terça-feira, 5 de maio de 2020

CATÓLICOS SOCORREM OS POBRES SEM AMPARO DA AMÉRICA LATINA EM MEIO À PANDEMIA

Os irmãos franciscanos distribuem refeições no centro
de São Paulo, Brasil, onde a população em situação
de rua é estimada em 25 mil pessoas. (Diego Melo)

Ações são cumprimento da opção preferencial pelo pobres, mas são emergenciais
Ao mesmo tempo que muitos países da América Latina impõem medidas de distanciamento social para conter a disseminação do novo coronavírus, numerosas pessoas são privadas da subsistência básica. Do México até a Argentina e o Chile, as instituições católicas têm sido ativamente operantes no apoio aos segmentos sociais mais desfavorecidos durante a pandemia.
Dois grupos sociais foram fortemente impactados, entre outros. Mais da metade da população no México e na República Dominicana, por exemplo, trabalha em empregos domésticos não registrados, vendas ambulantes e outras atividades precárias – sem proteção governamental ou direitos trabalhistas. Com o estabelecimento de quarentenas parciais ou totais, essas pessoas viram sua renda desaparecer repentinamente.
Além disso, grandes cidades latino-americanas, como Cidade do México, São Paulo e Santiago, têm grandes populações de desabrigados e sem-teto, chegando a dezenas de milhares. Com o surto, a maioria dos abrigos governamentais deixou de receber novos membros. A assistência prestada por organizações não-governamentais e grupos religiosos, em muitos casos, foi suspensa.
As congregações católicas e as comissões pastorais diocesanas que já trabalhavam para ajudar a fortalecer suas operações, atendem assim ao lema de décadas da Igreja Latino-Americana, que professa uma "opção preferencial pelos pobres".
É o caso dos franciscanos em São Paulo, a maior cidade do Brasil. Com uma população sem-teto estimada em 25 mil pessoas, a cidade deixou grande parte desse grupo sem assistência quando o fechamento das atividades e a quarentena parcial foi declarada em 24 de março.
"A população de rua está muito marginalizada agora. Muitos grupos que costumavam distribuir alimentos entre os mais desamparados deixaram as ruas por medo da doença", disse o padre Diego Melo. Os franciscanos já tinham diferentes programas alimentares direcionados a comunidades pobres e pessoas em situação de rua em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e no Espírito Santo. "Percebemos que a nova conjuntura exigia uma reconfiguração do nosso trabalho e o fizemos", afirmou.
Em todas essas regiões, a congregação enviou novos irmãos e voluntários para o trabalho nas ruas, coletando e distribuindo alimentos e suprimentos. Em São Paulo, os franciscanos montaram uma barraca em frente a uma de suas casas no centro e começaram a servir pelo menos 2.500 refeições quentes por dia.
Os franciscanos, juntamente com a comunidade católica Missão Belém, são um dos poucos grupos atualmente trabalhando nessa área, que concentra grande parte da população de rua de São Paulo. "Até outros grupos religiosos estão nos dando comida para servir, porque temem o contágio", disse Melo.
Todas as medidas de precaução estão sendo tomadas pela congregação. Melo disse também que não teme tanto a contaminação. "Meu maior medo é ver nossos irmãos e irmãs morrendo de fome e sem ajuda".
Uma dinâmica semelhante ocorre em Santiago, no Chile. Desde que a pandemia chegou ao país, os moradores de rua reclamam de assistência insuficiente, disse a irmã Patricia Baez.
"Todo mundo fala sobre como é importante ajudar os mais necessitados da sociedade em um momento como esse, mas a maioria das pessoas está fechada em casa agora. A população de rua é completamente invisível neste momento", disse ela. "Não posso ficar calma em casa se souber que meus irmãos e irmãs não têm comida".
Membro das Irmãs Missionárias Franciscanas Chilenas de Jesus, Baez e um grupo de quatro colegas e voluntários saem todas as noites às 19h a distribuir cerca de 80 refeições quentes para os sem-teto. Às 22h eles precisam voltar para casa, devido a um toque de recolher sanitário estabelecido pelo governo. "Nossa Via Sacra foi assim na sexta-feira passada", disse ela.
A maioria dos refeitórios para pessoas sem-teto agora estão fechados, disse Baez. No outro dia, uma mulher sem-teto me disse que não tem medo do Covid-19. “Fui espancada e estuprada nas ruas. Deus me protegerá desta doença”, ela apontou. “Há muito sofrimento nas ruas”, disse a religiosa.
Os pobres nas grandes cidades argentinas como Buenos Aires estão se beneficiando da atividade assistencial de décadas de movimentos sociais e organizações de igrejas no país, que vem reforçando suas operações desde o início da pandemia. Segundo o bispo Gustavo Carrara, os refeitórios da comunidade acrescentaram novas mudanças aos seus horários regulares, a fim de lidar com a demanda maior e evitar a superlotação.
"As medidas de distanciamento social foram aplicadas na Argentina em uma fase inicial, o que contribuiu para impedir a propagação do vírus. Mas isso causou um prejuízo na economia informal, por isso há uma demanda crescente por alimentos", disse Carrara.
Nas favelas, o Hogar de Cristo, uma rede de centros comunitários que abrigam crianças e adolescentes envolvidos com drogas, está protegendo centenas deles durante a quarentena.
Para os sem-teto, vários refeitórios ainda oferecem refeições quentes. Organizações católicas como a Caritas Argentina estão abrigando permanentemente pessoas que costumavam passar a noite nas ruas. "Em Buenos Aires, dois abrigos da Caritas estão recebendo 370 pessoas. As irmandades também estão oferecendo um lugar para ficar para os sem-teto", acrescentou Carrara.
A Igreja argentina tem ajudado o Estado a alcançar as pessoas mais vulneráveis – moradores de regiões de difícil acesso e sem internet – para facilitar a doação de alimentos e dinheiro. "Mesmo nos lugares mais distantes, sempre há uma capela", disse Carrara.
Em Santo Domingo, na República Dominicana, a Igreja também tem ajudado o governo a organizar a assistência. A fome é um problema crescente nesse país do Caribe. "Recentemente, conheci uma mulher idosa que me disse que estava em casa com quatro netos e que não comiam há quatro dias", disse o padre Domingo Legua, vigário episcopal de assistência social pastoral na Arquidiocese de Santo Domingo.
Legua explicou que pelo menos metade da população dominicana não tem condições de estocar alimentos. "Eles trabalham todos os dias para comprar a comida de cada dia. Agora que todos estão confinados, essas pessoas passam fome", disse ele.
O banco de alimentos de Legua distribui diariamente milhares de porções de alimentos básicos não cozidos – principalmente arroz e feijão – desde que a pandemia chegou à ilha. "Somente nos primeiros dez dias de confinamento, doamos 500 mil porções", afirmou. O banco de alimentos recebe contribuições de empresários locais e compra suprimentos diretamente dos produtores.
A crise econômica gerada pelas medidas de distanciamento social aumentou imediatamente a criminalidade no país, o que impactou até as atividades de caridade da Igreja. "Tínhamos um armazém onde costumávamos coletar doações de alimentos em um bairro distante. Foi roubado várias vezes e tivemos que deixar o local", disse Legua. "Mais dificuldades estão chegando dia a pós dia"
No México, a Igreja lançou um esforço para coordenar as várias iniciativas de assistência que estão ocorrendo no país. Com uma taxa de informalidade econômica de 56%, o país possui altos índices de pobreza tanto nas cidades como no campo, contextos que apresentam necessidades especiais de saúde, nutrição e psicossociais.
"Temos tentado coordenar nossos trabalhos nas nove regiões mexicanas em que estamos presentes, a fim de ajudar as pessoas pobres nas áreas urbanas e rurais", disse o padre Sergio Cobo, diretor da Fundação Loyola da Companhia de Jesus. "Temos prestado assistência a centenas de milhares de pessoas dessa maneira".
Os jesuítas mexicanos estão apoiando os profissionais dos hospitais católicos do país e coletando doações para serem distribuídas às paróquias e comunidades. Alguns de seus prédios foram convertidos em operações de assistência médica e serviço social.
Segundo Cobo, também há uma presença jesuíta relevante entre as comunidades indígenas. "Por meio de duas estações de rádio que mantemos com grupos indígenas, estamos trazendo informações e conscientizando sobre o novo coronavírus, tanto em espanhol quanto em línguas indígenas", afirmou.
Além da face mais visível da crise, há uma camada política que determina o curso dos eventos na América Latina – e a Igreja não pode negligenciar tais aspectos, argumentou Melo, do Brasil.
"Nossa opção preferencial pelos pobres nos obriga a acompanhá-los neste momento de emergência, mas nosso trabalho não pode se limitar a isso. Nossa fé nos leva a reconhecermos a necessidade de mudanças estruturais em um sistema social que continua gerando pobreza", disse.
 
Publicado originalmente por National Catholic Reporter.
*Eduardo Campos Lima é formado em jornalismo e atualmente é candidato ao doutorado na Universidade de São Paulo, Brasil. Entre 2016 e 2017, foi aluno de pesquisa visitante da Universidade Fulbright da Columbia University. Lima escreveu para grandes agências de notícias, como a Reuters e o jornal brasileiro Folha de S. Paulo.


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