quinta-feira, 11 de junho de 2020

TRABALHO: O FUTURO NO PRESENTE


Manifestação de entregadores de aplicativo por melhores
 condições de trabalho e equipamento de segurança em
 São Paulo (05 junho 2020) (Roberto Parizotti/ FotosPublicas)

A crise do trabalho é resultado de uma opção social, diz papa Francisco
No início da pandemia do coronavírus, o governo injetou R$ 1,2 trilhão no sistema financeiro. Recursos públicos equivalentes a 16,7% do Produto Interno Bruto (PIB) para salvar empregos. O dinheiro ficou represado nos bancos. O patrimônio de cinco bancos – Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa – supera o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. O volume de ativos dessas instituições atingiu R$ 7,36 trilhões em março, superando pela primeira vez, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, de R$ 7,3 trilhões, conforme o IBGE. Santander planeja cortar 9,4 mil funcionários apesar de ter se comprometido a não realizar cortes durante a crise.
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O capitalismo só se expande destruindo. Destrói tudo, inclusive a força de trabalho humano. Corte salarial e suspensão de contrato atinge mais de 10 milhões de trabalhadores formais. Queda recorde no número de ocupados, 5,2%, em relação ao trimestre encerrado em janeiro. São cinco milhões de postos de trabalho fechados. Mais de 35 milhões de trabalhadores já estão na informalidade. Quase 1 milhão de pessoas entraram na fila do desemprego em 2020.
A crise do trabalho é resultado de uma opção social, diz papa Francisco. O capitalismo quer um trabalho informal, explorado, sem contrapartidas, para que o lucro cresça.  A desumanização do trabalho é a dimensão mais selvagem da economia. Desintegra a sociedade: explosão do desemprego, precariedade laboral, destruição ambiental, misoginia, xenofobia, racismo, destruição da saúde e da educação. A pandemia escancarou a brutalidade das desigualdades de classe, raça e sexo. A dimensão da brutal concentração da riqueza foi agravada pela pandemia.
O capitalismo aproveita as crises intensificar a exploração dos trabalhadores reduzindo ainda mais os direitos. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a pandemia expandiu as categorias de desempregados e intensificou as contradições da vida familiar. As mulheres, já superexploradas, precisam conciliar trabalho remunerado com as tarefas de casa e cuidados com filhos, pais...
Novas formas da velha exploração. A pandemia consolida uma nova gramática dos ataques aos direitos trabalhistas. Home officeself branding, tele-trabalho ditam as regras dos novos espaços de trabalho. Empresas estão reduzindo custos com água, luz, transporte, aluguel. Despesas transferidas para trabalhador que produz de casa.
home oficce só é possível graças a trabalhadores superexplorados não confinados. São os entregadores dos serviços de aplicativos (99, Ifood, Rapi, ubereats). A uberização obriga trabalhadores informais a escolher entre saúde e subsistência. Empregos sem qualquer proteção constitucional ou direitos. Hoje os precários são eles, amanhã talvez sejam todos. Outro grupo exposto à precariedade são os imigrantes e refugiados. Expostos à superexploração extrema, sem acesso à serviços públicos de saúde e privados de cidadania, são a imagem mais viva da precariedade laboral.
A recessão agravará ainda mais a vida dos pobres. Não há boas perspectivas para a pós pandemia. O horizonte é sombrio. O desmantelamento das políticas regulatórias das relações de trabalho coordenada pelo Estado ganha força. Será mais fácil contratar, despedir e reajustar a jornada de trabalho segundo as necessidades do mercado.
É urgente pensar saídas. Sindicatos, associações, movimentos sociais, universidades, igrejas, partidos políticos precisam mobilizar as bases para que surjam projetos econômicos alternativos. O trabalho humano é central na construção de uma nova sociedade.
O trabalho é uma atividade fundamental da existência humana. O mundo do trabalho é uma prioridade cristã. Nesta pandemia, a Igreja sofre com os trabalhadores. “As alegrias e as esperanças, a tristeza e a ansiedade dos homens de hoje, especialmente os pobres e todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e ansiedades dos discípulos de Cristo” (Gaudium et spes,1).
A preocupação com a situação de miséria e exploração dos trabalhadores está no centro da Doutrina Social da Igreja. Razão da primeira encíclica social do papa Leão, no século 19. “É vergonhoso e desumano utilizar os homens como meros instrumentos de ganância, e estimá-los somente na proporção da força de seus braços (Rerum novarum, 10). Nenhum ser humano pode ser instrumentalizado pela economia. João Paulo II destacou a dignidade do trabalhador: “O trabalho humano provém das pessoas criadas a imagem e semelhança de Deus, chamadas a prolongar o trabalho da criação” (Laborem exercens, 6).
Os direitos sociais e trabalhistas resultam das lutas dos  povos. É Evangelho em ação: “O amor pelos pobres está no centro do Evangelho. A terra, o teto e o trabalho pelo qual vocês lutam, são direitos sagrados. Afirmar isso é Doutrina Social da Igreja” (Papa Francisco).
O futuro do trabalho não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e dos super-ricos. Está fundamentalmente nas mãos dos povos; em sua capacidade de se organizar e também nas mãos que regam com convicção este processo de mudanças” (Papa Francisco).
Precários nos querem. Rebeldes nos terão.
*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de: 'Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja' (Paulinas, 2001); 'Cristianismo e economia' (Paulinas, 2016)
Fonte: domtotal.com

 


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