sexta-feira, 10 de julho de 2020

CHARLATANISMO RELIGIOSO: UM PECADO CONTRA DEUS


É muito comum se ouvir falar de campanhas com alguma vassoura ungida,

 óleo especial buscado em Israel, garrafas com um pouco de água do rio

 Jordão, dentre tantos outros apetrechos (Unsplash/ Christin Hume)

A graça de Deus, conforme anunciada por Jesus Cristo, em nada se coaduna com práticas de extorsão
O termo charlatanismo é definido pelo dicionário como a "exploração da credulidade pública, inculcando ou anunciando cura por meio secreto ou infalível". Consequentemente, a pessoa charlatã é aquela que faz uso desse tipo de artimanha junto ao povo. Juntamente com a prática comumente vem a questão financeira, uma vez que todas essas curas ou mesmo milagres não são de graça. Muito pelo contrário, é necessária a demonstração de fé ?" geralmente com dinheiro ?" daquele que busca essa dádiva das divindades.
Embora possa parecer algo recente, a ideia do charlatanismo já era presente no Antigo Testamento na figura dos adivinhos. Eles "revelavam" o futuro aos seus consulentes, mas recebiam pagamento em troca. Uma vez que na religião judaica não existia a categoria de futuro como algo pronto, mas somente como expectativa e consequência das escolhas do presente, toda tentativa de sua previsão era condenada por Javé. Nesse caso, por enganarem o povo, afirmando algo que não era verdade, os adivinhos deveriam ser mortos apedrejados para que o mal em Israel fosse extinto.
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Nos dias atuais, principalmente no meio neopentecostal, vê-se um movimento crescente de charlatões, que usam a fé das pessoas simples e de bom coração para enriquecimento próprio. É muito comum se ouvir falar de campanhas com alguma vassoura ungida, óleo especial buscado em Israel, garrafas com um pouco de água do rio Jordão, dentre tantos outros apetrechos. Estes são vendidos a fim de propiciar libertação, cura ou qualquer tipo de alívio para o sofrimento humano.
Esse tipo de discurso, uma espécie de "magia cristã", muitas vezes é referendada e institucionalizada por algumas igrejas. Apelando para forças sobrenaturais e divinas - tudo aliado a um forte apelo emocional que, na maioria das vezes, gera medo das forças das trevas - os ministros de tal prática fazem com que muita gente se sinta coagida a pagar por esses apetrechos, a fim de caírem nas graças de Deus e ter seus problemas resolvidos.
O charlatão, ao cometer um crime doloso para com a sociedade, peca contra Deus. Ele explora a fé dos pequeninos angariando lucro para si, vendendo falsas esperanças, tais como os adivinhos do Antigo Testamento. Dessa forma, todo e qualquer discurso que tenta oferecer a graça de Deus com alguma contrapartida deve ser visto com grande desconfiança e, mais ainda, denunciado às autoridades competentes.
A graça de Deus, conforme anunciada por Jesus Cristo, em nada se coaduna com práticas de extorsão. Muito pelo contrário, a absurda e incompreensível graça de Deus se mostra como terror para todo e qualquer charlatanismo, visto que não exige e não cobra absolutamente nada daquele que é alcançado por ela. Diante disso, é tarefa de uma teologia responsável denunciar toda e qualquer proposta charlatã que tenta negociar as bênçãos de Deus, ainda que seja transvestida de uma áurea de santidade e autoridade.
Deus, conforme anunciado por Jesus é aquele que faz vir sua chuva sobre bons e maus, que ama a todos indiscriminadamente, desejando que tenham vida em abundância sem exigir nada em troca. Em outras palavras, é um Deus de amor e, portanto, é gratuito e livre, de maneira que nada precisa ser pago para experimentá-lo.
*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), Doctor of Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), Bacharel em Filosofia e Licenciado em Matemática (UFMG) E-mail: fveliq@gmail.com. Site: www.fabricioveliq.com.br
Fonte:domtotal.com
 

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