sexta-feira, 17 de julho de 2020

QUE DEUS É DIGNO DE FÉ EM NOSSOS TEMPOS

Precisamos encontrar Deus 'até mesmo na cozinha, entre as caçarolas' (Santa Teresa) e aprender a tocar as 'chagas de Cristo na carne sofredora do outro' (Unsplash/ Kevin McCutcheon)
Cada época deve reinventar para si um projeto de espiritualidade

Nos momentos de crise e desespero, quase sempre procuramos nos apegar a experiências, ideias ou conceitos do passado que nos deem alguma segurança no tempo presente. Na espiritualidade não é muito diferente. Muitas vezes, temos a tentação de "copiar" modelos de espiritualidade de outros tempos, transpondo-os à nossa contemporaneidade. Porém, uma espiritualidade "plagiada" é como colocar remendo novo em roupa velha (cf. Mt 9, 16), além de não responder às perguntas mais profundas do homem de hoje, ainda proporciona muitas vezes uma "esquizofrenia espiritual", pois parece que a pessoa não se vê inteira na sua experiência de fé. "Há testemunhos que são úteis para nos estimular e motivar, mas não para procurarmos copiá-los, porque isso poderia até afastar-nos do caminho, único e específico, que o Senhor predispôs para nós. Importante é que cada crente discirna o seu próprio caminho e traga à luz o melhor de si mesmo, quanto Deus colocou nele de muito pessoal (cf. 1 Cor 12, 7), e não se esgote procurando imitar algo que não foi pensado para ele. Pois a vida divina comunica-se a uns duma maneira e a outros doutra" (Papa Francisco, GE, n. 11).
Reze conosco em Meu dia com Deus

Susan Sontag, em seu ensaio intitulado A estética do silêncio, afirma que "cada época deve reinventar para si um projeto de espiritualidade", ou seja, a cada época somos desafiados a encontrar uma nova gramática sapiencial que seja capaz de responder às perguntas mais profundas do existir humano. Isso não significa perder a memória da fé ou cortar o fio da Tradição que nos liga à experiência do povo de Deus ao logo da história, mas de encontrar uma nova hermenêutica, uma nova linguagem, capaz de anunciar um Deus que seja digno de fé em nossos tempos.

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O ensaísta e poeta português, José Tolentino Mendonça, em sua obra A mística do instante, fala de uma espiritualidade do tempo presente que esteja integrada com todo o nosso ser. Uma espiritualidade que passa pelos sentidos, que redescubra o corpo como a língua materna de Deus, pois "há mais espiritualidade no nosso corpo que na nossa melhor teologia", afirma. Reconciliar, pois, a espiritualidade com os nossos sentidos não é algo estranho à experiência cristã que confessa a fé num Deus criador que sopra seu "hálito vital" sobre o ser humano e, ainda mais, num Deus que se encarna, assumindo a nossa condição humana, fazendo da "carne o eixo da salvação" (Tertuliano).

Essa espiritualidade em paz com os sentidos, que escuta a linguagem do corpo, que toca a nossa condição humana, é uma espiritualidade reconciliada com o tempo. E quando nos entregamos ao ritmo do tempo, descobrimos "que para amar a Deus sobre a terra, não temos nada além do hoje" (Santa Teresa de Lisieux). Por isso, não sentimos o tempo como um tirano, ao qual devemos servir como escravos, mas uma dádiva, ao nosso serviço. "A mística do instante nos reenvia, assim, para o interior de uma existência autêntica, ensinando a tornarmo-nos realmente presentes: a ver em cada fragmento o infinito, a ouvir o mergulhar da eternidade em cada som, a tocar o impalpável com os gestos mais simples, a saborear o esplêndido banquete daquilo que é ligeiro e escasso, a inebriar-nos com o odor da flor sempre nova do instante" (MENDONÇA, 2016, p. 36).

Outro aspecto importante dessa espiritualidade integradora é passarmos de uma religiosidade natural que nos remete para o divino através da necessidade, para uma espiritualidade que aceita a vulnerabilidade de Deus, uma espiritualidade pautada numa relação de gratuidade com Deus. "A religiosidade natural do homem remete-o para o divino através da necessidade: o homem precisa de um Deus que lhe seja útil, que tenha poder no mundo que lhe proteja. Rapidamente, Deus, torna-se um ídolo, que serve para garantir-nos um funcionamento favorável do grande sistema do mundo" (José Tolentino Mendonça). Há, pois, que se descobrir o rosto do Deus bíblico que se humilha para estar junto com o contrito e o humilde (cf. Is 57,15), um Deus inútil, um Deus revelado no extremo do abandono e da fragilidade do seu Messias.

Quiçá, o grande desafio da espiritualidade hoje seja experimentar e anunciar esse Deus "inútil". Este Deus que não se impõe pela força e poder privando o ser humano da sua liberdade e responsabilidade em optar-se por Deus; nem tampouco se resume numa simples proposição, a partir da qual o ser humano, pela sua inteligência e vontade, responde positivamente a este chamado, mas um Deus exposto, gratuito, que ama desesperadamente.

Assim sendo, a experiência mais profunda de uma espiritualidade do tempo presente não se resume na heteronomia de Deus que se impõe a partir de uma lei externa a nós, nem tampouco numa autonomia na qual Deus se propõe e nós respondemos racionalmente em nossa liberdade, inteligência e vontade. Mas na alteronomia de um Deus que se expõe na desmesura do amor, que se deixa afetar pelo rosto humano, um Deus kenótico (cf. Ex 3,7-8; Fl 2, 1-11).

Quando contemplamos a cena da crucifixão de Jesus, percebemos essa extrema fragilidade de um Deus que é "incapaz" de salvar-se a si mesmo. Os que assistiam a crucifixão de Jesus zombavam dele dizendo: "A outros ele salvou, a si mesmo não pode salvar! É Rei de Israel: desça agora da cruz, e acreditaremos nele. Confiou em Deus; que o livre agora, se é que o ama!" (Mt 27,42-43), é que eles não compreendiam que ser Messias é dar a vida pelo outros. Neste sentido, a cruz de Cristo e os crucificados da história que "completam o que faltou no sofrimento de Cristo" (Cl 1,24) são o fundamento último dessa espiritualidade da gratuidade, da "inutilidade", a qual aceita o silêncio, as surpresas e até a ausência de Deus.

Noutras palavras, uma autêntica espiritualidade para o nosso tempo não pode ser "analfabeta sensorial" nem tampouco manter-se longe das angústias e do sofrimento dos homens e mulheres. Pelo contrário, precisamos encontrar Deus "até mesmo na cozinha, entre as caçarolas" (Santa Teresa) e aprender a tocar as "chagas de Cristo na carne sofredora do outro". Do contrário, a nossa fé será vazia de sentido e a palavra ?Deus? tornar-se-á um ídolo sem nenhuma eficácia em nossa existência.

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Pe. Rodrigo Ferreira da Costa, SDN é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, com especialização em formação para Seminários e Casa de Formação. Atualmente é pároco da Paróquia de Santa Luzia ?" Arquidiocese de Teresina-Piauí.

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