domingo, 26 de julho de 2020

A FÉ E A CRISE DE PERTENÇA

É a necessária dimensão comunitária/eclesial da fé: a fé nos vem pela Igreja (mediação) e nos faz ser Igreja (incorporação). (Franck Guiziou/Hemis/AFP)
A comunidade é indispensável como lugar da recepção e vivência da fé
Deus, em sua absoluta gratuidade amorosa, veio ao encontro do ser humano e se deu a conhecer a ele por meio do Filho Jesus Cristo e, agindo no Espírito, nos faz participar da sua vida divina (cf. Dei Verbum, n.2). A essa iniciativa gratuita de Deus damos o nome de revelação, evento pelo qual experimentamos e somos alcançados por esse amor divino. Quando falamos em conhecer a Deus, não se trata tanto de um sentido intelectual, mas da profunda experiência do seu amor por nós, ao nos criar, salvar e santificar. Assim, o objetivo da revelação é a nossa salvação, ou seja, nossa participação na vida divina (cf. DV 2). Foi por isso que Deus se revelou ao longo da história à humanidade, fazendo dessa história uma história de salvação. Sua pedagogia reveladora chega à plenitude através de Jesus Cristo, o qual é, ao mesmo tempo, mediador e plenitude da revelação (cf. DV 2): "Ninguém jamais viu a Deus; mas o Filho único, que está junto do Pai, o revelou a nós" (Jo 1,18). Por isso, se sabemos e experimentamos Deus como amor, misericórdia, Pai bondoso, é porque é assim que ele aparece plenamente na vida e missão de Jesus.
Reze conosco em Meu dia com Deus

A essa iniciativa divina de se revelar corresponde uma resposta do ser humano. Tal resposta se dá pela fé, que não é pura iniciativa humana, mas é possibilitada por Deus que nos deu seu Espírito que nos interpela no mais profundo do nosso ser para que reconheçamos sua revelação e a acolhamos. Assim, podemos dizer que a fé é o ato por meio do qual nós, na força do Espírito Santo, nos entregamos a Deus e acolhemos seu modo de ser e agir, tal como apareceu na vida de Jesus. O critério de verificação dessa entrega é a vida concreta de Jesus. O Espírito que age em nós, o faz tal como na vida de Jesus, para que nossa vida, palavras, gestos, comportamentos, enfim, todo o nosso ser com todas as suas dimensões, seja configurado e conformado ao modo de ser de Jesus Cristo. Portanto, ter fé em Deus é, em poucas palavras, ser, viver, falar, agir e amar como Jesus. Somos implicados em todas as dimensões da vida.

Leia também:

Essa dinâmica da fé pela qual recebemos e acolhemos o desígnio de Deus em Jesus Cristo nos chega através da comunidade de fé ?" Igreja ?" e nos incorpora nessa mesma comunidade. É a necessária dimensão comunitária/eclesial da fé: a fé nos vem pela Igreja (mediação) e nos faz ser Igreja (incorporação).

A revelação de Deus em Jesus Cristo é conservada e transmitida pela comunidade de fé. É a Igreja que, na força e no poder do Espírito, transmite aquilo que recebeu e é por meio de sua mediação que acolhemos a revelação de Deus manifestada em Jesus. Isso fica evidenciado no ritual batismal quando o candidato ao sacramento (ou seus pais e padrinhos, no caso de crianças) ao professar a fé ouve do presidente da celebração: "esta é a fé que da Igreja recebemos e sinceramente professamos...". E, antes de ser batizado, é interrogado: "queres ser batizado na fé da Igreja que acabamos de professar?". No batismo, portanto, recebemos a fé da Igreja e professamo-la, para sermos incorporados a ela, tornando-nos membros dessa comunidade, Povo de Deus, Corpo de Cristo, Templo do Espírito. A missão dessa comunidade é continuação da missão de Jesus, sendo sinal e instrumento do Reino no mundo (cf. Lumen Gentium, nn. 1, 5, 9, 48). Assim, a comunidade de fé ?" Igreja ?" é indispensável como lugar da recepção e vivência da fé. Nossa fé, nós a vivemos em comunidade e, como comunidade, buscamos a transformação do mundo pela força do Evangelho.

É fundamental a recordação dessa irrenunciável dimensão da fé, pois, na atualidade, vivemos uma verdadeira crise de pertença. A modernidade começou a valorizar a individualidade e a subjetividade, o que, em si, é importante pelo que afirma de valorização da insubstituível e irrenunciável dignidade da pessoa. Porém, o subjetivismo e individualismo que colocam o indivíduo como critério e medida de todas as coisas, fazendo com que a satisfação individual torne-se o único critério determinante (cf. DGAE 2019-2023, n.49), torna-se um verdadeiro problema ético e de fé. Uma de suas piores consequências é o relativismo ético prático: "quando o ser humano se coloca no centro, acaba por dar prioridade absoluta aos seus interesses contingentes, e tudo o mais se torna relativo. Juntamente com [...] a adoração do poder humano sem limites, se desenvolve nos indivíduos este relativismo no qual tudo o que não serve aos próprios interesses imediatos se torna irrelevante" (Laudato Si, n.122).

Tal relativismo leva à perda da eclesialidade da fé: o indivíduo pensa uma fé, uma religião e até mesmo Deus de modo intimista, como que à sua imagem e semelhança. Quando o indivíduo torna-se, em si mesmo, critério e medida absolutos, o que não corresponde a seus anseios mais imediatos torna-se irrelevante; assim, o Evangelho, fonte da experiência de Jesus e seus discípulos, é interpretado de modo fundamentalista, legitimando posturas que o próprio Jesus desabonou (cf. Lc 9,53-55), transformado em "pedras mortas para as jogar contra os outros" (Amoris Laetitia, n.49), fonte de posturas fanáticas agressivas e de destruição (cf. DGAE 2019-2023, n.55). Uma fé intimista não leva a preocupação com os outros e compromisso com eles, mas à própria satisfação pessoal.

Essa perda da dimensão eclesial da fé também tem sido experimentada por pessoas e grupos, líderes de pastorais sociais, CEBs e outros organismos. A perda de espaço em instâncias de articulação e liderança faz com que muitas delas passem também por um verdadeiro processo de des-eclesialização da fé em dois níveis: por um lado, prescindido da comunidade ou, por outro lado, até chegando a afirmar sua importância, mas sem vinculação real e efetiva a nenhuma comunidade concreta (cf. AQUINO JÚNIOR, Renovar toda a Igreja no Evangelho. Aparecida: Santuário, 2019. p. 120). "Isso é trágico para a própria vivência da fé, porque compromete um aspecto fundamental dela, que é constituir-nos como comunidade ('povo de Deus', 'corpo de Cristo', 'templo do Espírito') e porque, ao prescindir da comunidade real/concreta, acaba reduzindo a fé a uma questão individual e dissolvendo seu caráter de corpo e/ou de força social e, assim, comprometendo sua eficácia no mundo" (Idem, p.120-121).

Diante dos desafios da crise de pertença, aqui tão-somente sinalizados, é preciso lucidez, determinação e criatividade. É preciso abrir bem os olhos para perceber a urgência de tal situação, bem como é necessário determinação e criatividade para resgatar algo muito fundamental do início do cristianismo: a formação de pequenas comunidades em torno da Palavra, do Pão e da Caridade. As Diretrizes Gerais para a Ação Evangelizadora da Igreja (DGAE 2019-2023) tem o grande mérito de pensar a Igreja como comunidade e missão: assim, se valoriza pequenas comunidades que se reúnem por ruas, edifícios, povoados etc. para pensar o que a fé implica em compromisso com os outros e com a transformação da realidade. Tais comunidades têm uma grande força de fermento para o mundo e podem promover uma verdadeira evangelização: "[...] chegar a atingir e como que a modificar pela força do Evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio da salvação" (Evangelii Nuntiandi, n.19).

Presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte/CE. Mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) " Belo Horizonte/MG; professor e coordenador do Curso de Teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) ?"

Nenhum comentário:

Postar um comentário