quarta-feira, 3 de junho de 2020

TRUMP INSTRUMENTALIZA RELIGIÃO EM CASO FLOYD E GERA REAÇÃO CATÓLICA E PROTESTANTE


Donald Trump em frente à Igreja Episcopal de São João em
 Washington em 1 de junho de 2020 (AFP/Arquivos)

Presidente posa em lugares de culto para criar dicotomia entre manifestantes e religiosos
Líderes religiosos americanos criticaram duramente nesta terça-feira (2) a decisão do presidente Donald Trump de posar com uma bíblia em frente a uma igreja, minutos depois de ordenar uma repressão a um protesto contra a morte de um cidadão negro por um policial branco.
"Foi traumático e profundamente ofensivo no sentido de que algo sagrado foi mal utilizado para um gesto político", denunciou na rádio pública NPR Mariann Budde, episcopisa da diocese de Washington, à qual pertence a igreja de Saint John, que Trump visitou.
O presidente usou "o poder simbólico do nosso texto sagrado, segurando-o na mão como se fosse uma reivindicação de suas posições e sua autoridade", acrescentou Budde.
A Igreja de Saint John, um edifício histórico perto da Casa Branca, é um templo episcopal protestante que foi danificado no domingo à noite em meio aos protestos.
Mas na segunda-feira os manifestantes protestavam pacificamente quando foram dispersados com bombas de gás lacrimogêneo para que Trump caminhasse por alguns metros entre a Casa Branca e o templo, onde posou para fotos.
O protesto e a repressão foram transmitidos ao vivo em muitas emissoras, então as críticas vieram rapidamente.
"Naquele momento, o protesto era totalmente pacífico", disse Budde. "Não havia justificativa para isso", acrescentou.
Na segunda-feira, antes de visitar o templo, Trump adotou um tom marcial em um discurso solene à nação, no qual ameaçou mobilizar os militares para reprimir os maiores protestos raciais vistos no país desde os anos 1960.
Leia também: Papa condena morte de George Floyd e de todas as vítimas do racismo
Milhares de pessoas têm ido às ruas protestar desde 25 de maio, quando George Floyd, um cidadão negro de 46 anos, morreu quando era detido pela polícia em Minneapolis.
Os protestos foram em grande parte pacíficos, mas houve tumultos à noite, apesar do toque de recolher imposto em várias grandes cidades.
Outros líderes da Igreja Episcopal dos Estados Unidos denunciaram a visita de Trump como "um evento embaraçoso e moralmente repugnante".
"Simplesmente pelo fato de segurar uma bíblia fechada, ele acreditou que ganharia o apoio dos cristãos", disseram os bispos da Nova Inglaterra, uma região na costa leste dos Estados Unidos, em um comunicado.
O presidente dos EUA, Donald Trump, e a primeira-dama, Melania Trump, visitam o Santuário Nacional São João Paulo II em 2 de junho de 2020 em Washington, DC. Brendan Smialowski / AFP
Indignação católica
Na terça-feira, o magnata republicano, que busca a reeleição em novembro, visitou o santuário nacional S. João Paulo II, localizado na capital do país, onde se concentraram cerca de dois mil manifestantes, alguns dos quais empunhavam cartazes e rezavam o terço. A presença dele gerou desconforto entre os líderes católicos.
"Considero desconcertante e repreensível que qualquer instalação católica se permita ser tão flagrantemente usada e manipulada de uma maneira que viola os nossos princípios religiosos, que nos apelam a defender os direitos de todas as pessoas, mesmo aquelas com quem possamos discordar", disse o arcebispo de Washington, Wilton Gregory, em comunicado.
"O papa João Paulo II foi um fervoroso defensor dos direitos e dignidade dos seres humanos. O seu legado é testemunha vívida dessa verdade. Ele, certamente, não toleraria o uso de gás lacrimogêneo e outros meios para os silenciar, dispersar ou intimidar por uma oportunidade fotográfica diante de um local de culto e paz", acrescentou.
No domingo, o prelado tinha-se juntado ao coro de vozes que, dentro da Igreja, manifestaram revolta pela morte de George Floyd, sufocado por um agente da polícia em Minneapolis, no dia 25.
"São João Paulo II afirmou que o racismo é um pecado. E nós pensamos que o presidente está a promover políticas racistas. Estamos aqui para dizer 'Black lives matter'"
"Muitos de nós lembram-se de incidentes semelhantes na nossa história que acompanharam o Movimento dos Direitos Civis, nos quais vimos repetidamente na televisão e em fotografias de jornais negros americanos brutalizados pela polícia. Esses momentos históricos contribuíram para despertar a nossa consciência nacional para a experiência afro-americana nos Estados Unidos, e agora, em 2020, ainda continuamos a ver incidentes repetidos de brutalidade policial contra afro-americanos. Deparamo-nos novamente, neste momento nacional, com o despertar da nossa consciência através de fotos e vídeos desoladores que confirmam claramente que o racismo ainda persiste no nosso país", apontou.
O diretor executivo da Rede de Ação Franciscana, Stephen Schneck, também reprovou a visita de Donald Trump: "É absolutamente inapropriado o presidente dos Estados Unidos estar usando um espaço católico como o santuário para uma foto com vista à sua reeleição. Temos de insistir que a Igreja católica nos Estados Unidos deve manter distância de uma pessoa que não representa nada do que a nossa Igreja representa".
"São  João Paulo II afirmou que o racismo é um pecado. E nós pensamos que o presidente está promovendo políticas racistas. Estamos aqui para dizer 'Black lives matter' (vidas negras importam); estamos aqui para dizer que, a menos que as coisas mudem, vamos ser destruídos como país", frisou irmã Marie Lucey, que se juntou aos manifestantes reunidos diante do santuário visitado por Trump, evento planeado antes da morte de George Floyd.
A diretora-executiva da Network, lóbi católico ligado à justiça social, irmã Simone Campbell, declarou que Trump "está agora usando a fé católica noutra operação fotográfica para defender a sua recusa horrível de combater o racismo e a violência policial nos Estados Unidos. Ele está tentando criar uma falsa dicotomia entre manifestantes pacíficos e a Igreja. Isso não pode estar mais longe da verdade, e qualquer cristão que acredita nisso não entende a mensagem de Jesus".
O papa Francisco sublinhou nesta quarta-feira (3) que se une à oração "pelo repouso da alma de George Floyd e de todos os outros que perderam a vida por causa do pecado do racismo".
"Rezemos pelo conforto das famílias e dos amigos dilacerados, e rezemos pela reconciliação nacional e a paz a que aspiramos. Nossa Senhora de Guadalupe, Mãe da América, interceda por todos aqueles que trabalham pela paz e a justiça na vossa terra e no mundo", disse aos peregrinos de língua inglesa no final da audiência geral realizada no Vaticano.
O prefeito do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Integral, o cardeal ganês Peter Turkson, frisou, também esta quarta-feira, que "quando se verificam situações que vão radicalmente contra a dignidade humana, que se lhe opõem ou a matam, isso torna-se fonte de grande proecupação".
"É neste contexto que o presidente da Conferência Episcopal dos EUA, ao refletir sobre esta situação, afirma que as desordens nas cidades dos EUA refletem a justificada frustração de milhões de irmãos e irmãs que, ainda hoje, vivem a humilhação, a mortificação, a desigualdade de oportunidades só por causa da cor da sua pele", assinalou.
O responsável apoia a atitude do irmão de George Floyd, que defende o protesto civil não-violento, e recordou o legado de Martin Luther King, lembrando que é também necessário "o perdão": "Creio que esta é a maneira com a qual podemos enobrecer a memória de George Floyd".
Fonte: FP/ Dom Total/ Pastoral da Cultura

 


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