sexta-feira, 12 de junho de 2020

REDES DE EVANGELIZAÇÃO OU PORTA-VOZES DO GOVERNO?


O diálogo entre religiões e poder público não é

problemático, desde que seja republicano e

eminentemente ético (UMario Caruso)

Nenhum sistema econômico ou político se equipara ao Reino de Deus
Muitos de nós fomos surpreendidos com uma notícia, amplamente veiculada, de uma reunião do presidente da República com alguns parlamentares, da chamada ?Bancada Católica?, e alguns representantes de emissoras de ?inspiração católica?, entre os quais, padres bastante famosos. A reunião, em si, não é motivo de escândalo. Chocou-nos foi a manchete, que anunciava que ?TVs católicas?, por verbas governamentais, ofereciam apoio ao governo. Mais chocante ainda, foram algumas das falas, públicas porque disponíveis em vídeo.
Tão estarrecedora a explícita barganha por parte de alguns ali naquela reunião, que o repúdio veio de várias frentes, inclusive de emissoras que não haviam autorizado alguns que se diziam seus representantes de falar em nome delas. A Comissão da CNBB responsável pela área lançou contundente nota de repúdio a essa barganha vergonhosa e absolutamente antievangélica, bem como outras instituições que trabalham com comunicação de inspiração católica e, mais que isso, evangélica. Uma análise criteriosa da reunião, bem como do ambiente eclesial-político que tornou possível tal situação, pode ser encontrada no artigo A Igreja se vendeu para o governo?
A Doutrina Social da Igreja é bastante clara quando aponta que nenhum sistema econômico ou político se equipara ao Reino de Deus: logo, a Igreja não deve se aliar a nenhum destes poderes, sobretudo aqueles que são de necropoder. As democracias modernas têm um pilar fundamental para que existam: a laicidade do Estado, que inclusive é fundamental para o livre exercício da fé. O diálogo entre religiões e poder público não é problemático, desde que seja republicano e eminentemente ético. Em se tratando de cristianismo, a baliza do posicionamento deve ser claro: o Evangelho de Jesus Cristo,
Não há quem duvide da importância dos meios de comunicação para a evangelização. É greve, porém, quando esses meios, ditos de inspiração cristã e católica, estão em posse de vozes dissonantes do Evangelho e não seguem um critério teológico sério e comprometido como base. E essa é uma crítica que deve ser feita para além do que ocorreu na fatídica reunião. À qual propósito, verdadeiramente, essas emissoras estão destinadas? Se for, realmente, à evangelização, elas precisam servir ao Evangelho e não ao interesse mercadológico, tampouco reacionário.
No Dom Especial desta semana, fazemos ecoar a evangélica indignação à proposta explícita de barganha, tal como já assinalado, a partir daquilo que o Evangelho de Jesus nos inspira. No primeiro artigo, Dialogar ou barganhar?, Gustavo Ribeiro tece uma crítica à postura adotada pelos que compunham ?a mesa? daquela reunião, conclamando à profecia, tão urgentes nestes nossos tempos. Rosana Bones, com o artigo Mídia bolsonarista, pseudo cristã, elabora uma reflexão a respeito dos meios de comunicação social, na perspectiva do Evangelho e da ética cristã. Encerra nossa reflexão, César Thiago do Carmo, com o artigo Estúdios de sangue como o chão do palácio de Pilatos, no qual conclama a uma tomada de postura legitimamente evangélica, a fim de que todo o aparato da comunicação, disponível aos cristãos e cristãs seja, verdadeiramente, de anúncio do Evangelho de Jesus Cristo.
Boa leitura!
Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com
Fonte:domtotal.com

 


Um comentário:

  1. Após esta pandemia muita coisa foi revekada. Não é possível servir a Deus e aos poderosos

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