sexta-feira, 24 de abril de 2020

ISOLAMENTO SOCIAL NA IGREJA CATÓLICA PODE TER EVITADO MAIS DE 120 MORTES NO BRASIL, REVELA ESTUDO

Pesquisadores do Cefet-MG e da SBCC utilizaram um modelo matemático para estimar o número de mortes e casos evitados de coronavírus com missas sem fiéis. Modelo pode ser aplicado em outros grupos sociais
Missas sem fiéis podem ter reduzido em 9,7% o número de casos da Covid-19 no Brasil (Thiago Ventura/DomTotal)

Uma pesquisa inédita, revelada em primeira mão pelo DomTotal, aponta resultados positivos das medidas de isolamento social determinadas pelas autoridades sanitárias para conter o novo coronavírus. A pandemia da Covid-19 fez com que as missas fossem realizadas sem fiéis, justamente na época da Semana Santa, momento alto do calendário católico. Porém, a medida foi responsável por reduzir em 2,6% no número de mortes e cerca de 9,7% no número de casos da doença no Brasil.
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O estudo Estimativa do impacto do grau de distanciamento social no número de casos de e óbitos decorrentes da COVID-19 foi feito por pesquisadores do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG) em parceria com a Sociedade Brasileira de Cientistas Católicos (SBCC). Para chegar a esses resultados, o Grupo de Pesquisa em Modelagem de Problemas Biológicos utilizou um modelo matemático chamado SIR para mensurar os efeitos do isolamento, considerando entre as variáveis o número de pessoas suscetíveis à doença, os imunes e o público estimado nas celebrações, dentre outros fatores. Como fonte dos dados, os pesquisadores utilizaram os números da doença divulgados pelo Ministério da Saúde e do Censo do IBGE.

O modelo SIR, uma vez ajustado, fornece informações sobre número de pessoas suscetíveis (S) à doença, com as infectadas (I) e as recuperadas (R). Os pesquisadores ampliaram a fórmula e criaram o modelo STIRM, que além das três variáveis, inclui ainda as pessoas que estão e as que não estão em isolamento social (chamadas de S e T) e acrescenta a classe das pessoas mortas pela epidemia (chamada de M). Essa fórmula pode ser aplicada em outros grupos sociais para entender melhor como é a evolução da doença.

“A SBCC apresentou ao nosso grupo de pesquisa um questionamento concreto diante da realidade da suspensão das missas no Brasil e, a partir daí, procuramos construir conjuntamente as particularidades do modelo STIRM para obter estimativas para as respostas”, afirma Rodrigo Cardoso, doutor em Engenharia Elétrica e professor do departamento de Matemática do Cefet.

No estudo, os pesquisadores utilizaram a fórmula na situação com o isolamento social e em outra hipótese de que nenhuma medida de contenção fosse tomada. Os dados apontam que a suspensão das missas presenciais ajudou a reduzir a curva de contágio da doença. Pelo menos 9,7% dos novos casos foram evitados, percentual que pode variar de 5,5% até 14,1%. Tal diferença, segundo o grupo, varia com a real redução de contatos entre as pessoas.
De acordo com Cardoso, a quantidade de vidas salvas com a opção de isolamento social pode passar 120. “O número aproximado de vidas salvas depende do número de mortos durante o tempo do isolamento pela suspensão de missas no Brasil. Dos 3.295 óbitos pela Covid-19 neste período, poderíamos estimar que a medida salvou em torno de 125 vidas humanas, fora os milhares de infectados”, afirma. Segundo o pesquisador, o número varia entre 46 e 120, com média em 85.

Considerando que uma doença pode ter diferentes resultados em cada organismo, uma fórmula matemática consegue mensurar de forma efetiva o número de casos previstos da Covid-19, ou há uma margem de erro? “Procuramos escolher as variáveis e relações fundamentais para descrever a propagação da doença, tendo como base o ajuste a dados reais de infectados e mortos pela epidemia no Brasil. Desta forma, o trabalho conseguiu estimar o efeito da suspensão das missas no número de casos e óbitos pela epidemia, dentro de uma margem de erro estipulada”, conclui Cardoso.

Fé e Ciência

Para o presidente da SBCC e um dos autores do estudo, Everthon de Souza Oliveira, os resultados obtidos demonstram a importância do isolamento social em todos os grupos sociais. “No maior país católico do mundo, suspender as celebrações com aglomeração de fiéis não é algo irrelevante e contribui significativamente na desaceleração da epidemia”, afirma Oliveira, que é doutorando em Inteligência Computacional e professor do Cefet.

Presidindo uma sociedade que busca diálogo entre a ciência e religião, Oliveira aponta que a crise provocada pela pandemia afeta diversos setores, inclusive nas igrejas. "Os cientistas, especialmente os católicos, devem olhar com sensibilidade para as particularidades da vida religiosa, seus valores e costumes. Precisam propor soluções que minimizem concomitantemente os impactos pastorais que se advém secundariamente aos danos da pandemia, e apontem saídas seguras e calculadas do atual isolamento", diz.

Para o presidente da SBCC, a crise do coronavírus reforça o papel e a importância da ciência para a sociedade, que deve cobrar mais investimentos no setor. “Muitas pessoas não compreendem o emaranhado de informações complexas que descrevem essa pandemia tão peculiar. É papel dos cientistas explicar de modo claro que medidas tão duras, como o distanciamento social, se apresentam como única alternativa para o controle da doença”.

O estudo Estimativa do impacto do grau de distanciamento social no número de casos de e óbitos decorrentes da COVID-19 é assinado pelos pesquisadores Tales Jesus, Rodrigo Cardoso, J.Acebal, Josenildo Lima, Everthon Oliveira e Tiago Paulino. (Thiago Ventura/DomTotal)

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