quinta-feira, 4 de junho de 2020

ASFIXIADOS: NÃO CONSIGO RESPIRAR


Quincy Mason Floyd (C), filho de George Floyd, e o advogado Ben Crump 

(E) se ajoelham no local onde Floyd foi morto em 3 de junho de 2020 em

 Minneapolis, Minnesota (Stephen Maturen / Getty images via AFP)


O grito de Jesus na cruz repercute no grito de tantos George Floyd, Joao Pedro, Aghata, Marielle, Anderson, Evaldo...

“Não consigo respirar”. Quantos negros no Brasil já pronunciaram a frase antes de morrer por Covid-19? A epidemia escancara o racismo. Nota do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (Nois) aponta que a chance de um negro morrer por causa do novo coronavírus é maior que de um branco. O Ministério da Saúde informou que a porcentagem de pacientes mortos por Covid-19 entre os pretos e pardos passou de 32,8% para 54,8% entre 10 de abril e 18 de maio.

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“Estou dentro de casa”. A melhor forma de evitar a propagação da Covid-19 é o distanciamento social. Entre as comunidades vulneráveis é difícil “ficar em casa”. Muitos necessitam sair para buscar sustento, deixando seus filhos em casa. Mês passado João Pedro, um garoto negro de 14 anos foi assassinado com um tiro de fuzil, por um policial enquanto estava dentro de casa. 

A Constituição Federal Brasileira de 1988 determina, no artigo 3º, inciso XLI, que “constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”; no artigo 5º, inciso XLI, que “a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades”. Racismo é crime, passível de pena variável de um a cinco anos conforme está na lei 7.716/1989.

A população brasileira é majoritariamente negra e, embora existam mecanismos legais no combate ao racismo, há pouco avanço nesse campo. É constante a violência contra a população negra, principalmente por parte do Estado. O racismo é estrutural, resultado de um processo histórico, político e cultural mantido pela elite racista escravocrata por quase quatro séculos.

A população negra vive em permanente situação de vulnerabilidade, enfrenta inúmeras dificuldades para obter acesso aos direitos sociais. A abolição não eliminou os impactos econômicos, culturais e sociais da escravidão. O Brasil nasceu do tráfico de pessoas de africanos e da escravidão. O Es­tado foi configurado pelos interesses dos escravistas.

Dados do IBGE apontam diferenças entre brancos e negros. Na faixa etária entre 15 e 24 anos que frequentavam o nível superior, 31,1% dos estudantes eram brancos, enquanto apenas 12,8% eram negros e 13,4% pardos. A taxa de analfabetismo é de 5,9% entre brancos, 13% entre pardos e 14,4% entre pretos. Como mudar isso se o ministério da educação é comandado por um despreparado fascista?

O Relatório das Desigualdades Raciais no Brasil (IBGE) indica que os negros e pardos também são minoria no acesso ao SUS.  O número de mães de filhos pretos e pardos que fez o pré-natal foi 28,6% inferior ao de mães brancas. A população negra em grande maioria tem no Sistema Único de Saúde sua única forma de atendimento, um setor que o atual governo está desmontando. O país está sem ministro da saúde em plena pandemia.

É crescente número de negros assassinados no país: um aumento de 28% em 2019. De acordo com o Mapa da Violência, sete jovens são assassinados por hora no Brasil, 80% são negros. O Estado brasileiro é o que mais mata no mundo. A polícia do Rio de janeiro mata a cada 30 dias o que a polícia de Minnesota matou nos últimos 2 anos.

Contra números não há argumentos. Me pergunto: o que a morte de Pedro e Floyd têm em comum? Os dois são negros. A morte de Pedro gerou revolta e protestos, mas a de Floyd, nos Estados Unidos, provocou uma convulsão social, vista antes apenas na morte de Martin Luther king. Lá como aqui morrem muito mais negros que brancos. Lá como aqui as mortes por Covid-19 não para de crescer. Lá como aqui o presidente é um desumano, não tem sentimentos e responde aos manifestos se escondendo atrás dos militares. Que as manifestações do povo norte-americano nos encoraje. “Se você é neutro em situações de injustiça, escolheu o lado do opressor” (Desmond Tutu).

O racismo e o fascismo são duas faces da mesma moeda. Os fascistas/racistas são os idiotas mais perigosos do mundo. Ambos têm a marca do ódio e da violência. “Não consigo respirar” diante de tamanho racismo contra negros, contra pessoas LGBT+, contra mulheres, contra migrantes, contra índios, contra os pobres.

Todo racista é anticristão. Racismo é blasfêmia contra Deus. Todo ser humano é criado à sua imagem e semelhança. “Não consigo respirar!”  O grito de Jesus na cruz repercute no grito de tantos George Floyd, Joao Pedro, Aghata, Marielle, Anderson, Evaldo...

Black lives matter!

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de: 'Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja' (Paulinas, 2001); 'Cristianismo e economia' (Paulinas, 2016)

Fonte:domtotal.com 


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