religião revela sua força, enquanto o cristianismo como movimento existencial precisa ser resgatado no horizonte da vida de milhares e milhares de fiéis. Há ótimas exceções, é claro; mas, inspirados que estamos em Amós, nossa leitura se volta para aquilo que é preciso que avancemos.
Em grande medida, esse abismo que existe entre a vivência religiosa e a prática ética é resultado de uma má educação da e para a fé: catequeses e escolas dominicais antipedagógicas, em muitos aspectos, e carentes de boa fundamentação teológica nos trouxeram a uma situação dramática e grave. Mas, também, a força de más lideranças religiosas, ao longo de toda a história da “evangelização” em nosso país, é digna de nota crítica. Atualmente, diante da consciência possível que adquirimos, muitos de nós temos plena compreensão de que há líderes religiosos que, além de irresponsáveis do ponto de vista da fé, são absurdamente nocivos também no que diz respeito ao pacto de sociabilidade, pressuposto básico de toda sociedade civilizada (aqui, sem nenhuma compreensão colonial, importa dizer!).
Amós é contundente em condenar um culto esvaziado de ética, cujos sacerdotes aproveitam para beneficiarem a si próprios, nas muitas formas de poder, sobretudo o econômico. Se juntarmos, pois, a crítica tenaz do profeta, com o discurso escatológico de Jesus, no Evangelho de Mateus (cap. 25), perceberemos que tais líderes são verdadeiros instrumentos de Satanás (aqui, em seu valor de símbolo, “adversário”; e não como personificação). No Brasil de 2020, temos pastores aliados até à medula, com lideranças políticas que se orgulham em tudo de defenderem valores absolutamente anticristãos. Pastores que conduzem seu rebanho ao abismo, tal como a legião de demônios que fez com que a manada de porcos se lançasse ao mar, como nos narra o evangelho, seja no momento de eleições, seja nesse nosso momento de pandemia, cuja sombra de morte paira sobre todos e todas, indistintamente.
Esquecem-se que Jesus, o inaugurador de um movimento que, depois, chamou-se de “cristão”, morreu pobre, na defesa dos empobrecidos e empobrecidas: preocupam-se mais em ter motivos para estamparem a lista de milionários da Forbes, que defender a justa causa daqueles e daquelas que sofrem. Não se interessam pela espiritualidade de seus fiéis: ocupam-se em garantir que o arrecadado com o dízimo – que não é revertido no seu justo uso, segundo as Sagradas Escrituras – chegue às suas contas bancárias, mesmo quando uma multidão de fiéis corre o risco de fome, nesse contexto trágico em que estamos vivendo. A essa religiosidade medíocre e vazia, faz um alerta o profeta, propondo um oráculo do próprio Deus: “Quero apenas ver o direito brotar como fonte, e correr a justiça qual regato que não seca” (Amós 5,24).
Por fim, e não menos importante, uma palavra sobre o contexto político. Amós viveu numa sociedade que tinha sua identidade pautada na fé e, por isso, a crítica política do profeta era iluminada segundo o querer e a vontade de Deus, para que o povo vivesse segundo o direito e a justiça. Na letra da Constituição brasileira, o Estado é declarado laico, portanto a fé não deve pautar as políticas de governo, em nenhum âmbito.
Contudo, o fato de estarmos num país majoritariamente composto por população religiosa, sobretudo de confessionalidades pautadas pelas religiões cristãs; o papel de líderes religiosos que fizeram de seus púlpitos e altares para palanque político que o atual chefe do Poder Executivo fosse eleito; e o próprio fato de o presidente do país pautar sua campanha, apropriando-se (indevidamente, importa dizer) de um texto bíblico e por declarar seu governo, um governo “cristão”, permite-nos que façamos uma leitura crítica a respeito do contexto político brasileiro atual (e também passado), a partir do olhar profético de Amós.
A irresponsabilidade genocida deste necrogoverno não pode passar despercebida pelos cristãos e cristãs. Não é mais possível que muitos e muitas permaneçam num surto ideológico de ódio, e prossigam na defesa de um governo de morte. É tempo de se converterem, pois, os que se aliaram ao discurso da morte, mas sem se esquecer – para não reincidir no erro – que “vós [...] transformastes o direito num veneno e as exigências da justiça em amargura” (Amós 6,12). É preciso, em nome da fé que dizem viver, mudar a rota: a urgência é de vida ou morte!
Fonte: domtotal.com 

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