sábado, 29 de agosto de 2020

A BÍBLIA E UM PARADIGMA DA IGUALDADE DE GÊNEROS

O primeiro ser humano não pode ser identificado como um homem com o nome de Adão e deve ser escrito com letra minúscula, adam (Karen Maes/ Unsplash)A humanidade plena está na igualdade das relações e não no domínio masculino
Práticas sociais e culturais transformadas em tradição religiosa tendem a naturalizar certas interpretações do texto bíblico. É importante desconstruir tais exegeses e fundar uma leitura que se ponha a escutar textos tão paradigmáticos, a exemplo de Gênesis 2, cujo sentido último pode nos fazer pensar o futuro como chave de esperança.
Num olhar atento sobre o texto de Gênesis 2,7 apreendem-se detalhes imprescindíveis e bastante ignorados e ofuscados: "Então Deus formou adam da adamah". Normalmente, as Bíblias não traduzem o termo adam, mas apenas fazem uma transliteração levando a compreender que adam é o nome de um homem, Adão: "E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra" (Gn 2,7). Enquanto o termo adamah é traduzido por terra ou barro. Esse percurso complexo de transpor o texto da língua original para outra língua se faz num processo que já se põe a interpretar, causando inúmeros quiproquós.
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A despeito da releitura convencional entender em adam o nome de um homem, Adão, a melhor tradução para o termo seria "humano" ou "ser humano". E adamah melhor se traduz por "o solo bom para trabalhar, a terra que pode produzir bom fruto". Dessa forma, percebe-se que o texto afirma que o ser humano é oriundo do húmus, da terra. Com essa afirmação de Gênesis 2, 7, o autor quer dizer que o primeiro ser humano não pode ser identificado como um homem com o nome de Adão e deve ser escrito com letra minúscula, adam.
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Outro texto, da mesma maneira curioso quanto à origem da mulher e do homem, está em Gênesis 2,22 que afirma: "E da tsela de adam, Deus fez a fêmea". Em nossas Bíblias, geralmente se traduz tsela por costela. Porém, tsela significa literalmente metade, banda, cada margem de um rio. Portanto, a melhor tradução do texto em questão seria: "de uma das metades de adam (humano), Deus fez a fêmea". O que com obviedade infere-se que da outra metade Deus fez o macho. Bem lido, o texto sugere que a mulher aparece antes do varão, ambos a partir do adam (genérico) anterior.
No encontro, as duas metades se tornam adam, o ser humano original: "Portanto, o macho deixará seu pai e sua mãe, e se unirá à fêmea, e serão uma só existência" (Gn 2,24). No esplendor da criação o ser humano completo, a existência plena, não pode ser definida a partir do macho ou da fêmea, mas da beleza e da união de ambos.
O ser humano completo não se encontra no gênero masculino, mas na união das duas partes. Ou seja, a humanidade plena está na igualdade das relações e não no domínio masculino. Não há machismo algum no relato que Deus diz que fez a mulher da metade de adam. Mais do que se tem vislumbrado, a narrativa da criação do homem e da mulher é muito subversiva quando bem traduzida.
A partir disso, fica clarividente que a afirmação de que a mulher foi formada da costela de Adão pode ser feita se, contudo, houver a compreensão de que esse Adão (adam) é o ser humano original e a costela (tsela) é a metade dele. Percebendo o óbvio de que o homem também foi feito da outra metade.
Há, ainda, presente de forma latente, uma resistência de beleza ímpar, quando a inspiração paradigmática do começo é vilipendiada pela violência que o sistema patriarcal, subsidiado pela religião, impõe, ao legitimar o domínio e a supremacia do gênero masculino sobre o feminino. 
No período pós-exílico ocorre, especialmente, a implantação de um modelo moralista, legalista pelo poder sacerdotal que assume o governo em Jerusalém sob o domínio Persa. Mas, nesse momento em que especial atenção é dada à Lei da pureza, e nisso tudo o mais atingido era o corpo da mulher, surge, como um grito de resistência à desigualdade entre os gêneros oprimindo a mulher simplesmente pelo fato de ser mulher, o Cântico dos Cânticos.
O sentido do Cântico, portanto, deve ser avaliado e apreendido nesse contexto. Sua ênfase na beleza e grandeza do corpo liberta as pessoas das cruéis exigências da Lei da pureza. A importância que o livro atribui à mulher "a maioria dos poemas são colocados na boca da mulher; é ela quem toma a iniciativa para o amor" é um grito de libertação do sexo feminino ferozmente subjugado nesse contexto. É um grito de resistência por excelência que sai da boca de uma mulher amante, de uma mulher amada. 
O Cântico dos Cânticos irrompe, sem titubeios, expondo toda sua resistência ao moralismo e legalismo religioso de sua época bem como ao patriarcado que subjuga a mulher. A amada mostra-se ousada convidando seu amado ao amor em erotismo efervescente. A mulher, portanto, contra uma cultura machista e a opressão religiosa, outorga-se legitimamente na iniciativa para o encontro amoroso em nada pudico e totalmente despido de recato: "Que me beije com beijos de sua boca!/ Teus amores são melhores do que o vinho,/ o odor de teus perfumes é suave,/ teu nome é como óleo se espalhando,/ e as donzelas se enamoram de ti.../ Arrasta-me contigo,/ corramos!/ Leva-me, ó rei, aos teus aposentos/ e exultemos!/ Alegremo-nos em ti!/ Mais que o vinho,/ lembraremos teus amores!/ Com razão se enamoram de ti..." (1:2-4).
O desejo latente se escancara com toda passionalidade na iniciativa da amada por meio de um convite nada encabulado para que seu amado corra juntamente com ela ao lugar íntimo. "Corramos depressa para um lugar retirado e íntimo, um aposento!". Esse é o convite da amada, que não se mostra aprisionada em um lugar de inferioridade ao homem imposto socialmente, nem mesmo pela implementação de um moralismo machista regado à ideologia religiosa. Para essa amada, que subverte a ordem, o paradigma de igualdade do início é inspiração para além da desigualdade imposta pelo patriarcalismo.
Em Jesus, encarnação plena da Palavra, a masculinidade manifesta compaixão e ternura. Ele chora publicamente, opta por curar leprosos, uma mulher que sofria de hemorragia, crianças vulneráveis e nunca manifesta uma dimensão machista hierárquica. Tudo isso é uma riqueza a ser recuperada. 
Em nossos contextos, quaisquer doutrinas cristãs interpretadas no sentido de desculpar a desigualdade entre os gêneros que gera violência e subjuga, devem ser expurgadas. Resistir é proclamar que o patriarcado, que exige a subserviência e diminuição do sexo feminino, é totalmente contrária à lei do amor, ao paradigma da tradição da fé cristã, às palavras e ações de Jesus que extravasa sua compaixão e intuição profética sobre o que era e continuaria a ser a trágica situação das mulheres através dos tempos: subjugação e violência legitimada tanto pela civilização quanto pela religião.
Um traço coerentemente forte do ministério de Jesus de Nazaré foi a compaixão, sensibilidade para com o sofrimento das mulheres e julgamento sobre os sistemas que o mantinham. Há, portanto, motivos suficientes para se acreditar que a descriminação e desigualdade entre homens, mulheres, entre as pessoas, em nome da religião não é a última palavra: deve-se extrair da tradição recursos para a cura e transformação.
*Flávia Gomes é especialista em teologia bíblica, mestre em ciências da religião e graduada em filosofia
Fonte:domtotal.com


 

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