quinta-feira, 23 de julho de 2020

BREQUE DOS APPS: QUE O RONCO DAS MOTOS DESPERTE O POVO DA APATIA

O cristianismo se inspira em uma luta de libertação de trabalhadores que se rebelaram contra seus exploradores no Egito

A iniciativa, chamada 'Breque dos Apps', convida todos os trabalhadores a entrar em greve e conta com o apoio da população, exigindo melhorias nas condições de trabalho e remuneração de entregadores de aplicativos (Marcello Zambrana/AGIF/AFP)

Élio Gasda*

As consequências da crise generalizada recaem diária e diretamente sobre os trabalhadores. Desde o início da pandemia cerca de 716.372 mil empresas brasileiras, pequenas ou médias, suspenderam suas atividades temporária ou definitivamente. 522,6 mil fecharam as portas de forma permanente (IBGE). A taxa de desocupação atingiu 13,1%. Mais da metade da população em idade ativa está desempregada. A maioria jovens. A pandemia tira o emprego dos mais pobres e enriquece os mais ricos.
Reze conosco em Meu dia com Deus

Em alguns setores, como o sistema bancário, a automação e inteligência artificial estão eliminando em massa os postos de trabalho. Os que perderam o emprego estão se virando como podem. O flagelo da informalidade superou a casa dos 40 milhões. Trabalhadores e trabalhadoras à margem da legislação trabalhista. Nenhuma proteção. O IBGE avalia que ao final de 2020 o desemprego atingirá 20%.

O "novo normal" do trabalho já está em curso. Seu personagem é o trabalhador uberizado, o motorista de aplicativo, o motoboy. Jovem, periférico, negro, precário, arrimo de família. Se o desemprego é expressão maior do desespero, a uberização se apresenta como alternativa menos cruel. Aliás, essa já era uma tendência anterior à pandemia. A crise acelerou a substituição das atividades humanas por plataformas automatizadas-digitais.

"Uberismo": As plataformas digitais (Amazon, Uber, Google, Facebook, 99, iFood, Glovo, Deliveroo, Rappi Uber, Uber Eats, 99, Cabify, Rappi, Ifood, etc.) são os novos nomes do capitalismo. Combinação perfeita entre alta tecnologia e servidão digital. O trabalho é um apêndice autômato de uma máquina digital. Ricos e executivos acumulam enormidades de dinheiro às custas de milhões que exercem trabalhos típicos dos tempos da servidão.

O desastre maior, além dos números, está na vida real. Este autêntico laboratório de experimentação de exploração do trabalho não cessa de incorporar os desamparados que buscam escapar do flagelo do desemprego, da fome e da humilhação. Os aplicativos foram sua única saída. Gente que não pode ficar em casa e pedir uma pizza. Ao contrário, são eles os entregadores da pizza. A condição de trabalho deles se agravou com a pandemia. Eles são os principais rostos desse "novo normal" do trabalho.

Já são mais de 5 milhões somente no Brasil! Geralmente, trabalham mais de 10 horas por dia para receber menos de 2 salários mínimos por mês. Se trata da remuneração bruta, ou seja, tratamento de saúde, alimentação, uniforme, gastos de combustível, manutenção e conserto dos veículos (motos, bicicletas e carros) são por conta dos entregadores. Os motoboys percorrem até 300 km por dia, recebendo em média, 50 centavos por quilômetro rodado. Muitos já se acidentaram no trânsito (Observatório da precarização do trabalho e da reestruturação produtiva).

A visão de que entregadores são empreendedores é uma grande mentira. Entregadores não são empreendedores. São trabalhadores precários superexplorados. Num momento de crise, a saída do capitalismo é o aumento da exploração do trabalho e a retirada dos mínimos direitos trabalhistas.

"A gente está pedindo o básico": recebimento de álcool em gel e máscaras, aumento do valor mínimo por quilômetro rodado, fim dos bloqueios feitos pelos aplicativos, acesso a banheiros, vales refeição, equipamentos de proteção individual, seguro contra roubo, acidente e de vida. Esse é o clamor do "Breque dos apps" que ecoará dia 25/07. Essa luta é uma resistência importantíssima. Nem tudo está perdido! Há esperança em meio a devastação bolsonarista.

Em 4 meses de pandemia, 80 mil mortos, milhões de desempregados e nenhum plano econômico. Seu único projeto é agradar a Trump, os generais, os banqueiros, ruralistas, especuladores, corporações internacionais, mídia pentecostal. Sabotado por Bolsonaro, o povo é vítima da incompetência absurda e da sua guerra contra os trabalhadores. Sua irresponsabilidade com o destino do país se expande como uma praga entre seus cúmplices. O crime organizado está no governo genocida.

"Não há verdade nele. O diabo é o pai da mentira" (Jo 8, 44). Bolsonaro sabe o que está fazendo e, mesmo sabendo, continua a fazê-lo. É consciente de suas motivações. O governo é iníquo e governa para uma elite mercenária. Gente da pior espécie, perversa e escravocrata, que não se importa com os trabalhadores, só em ganhar dinheiro. "Não existe demônio mais violento que o amor ao dinheiro" (São João Crisóstomo).

O cristianismo se inspira em uma luta de libertação de trabalhadores que se rebelaram contra seus exploradores no Egito. Deus viu a aflição do seu povo e escutou seu clamor (Ex 3,7). O mundo do trabalho é mundo do povo de Deus (Papa Francisco). De fato, "nós estamos em confronto direto do reinado de Deus com o reino da morte" (Dom Vicente Ferreira, bispo auxiliar de Belo Horizonte).

Que o Breque dos apps seja um protesto contra a apatia e ignorância que impera neste país. Que o ronco das motos não seja tímido como as batidas nas panelas, ao contrário, que faça muito barulho e acorde o povo da sua indiferença. Cabe aos cristãos contribuir com essa mobilização. No dia 25/07 entre nos aplicativos, mas não peça nada, dê notas baixas para as empresas e comente que a nota ruim é pela forma como eles tratam os entregadores.

Fonte: DomTotal

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de: 'Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja' (Paulinas, 2001); 'Cristianismo e economia' (Paulinas, 2016)

Nenhum comentário:

Postar um comentário