sexta-feira, 14 de agosto de 2020

A VIDA DE PEDRO CASALDÁLIGA FOI IDENTIFICAÇÃO COM O EVANGELHO

O catalão dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, faleceu no dia 8 de agosto de 2020 (Wilson Dias/Agência Brasil)

Dom Pedro viveu com e para os pobres, testemunhando o Cristo sofredor

Dom Pedro Casaldáliga é uma semente. Seu corpo na terra consuma uma trajetória de coerência evangélica, mas sua memória cresce na terra do coração daqueles a quem encontrou, produzindo os frutos do Reino de Deus. Foi pobre com e para os pobres, mas de uma vida rica de sentido.

Sua identificação com os sofredores deste mundo lhe garantiu inimigos – não que ele tivesse ódio ou rancor de alguém, mas outros nutriam tais sentimentos por ele. É que sua defesa das pessoas, contra as injustiças que sofriam, incomodavam quem, em nome do dinheiro, ignorava o valor das gentes.

Talvez tenha sido isso o que aconteceu, Pedro encontrou aquilo que São Lourenço denominou "o tesouro da Igreja", isto é, os pobres. Neles encontrou o Cristo sofredor, kenótico, e trocou tudo por essa riqueza. "O Reino de Deus é como um tesouro escondido", diz o Evangelho. Assim, quem o olhasse poderia pensar que, em sua entrega, perdera tudo; mas, por perder sua vida pelo Reino, ganhou-a, como diz Jesus.

É uma lógica que os adoradores de Mamon, o dinheiro, não podem compreender. Entretanto, o testemunho de vida de Pedro, todo confiado em Deus, servia-lhes de espelho, atestando que, embora alguns honrassem Deus com os lábios, seus corações dele distavam. Por isso o odiavam, por isso o temiam.

Contudo, não eram só os donos do capital, que exploravam o povo e feriam a terra, que não o compreendiam e não o aceitavam. A ganância é apenas uma das faces de quem tem sede de poder. Assim, sua identificação com a vida de Nazaré não foi acolhida em muitos setores da Igreja. "Bispo comunista" era adjetivo que pretendia invalidar sua vida e obra, como se a opção preferencial pelos pobres fosse traição da Fé. Antes, sua fé era viva porque repleta de obras. Evangelho sem compromisso não é cristão, mas simples espiritualismo.

Não tinha mitra, báculo ou qualquer insígnia que remontasse a realeza medieval ou algum resquício de culto pagão. Os símbolos externos, em seu caso, não ajudavam a expressar o alter Christi do qual ele se revestia ou a "plenitude do sacerdócio" – que é antes de tudo serviço – conferido pela ordenação episcopal. Desprovido de ouro, trazia consigo apenas um anel de tucum, sinal de sua gente e da terra que escolheu como lar.

Como se conhece a árvore pelos frutos, o Especial de hoje traz relatos de quem o conheceu. O testemunho de terceiros que atestam a verdade dessa vida singular, marcada pela entrega ao Senhor. Ana d'Angelo ecreve Ouvir as gentes; Marco Piva, Um homem chamado amor; Patrus Ananias, Caminhando com dom Pedro Casaldáliga. Na próxima semana aprofundaremos sobre a vida, obra e teologia do pastor de São Felix do Araguaia.

Domtotal

*Gilmar Pereira é mestre em Comunicação e Semiótica, graduado em Filosofia e Teologia, possui estudos em Fotografia e cursa Psicanálise. É professor, mestre de cerimônias e responsável pela editoria de religião do portal Dom Total

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