segunda-feira, 27 de julho de 2020

SER CRISTÃO: QUE DIFERENÇA ISTO FAZ?

Será que não nos perdemos de nossa verdadeira identidade? (Unsplash/Francesco Alberti)
A boa cidadania era desdobramento ético do seguimento a Jesus Cristo
O cristianismo nasceu marginal. Os seguidores do Nazareno se distinguiam pelo comportamento, inspirados por aquilo que Jesus lhes havia ensinado. Nos primeiros séculos de nossa era, quando os cristãos começaram a se espalhar, de forma marginal, pelo Império Romano, um dos motivos para serem perseguidos era a acusação de ateísmo. Sim, cristãos eram considerados ateus, por não participarem da religião imperial. Isso mostra como o cristianismo, apesar dos ritos, sobretudo o da partilha do pão, não tinha a pretensão de ser uma religião, mas, bem mais que isso, um estilo de vida.

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Textos antigos mostram que os cristãos tinham um diferencial no modo como exerciam a cidadania: além das práticas que haviam aprendido com Jesus, um comportamento ilibado era essencial, quando cristãos e cristãs eram pessoas visadas na sociedade. Textos do Novo Testamento, inclusive, inspiram a boa cidadania de cristãos e cristãs: apesar de não serem do mundo, é esse mundo que precisam iluminar e temperar, com o seu bom testemunho. A fé, nesse cenário, era compreendida como um compromisso nascido de um encontro transformador com Jesus Cristo: era adesão a um modo de vida que correspondia à inserção na vida filial do Filho de Deus.

Ao passo em que o cristianismo foi saindo da marginalidade, com a autorização por parte de Constantino; e, depois, quando se torna a religião oficial do Império, com Teodósio, ser cristão já não era mais uma decisão nascida de um encontro de fé, na grande maioria dos casos, mas questão de cidadania. Aqui, uma inversão: antes, cristãos eram bons cidadãos por testemunho de fé; agora, cidadãos se tornam cristãos, para não perder o direito à cidadania. A Igreja, nesse contexto, foi cada vez mais se institucionalizando e ganhando contornos de religião. Do período medieval, não é preciso discorrer.

Com a modernidade, e o consequente processo de secularização, a suspeita sobre as instituições, entre as quais as religiosas, vai ganhando proporção na sociedade. O cristianismo, por sua vez, não conseguiu responder a esse novo cenário, porque não soube ler tais mudanças. O Concílio Vaticano II foi uma iniciativa que abriu a Igreja ao diálogo com o mundo moderno; mas, apesar de importante e fundamental, essa iniciativa já veio com atraso, porque as transformações na sociedade vão ocorrendo de forma cada vez mais rápida. E as proposições do Concílio ainda estão longe de serem efetivadas!

As transformações sociais influenciam, de modo profundo, a vivência da fé. Se, pois, uma crise de pertença religiosa já se fazia ver, no seio do cristianismo, a insuficiência de uma catequese que significasse verdadeira educação da fé fez com que essa crise se aprofundasse, de modo que podemos questionar a identidade e a singularidade cristã, no mundo atual. A Igreja, sempre tão rigorosa na pauta moral, vê-se, com muita frequência, exposta em meio a incoerências de seus membros, que geram escândalos que agora já não são tão possíveis de serem escondidos por debaixo do tapete. Quando se fala em "Igreja", aliás, o que geralmente se pensa, de imediato: não é nos clérigos que a representam, como se os batizados e batizadas não formassem parte desse corpo?

Aquela suspeita vinda com a modernidade, cada vez mais se intensifica. Não é incomum que nos meios mais reflexivos e intelectualmente abertos, cristãos sejam sempre vistos com desconfiança. Não é sem razão: basta que vejamos as pessoas "terrivelmente evangélicas" que compõem o atual governo, por exemplo. Qual mensagem, nós, cristãos e cristãs, estamos passando ao mundo contemporâneo? Será que não nos perdemos de nossa verdadeira identidade? É urgente que façamos uma guinada nesse cenário: ser cristão, ser cristã, deve, sim, fazer alguma diferença: e, certamente, essa diferença deve ser para melhor!

Domtotal

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com

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