domingo, 5 de abril de 2020

O VERDADEIRO JEJUM "POR QUE JEJUAMOS, E TU NÃO VISTE?" (Is 58,3)

Imagem da internet 
Assim conta uma antiga história: Era uma vez um homem muito piedoso. Todo domingo participava da missa. Cumpria, com rigor, o preceito religioso. Quando retornava para a sua casa, ele colocava um grão de milho numa vasilha para que, no fim do ano, ao abri-la, soubesse de quantas missas havia participado. Num domingo, no caminho para a igreja, ele encontrou uma pessoa que estava passando mal. Não teve dúvidas: levou-a para o hospital. Em seguida, dirigiu-se para a igreja, e a missa já estava adiantada, no momento do ofertório. Ao retornar, pegou o grão de milho e ficou em dúvida em depositá-lo ou não na vasilha. Depois de pensar um pouco, resolveu depositar somente a metade do grão. No fim do ano, quando ele abriu a vasilha para conferir de quantas missas havia participado, só encontrou meio grão.

O que essa história nos ensina sobre o sentido de nossas práticas religiosas? Muitas pessoas se preocupam apenas com a observância da Lei e da tradição religiosa sem a correspondente prática social, transformando o culto num ritualismo vazio. Não percebem que é impossível amar a Deus sem amar o próximo. A vivência da religião deve brotar do cotidiano e provocar mudança de vida.

No pós-exílio, o rito de jejuar, uma das práticas religiosas mais importantes dos judeus, torna-se oficial e, aos poucos, institucionaliza-se. No calendário nacional, passam a figurar quatro datas especiais para o jejum. Esses dias são de muita importância, tempo em que os judeus se reúnem em Jerusalém. Nessas ocasiões, a movimentação ao redor do templo é muito grande, transmitindo a impressão de intensa vivência religiosa, que na realidade não passa de mero ritualismo. A festa do jejum até encobre situação de injustiça social. A opressão da elite dos judeus do império persa e dos povos vizinhos gera grande número de pessoas empobrecidas e escravizadas.

A crítica profética logo se manifesta, mostrando que o jejum em si não tem o poder mágico para atrair o favor de Javé. Submeter, voluntariamente, o corpo a privações sem compromisso com a vida dos empobrecidos é ritualismo vazio, uma vez que a maioria das pessoas vive em constante aflição. Vejamos a origem e o sentido do jejum.

1. A prática do jejum

A prática do jejum é encontrada em todas as religiões do mundo antigo. Jejuar significa privar-se de todo alimento, em geral, por um dia. O jejum nasce como prática para se livrar dos demônios. Além disso, esse culto tem outros objetivos, como preparar-se para o encontro com as divindades, entrar em êxtase, receber poderes mágicos e garantir a fertilidade. No mundo religioso antigo, o jejum é uma forma de se livrar das desgraças.

Em Israel, jejuar é um antigo costume e também está ligado a um rito de penitência e expiação. A sua prática envolve um indivíduo ou um pequeno grupo na vida familiar e comunitária em diversas ocasiões. Na Bíblia há muitas passagens que falam sobre os objetivos do jejum. Eis algumas:

— preparar-se para o encontro com a divindade (Ex 34,28; Dt 9,9);

— chorar a morte de alguém (1Sm 1,12; 31,13);

— obter a cura de uma pessoa doente (2Sm 12,16-23; Sl 35,13);

— conseguir o perdão de Deus (1Rs 21,27);

— livrar o povo ou a nação dos perigos (Jz 20,26; 1Sm 7,6).

No exílio, o rito de jejuar passa a ser uma das principais formas de o povo expressar sua fidelidade a Javé e manter a sua identidade em terra estrangeira. Na Babilônia, as pessoas exiladas convivem com outras divindades e, com o tempo, vão ficando cansadas, desanimadas e sem fé. Aos poucos, vão assumindo a religião da Babilônia.

Nesse contexto, ressurge a preocupação de as pessoas não se contaminarem com outras divindades, bem como a necessidade da purificação (cf. Ez 20,18.26.30). Vejamos um exemplo: “Não se contaminarão mais com seus ídolos, com suas abominações e com seus crimes. Vou libertá-los das revoltas que os levaram a pecar. Vou purificá-los, e eles serão o meu povo e eu serei o Deus deles” (Ez 37,23).

No exílio da Babilônia não há culto nem templo. A prática do sábado, da circuncisão e das obras de piedade — oração, esmola e jejum — é fundamental para garantir a coesão do povo judeu e se tornar justo diante de Javé. É preciso estabelecer e observar as leis do puro e do impuro para manter a sua identidade dentro do império. Pouco a pouco, o ser justo fica desligado da prática social e se reduz à estrita observância da Lei e à salvação individual (cf. Tb 12,8-10; cf. Tb 1,3.16-17; 4,6-11; Pr 25,21).

No pós-exílio, a importância da observância da Lei aumenta a partir da consolidação da sociedade teocrata. Esta organização social se faz em torno da Lei, que é transformada na Lei do imperador da Pérsia. Desobedecer a ela implica castigos, multas e até pena de morte (cf. Esd 7,26-28).

O sistema do templo e a teologia do puro e impuro são reforçados. A pessoa impura fica impedida de participar do templo, a morada exclusiva de Deus. À única forma de voltar a participar da sociedade e do templo é fazer sacrifício, que inclui a entrega de ofertas para os sacerdotes do templo (cf. Lv 11-14). Assim, o templo e a Lei se tornam os principais mecanismos de arrecadação de tributos para a manutenção das lideranças de Jerusalém, que repassam uma parte do arrecadado ao império persa.

No processo de consolidação da Lei do puro e impuro, o rito de jejuar é institucionalizado. Passam a existir quatro datas especiais de jejum para toda a nação, as quais recordam fatos passados: o nono dia do quarto mês, para lembrar a queda de Jerusalém (cf. 2Rs 25,3-21); o décimo dia do quinto mês, a destruição do templo (cf. Jr 52,12-13); o segundo dia do sétimo mês, a morte de Godolias (cf. 2Rs 25,23-25); e o décimo dia do décimo mês, o primeiro ataque sobre Jerusalém.

Os dias nacionais de jejum são uma ocasião de festa (cf. Zc 8,19), que reúne todo o povo judeu. O jejum se volta para a purificação e a salvação individual, sem compromisso com a prática social. O rito se esvazia. A crítica profética anuncia que o verdadeiro jejum é a prática da justiça. Vejamos como essa denúncia está expressa em Is 58.

2. “Por que jejuamos, e tu não viste?” (Is 58,3a)

O profeta recebe uma ordem de Javé: “Grite a plenos pulmões, sem parar; solte como trombeta o som da sua voz” (Is 58,1a). Mas gritar contra quem e por quê? A denúncia é contra “o meu povo” por causa de seus crimes, e contra “a casa de Jacó”, por não conhecer os seus pecados (cf. Is 58,1b). Nesse primeiro versículo aparece o papel do profeta: ser porta-voz do julgamento de Deus (Os 8, 1).

O destinatário da mensagem é chamado de “meu povo”. Isso indica que entre Deus e o povo há uma relação de proximidade, de pertença: é o povo da aliança. Porém, o povo se afastou do projeto de Javé.

Em seguida, o texto apresenta o motivo do julgamento: a hipocrisia. Falam, mas não fazem: “Mostram desejo de conhecer os meus caminhos; parecem povo que pratica a justiça e que nunca se esquece do direito… Eles querem estar perto de Deus” (Is 58,2). Mas esse desejo não corresponde à prática social, pois se contenta apenas com o rito de expiação para a salvação individual. É um ritualismo vazio sem amor ao próximo.

As pessoas dizem estar próximas de Deus, mas não praticam a justiça. Sentem-se ignoradas por ele, a ponto de afirmarem: “Por que jejuamos, e tu não viste? Por que nos humilhamos totalmente, e nem tomaste conhecimento?” (Is 58,3a). Trata-se de uma ironia. Diante dessa reclamação, segue a resposta. Deus se afasta daquelas e daqueles que buscam o próprio interesse. Dessa forma, o jejum não é um meio para viver a prática da justiça, mas um rito vazio, pois, enquanto essas pessoas jejuam, continuam explorando e oprimindo suas empregadas e seus empregados (cf. Is 58,3b).

O culto que não provoca mudança de atitude não será aceito por Deus. De nada adianta jejuar e continuar explorando a irmã, o irmão, usando de violência e opressão. O jejum que agrada a Deus não é uma ação isolada, na qual a pessoa fica sem alimento apenas por um dia, mas uma prática social constante, que requer assumir o projeto de Deus no dia a dia.

Em Is 58,6-7, o grupo profético descreve qual é o jejum que agrada a Deus. O jejum valorizado por Deus é acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo. Aqui temos a apresentação de um quadro social de grande opressão. O termo “corrente” em hebraico, hartsubbâ, que também pode ser traduzido por algema ou atadura, só aparece em Is 58,6 e no Salmo 73,4: “Vejam! Para eles não há tormentos, e seu corpo é sadio e robusto”. O justo vê a vida feliz dos injustos e questiona a teologia da retribuição, que afirma que Deus recompensa os justos com vida longa, terra e descendência. A realidade mostra que os justos estão sofrendo sob o jugo da opressão.

A palavra “jugo” significa vara ou o travessão de canga. Trata-se de termo pouco usado na Bíblia Hebraica — apenas dez vezes e somente em livros do exílio e do pós-exílio (Levítico, 1Crônicas, Isaías, Jeremias e Ezequiel). O fato de o termo jugo ser usado duas vezes em 58,6 e uma vez em 58,9 pode nos indicar a intensidade da opressão. Deixar livre e despedaçar qualquer tipo de jugo é fazer acontecer o ano da graça de Javé, anunciado em Is 61,1-4.

Em Is 58,7, o jejum que nos aproxima de Deus passa pela realidade cotidiana, exige a partilha dos próprios bens em vista da sobrevivência de outras pessoas: “repartir o pão com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que está nu, e não se fechar à sua própria gente”. Esse compromisso deve acontecer na vida do dia a dia. O jejum deve ser uma prática que tenha repercussão social.

Quem pratica o verdadeiro jejum será abençoado com a presença de Deus (cf. Is 58,8). E, mais uma vez, o texto repete as condições para Deus ouvir o clamor do seu povo: afastar o jugo, eliminar o dedo acusador, dar o pão ao faminto e matar a fome do oprimido (cf. Is 58,9b.10a). O dedo acusador é uma expressão que pode ter o sentido de calúnia ou de acusação sem provas. Portanto, realizar a justiça é fazer a luz brilhar nas trevas e acabar com a escuridão (cf. Is 58,10b; 59,9).

No fim do capítulo (Is 58,11) há várias imagens que retomam as promessas de vida em abundância. Ter Javé como guia e água no deserto nos faz lembrar o novo êxodo, anunciado pelo grupo do Segundo Isaías (cf. Is 41,17-20). A libertação é um processo contínuo e só acontecerá com a colaboração de todas as pessoas da comunidade.

A fartura não se reduz a ter comida na mesa, mas envolve também possuir a terra, condições dignas para sobreviver. A fartura nos faz pensar na imagem do pastor: “Javé é o meu pastor. Nada me falta. Diante de mim preparas a mesa, à frente dos meus opressores” (Sl 23,1.5a). E mais: “Javé fortificará os seus ossos e você será como um jardim irrigado”. Não faltarão as condições para a vida desabrochar: a água nunca faltará. A restauração da nova comunidade é responsabilidade de todos os seus membros.

O sistema oficial do templo, especialmente o culto que se transforma num ritualismo vazio, a teologia da retribuição e as leis referentes à pureza, faz surgir muitas exclusões, entre as quais podemos citar a das pessoas pobres, que, além de privações, sofrem também rejeição sociorreligiosa. Os estrangeiros e as estrangeiras vivem em situação permanente de impureza.

O corpo do homem também está codificado, pois qualquer líquido expelido por ele provoca a impureza. A mulher é a pessoa mais atingida por esse sistema, pois constantemente está em dívidas com o templo, seja por causa da menstruação, do dar à luz ou da relação sexual (cf. Lv 12; 15,18). Enfim, o corpo da pessoa está aprisionado em normas e códigos, é o causador de separações e discriminações. Diante dessa situação de opressão religiosa, surgem muitos gritos e protestos, mostrando que Javé é Deus dos pobres e acolhe a todas e todos. É o Deus da vida!


3. Gritos que nascem da vida

As reformas sob a liderança de Neemias e Esdras têm a sua importância sócio-histórica para manter a identidade e a coesão do povo judeu no pós-exílio. Mas existem os dois lados da moeda. A consolidação do ritual da purificação, a teologia da retribuição e o legalismo geram diversas exclusões, como a dos estrangeiros, especialmente das mulheres estrangeiras, dos doentes, das pessoas pobres e dos portadores de deficiência física.

Além de no Terceiro Isaías (Is 56-66), também encontramos críticas e projetos alternativos de reorganização do povo nos livros de Rute, Cântico dos Cânticos, Jó, Jonas, Salmos e outros. Vamos conhecer, mais de perto, esses gritos?

— Rute: É uma novela que contém três exigências básicas para realizar o projeto de Javé: a inclusão de pessoas estrangeiras, o direito de respiga e o resgate da terra. A Lei oficial afirma que o povo judeu é o único povo escolhido por Javé, porém Rute, uma mulher estrangeira, é solidária com a sua sogra Noemi. É ela que reivindica a lei que dá o direito de os pobres recolherem o resto que fica nos campos após a colheita: a respiga (cf. Rt 2,1-7; Dt 24,19-22; 26,12-15). Outra lei que não está sendo cumprida é a do resgate, que diz o seguinte: se uma pessoa morrer sem deixar descendência, um parente mais próximo deve se casar com a viúva e suscitar descendência para perpetuar o nome da família (cf. Dt 25,5-10). Ou ainda: se alguém cair na desgraça e perder a terra por dívidas, um parente próximo deverá resgatar a terra (cf. Lv 25,24). O livro de Rute é um grito dos grupos que estão sendo discriminados e excluídos. É bandeira das pessoas que mostram que a pertença ao povo de Javé não está restrita à nacionalidade judaica, mas se abre a todos os comprometidos com a prática da justiça e da solidariedade.

— Cântico dos Cânticos: Este livro nasce numa sociedade patriarcal e centrada na figura do homem. A Lei oficial apresenta o corpo como fonte de impurezas (cf. Lv 11-16). No Cântico dos Cânticos, há um resgate da dignidade do corpo e do prazer. É o corpo oprimido que proclama a beleza e o prazer da relação gratuita com outro corpo, livre da prisão do templo e da lei. Esses poemas mostram que a relação sexual como um ato de amor é expressão da divindade: “uma faísca de Javé” (Ct 8,6), e não algo que torna a pessoa impura (cf. Lv 15,18). A amada vai levar o amado para a casa da mãe (cf. Ct 3,4; 8,2). A figura do pai não aparece, ao passo que são citadas a mãe da amada, do amado e as irmãs (cf. Ct 4,9.10.12; 5,1.2). Os irmãos são mencionados como aqueles que exploram o trabalho da irmã (cf. Ct 1,6). Nesse livro, a mulher fala por si mesma, descreve os seus sentimentos, pensamentos e atos. É uma reação à Lei oficial, que prescreve normas e leis que regulamentam a relação entre as pessoas. O texto propõe relações baseadas no amor e na gratuidade, criando e recriando a vida.

— Jó: Este livro questiona a teologia oficial da retribuição (cf. Jó 12,6; 21,7). O princípio dessa teologia é que Deus castiga a pessoa injusta com sofrimento e pobreza e abençoa a pessoa justa com riqueza, bem-estar e vida longa. Mas a realidade demonstra o contrário, pois há muitas pessoas justas que estão sofrendo. O livro de Jó ergue vários gritos contra a teologia oficial. Eis um desses gritos: “Os injustos mudam as fronteiras, roubam rebanhos e os levam a pastar, apoderam-se do jumento que pertence ao órfão, e penhoram o boi que é da viúva. Empurram os indigentes para fora do caminho, e os pobres da terra têm que se esconder” (Jó 24,2-4). É possível que o livro de Jó tenha surgido da experiência de pessoas ligadas ao campo. Essas pessoas tinham sido educadas para ver Deus só no templo, porém, com base em sua dura realidade, começam a fazer uma nova experiência de Deus: “Eu te conhecia só de ouvir. Agora, porém, os meus olhos te veem. Por isso, eu me retrato e me arrependo, sobre o pó e a cinza” (Jó 42,5-6). Elas constatam que o Deus da vida não está só no templo, mas também entre as pessoas sofridas, e não compactua com as injustiças.

— Jonas: Este profeta é chamado a pregar para um grupo de não judeus, mas foge. Deus fica irritado e provoca uma tempestade. Quando os marinheiros descobrem o motivo, Jonas é jogado no mar para aplacar a ira de Javé. Todos se convertem a Javé, menos Jonas. No capítulo 2, é engolido por um peixe e, mesmo nas entranhas do peixe, continua preso à Lei e ao templo. No capítulo 3, o profeta anuncia a destruição da cidade. Todos se convertem: rei, homens, mulheres e animais, menos Jonas. Na última cena (cf. Jn 4,1-11), Jonas não se conforma com a ação de Javé: “[Eu fugi, pois] sabia que tu és um Deus compassivo e clemente, lento para a ira e que voltas atrás nas ameaças feitas” (Jn 4,2). A novela de Jonas é um protesto contra o exclusivismo e o nacionalismo judaico. O grupo por trás de sua composição acredita que Javé não está restrito a um único povo, mas aberto a todas as nações, propondo uma visão universalista inclusiva.

— Salmos: São orações que brotam da vida. Muitas delas são gritos contra a situação de dor e sofrimento. Por exemplo, o Salmo 37 é um protesto contra a teologia da retribuição. Começa descrevendo a situação de prosperidade dos injustos, que têm vida longa e felicidade. Porém, o salmista vira a mesa, afirmando que os humildes, os justos, aqueles que esperam no Senhor é que possuirão a terra (cf. Sl 37, 9.11.22.29.34). Os maus e os ímpios serão extirpados, amaldiçoados e exterminados (cf. Sl 37,9.22.28b.34.38). Vejamos outro grito: “Javé faz a estéril sentar-se em sua casa, como alegre mãe de filhos” (Sl 113,9). A mulher estéril é excluída. Na cultura judaica, é costume a mulher não se sentar à mesa. A esterilidade é considerada maldição. Veja que interessante: Deus toma partido das pessoas marginalizadas. Nessa mesma linha podemos ler o Salmo 128: “A herança que Javé concede são os filhos, seu salário é o fruto do ventre”. O povo caminha na certeza de que Javé “mantém a sua fidelidade para sempre, fazendo justiça aos oprimidos e dando pão aos famintos” (Sl 146,6b).

Sempre que há opressão, há também movimentos de resistência. Na história do povo judeu podemos perceber como os grupos marginalizados resistem a uma imagem de Deus que justifica o poder, a violência e o ritualismo vazio, excluindo as pessoas pequenas e fracas. A experiência de um Deus que ouve o grito do povo oprimido é uma constante que atravessa toda a Bíblia (cf. Ex 3,7). A certeza da presença de Deus impulsiona a caminhada das pessoas rumo a vida plena.

O povo de Deus hoje continua buscando novos caminhos para resistir às situações de injustiça. Nos grupos pobres e marginalizados, cujas pessoas se encontram no fundo do poço, a frase mais repetida é: “Só Deus é por nós” ou “Deus é grande!”. O encontro, a todo momento, com as pessoas empobrecidas, desfiguradas pela realidade de fome, miséria e falta de dignidade humana questiona e desafia a nossa prática religiosa. Afinal, vivemos num país onde a maioria é batizada na religião cristã. O principal sacramento da religião cristã é a partilha. Isso nos questiona: será que nossa vivência da religião nos leva a um compromisso com a justiça social ou está presa a preceitos e rituais vazios, sem amor ao próximo?


4. O jejum que Deus quer

Desde criança aprendemos que o jejum é um culto que nos aproxima de Deus e das pessoas que não têm o que comer. É uma forma de privar-se de algum alimento para comungar com a irmã e o irmão necessitado. Embora seja uma prática que tem o seu sentido religioso, é necessário ir além. Novamente cabe a pergunta: “Qual é o jejum que Deus quer?”.

O texto de Isaías 58 é muito forte e objetivo. De nada adianta jejuar e continuar buscando os próprios interesses, esmagando as pessoas para conseguir alcançar os objetivos particulares (cf. Is 58,3). O verdadeiro culto a Deus exige compromisso permanente com a vida das pessoas empobrecidas. Não se trata de gesto esporádico, suscitado por períodos de campanhas, mas de espiritualidade que nos leve a um cuidado amoroso com a Vida.

O jejum forçado de milhares de crianças desnutridas, de mulheres e homens é um grito que clama aos céus, denunciando a não realização do projeto da partilha e da solidariedade. O rito de jejuar é sentir e viver, na própria pele, a situação de fome de tantas irmãs e irmãos. Que a vivência do jejum nos leve a assumir, com outras pessoas, projetos empenhados na busca de realização de uma sociedade justa, onde a partilha não seja apenas um sacramento, mas uma vivência concreta.

Centro Bíblico Verbo

Nenhum comentário:

Postar um comentário