sábado, 11 de abril de 2020

A TERNURA DE DEUS É IMPERECÍVEL

Esperança e dor são duas experiências da vida que não se autoexcluem, nem são coisas contraditórias
Deus é maior do que nosso sofrimento, do que a morte (Unsplash/ Twinsfisch)

Flávia Gomes*

O livro das Lamentações traz para o leitor um virulento conflito entre fé e realidade histórica. Até onde se possa olhar, o cotidiano parece desmoronar-se. Todos os fundamentos da fé foram reduzidos a cinza assim como a própria cidade de Jerusalém. Pensar em Lamentações leva necessariamente a refletir sobre reconstrução, ressurreição da esperança. Todavia, não simplesmente a reconstrução de muralhas, paredes, casas, templo. A mais necessária das reconstruções seria a reconstrução do ser humano, que experimentava o rebaixamento de sua vida à totalidade da miséria, da desolação.

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Jerusalém já não é mais a mesma. Em outras épocas Jerusalém era um centro comercial ativo e ponto central de todo o culto da nação. Mas, agora é retratada como um montão de ruínas, um lugar deserto e sem a grandeza de outrora. O centro da esperança judaica e a meta de tantas peregrinações de fé está completamente em ruínas (1,1-7). Se no passado vivia-se alegremente, o presente chama a atenção para a própria realidade: apreensão, ansiedade, solidão e desespero. A conquistadora do passado dá lugar a uma cidade que tem seus habitantes levados ao cativeiro, e ela própria é saqueada e destruída. “Banhada em lágrima, passa a noite chorando” (1,2a). O sono deixa de ser elemento revitalizador das energias vitais do dia a dia e torna-se sinônimo de soluços, tristezas, choros e pavores que teimam em voltar repentinamente causando assombro. “Todos os seus aliados a traíram, tornando-se para ela inimigos” (1,2c). A traição foi tal, que muitos contribuíram para a ruína de Jerusalém, a ponto de ajudar os babilônicos a saqueá-la. A desolação é completa. A alegria dá lugar à tristeza. A festa, a um cântico de morte: “Estão de luto os caminhos de Sião: ninguém vem para as festas” (1,4a). As estradas que levam a Jerusalém e costumam estar repletas de peregrinos em marcha para as celebrações das festas no Templo estão desertas. Até o Templo de Salomão foi destruído. O exercito babilônico não poupou nada. A destruição foi geral e completa. Tudo cheira a catástrofe. Tudo clama por compaixão.

Mas, há uma mudança abrupta no texto. O autor convoca a cidade a fazer súplicas a Deus (2,18-22). A ordem é para gritar com todas as forças que ainda resta. O grito nasce da constatação da situação em que se encontra a cidade: a vida dos filhos que desmaiam de fome pelas ruas; as mães comendo seus próprios bebês; velhos e jovens prostrados ao chão; sacerdotes e profetas assassinados. A cada imagem dessas o grito tomava novas proporções: “... derrame rios de lágrimas, dia e noite; você não deve parar de chorar, nem descansar seus olhos. Levante-se e grite na noite, quando começam as trocas da guarda...”. O autor também participa da experiência de destruição e ruína proporcionada pela invasão inimiga, e passa a descrever sua própria experiência de dor e sofrimento. Esse indivíduo representa um sofredor típico de ontem e de hoje. “Eu digo: acabaram minhas forças e minha esperança em Deus” (3,18). O desânimo é total. As flechas estão cravadas nos rins (13), o estômago está cheio de amargura (15), os dentes batem na pedra (16) e não há mais espaço para cultivar a paz de espírito e a felicidade (17). Parece que tudo está perdido.

O sofredor faz um relato de sua reação interior diante de todo esse sofrimento: vai ao desespero e depois à esperança. “Eu digo: ‘Acabaram minhas forças e minha esperança em Deus”. É uma sentença que especifica as mudanças que estão por vir e que resume bem a transição do desespero à esperança. O tom do poema passa por uma alteração substancial: de alguém em franco desespero para alguém envolto em esperança e confidência. O autor constata a ilimitada manifestação da misericórdia divina. O amor e a misericórdia que Deus mostrou ao seu povo renovam-se a cada manhã. Como a ajuda de Deus é permanente o poeta conclui que Deus é sempre bom para os que nele esperam e o procuram (3,25). Nessa sua esperança permanece atento a Deus e passa pelo sofrimento confiante de que Deus substitui a aflição pela misericórdia. Amor, compaixão, fidelidade, renovação e herança, são palavras certeiras que procuram impedir a vitória do desfalecimento sobre a comunidade dos que sofrem. O sofrimento beira o insuportável, mas chegará ao fim. A dor está com os seus dias contados, mas não será assim com os seus substitutos. Para amor, compaixão, e fidelidade usam-se expressões de tempo que se prolongam indefinidamente. Têm hora para iniciar, mas não para acabar. “O amor de Deus não acaba jamais e sua compaixão não tem fim. pelo contrário, renovam-se a cada manhã: como é grande a tua fidelidade!” (3,22-23).

Há um ambiente de renovação de esperança. Parece que autor já conseguiu refletir sobre seu próprio sofrimento e superá-lo (3,40-56). Ele mesmo pode assumir nova posição, baseada na fé e na esperança. E, sendo assim, sente-se capaz de oferecer encorajamento aos demais companheiros. É o início de um processo de renovação da esperança: “Do fundo da fossa invoquei teu nome, ó Deus. Ouve a minha voz, não feches o ouvido ao meu apelo. Tu vieste na hora em que eu chamei, e respondeste: ‘Não tenha medo’” (3,55-57). O autor participa da experiência de um povo arruinado pela invasão inimiga. A experiência o levou até o fundo da miséria e desespero; mas aí ele encontrou motivos de esperança para transmitir ao seu povo: a justiça e misericórdia de Deus são bem maiores, não têm fim.

No léxico do povo de Deus que encontramos em Lamentações, a existência de homens, mulheres, idosos e crianças é marcada por conflitos psicológicos, religiosos, físicos, sociais e políticos. Para aqueles que conseguiram sobreviver, os sentimentos mais contraditórios deveriam povoar a vida: solidão, abandono, fome, separação, dores, lamentações. Restava apenas uma opção para cada um dos sobreviventes: cultivar a esperança, ou aceitar o desespero como projeto de vida.

Não é difícil, nesse cenário de dor e desespero, recordar a desolação dos discípulos e discípulas de Jesus ante a cruz e a morte do mestre. Momento de solidão, medo, sensação de abandono e ruína. Mas, também momento de esperança renovada pelo anúncio da ternura imperecível de Deus que superabunda na ressurreição. Esperança e dor são duas experiências da vida que não se autoexcluem. Não é possível viver sem os dois. A história de todas as pessoas é marcada por elas. Esperança e dor não são coisas contraditórias. Ajudam a perceber que, em meio à tragédia que pode nos atingir, a ternura de Deus é imperecível. A ternura de Deus superabunda em meio à tragédia. Deus é maior do que nosso sofrimento, do que a morte. Ele faz ressurgir das cinzas.

Assim como o livro das Lamentações que fala de dor e de oração, de tragédia e de gestação da esperança, também o desespero e desolação dos discípulos diante da cruz de Jesus, têm por objetivo suprir o significado dos fatos e descobrir a face de Deus, em meio à dor. Face que desvela presença inconteste, restauração, novidade de vida e ressurreição, numa esperança que não adia a vida para o amanhã, mas celebra a infinita bondade e misericórdia alardeadas na notícia de que Ele vive, ressurgiu dentre os mortos a nossa esperança!

*Flávia Gomes é especialista em teologia bíblica, mestre em ciências da religião e graduanda em filosofia. 

Fonte: Domtotal

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