segunda-feira, 10 de agosto de 2020

FRANCISCO E UMA OPÇÃO FUNDAMENTAL: A FIDELIDADE AO CONCÍLIO VATICANO II

Defender e valorizar o atual Missal não é apenas preferir um tipo de celebração, é compreender que Igreja queremos ser (Unsplash/Mateus Campos Felipe)
A reforma litúrgica foi um verdadeiro tesouro do concílio
No começo de suas catequeses sobre a liturgia e a missa, o papa Francisco parte de uma concepção fundamental, que não pode nos passar despercebida: a referência ao Concílio Vaticano II e à reforma litúrgica, proposta por esse mesmo concílio. Essa é uma consideração importante, porque faz um aceno fundamental: sabemos que o papa, tal como suas atitudes e falas demonstram, é um signatário fiel do Concílio. Isso é, longe de dúvidas, um alento para aqueles e aquelas que acompanharam mais de perto, e de forma crítica, os dois últimos papados. Não queremos, com isso, colocar os três papas em contraposição, ou em uma espécie de disputa, mas essa é uma constatação importante. A maneira de interpretar o derradeiro Concílio é diversa, se considerarmos os três.

Os movimentos ultraconservadores e reacionários, na Igreja, avançam cada vez mais. E não se trata, apenas, de um grupo de clérigos. O ultraconservadorismo reacionário chegou de cheio entre os leigos, o que é deveras preocupante, porque ainda mais perigoso. Não muito longe de nós, vemos grupos organizados de leigos que se articulam para perseguir vozes dissonantes ao ultraconservadorismo. Atuam com violência inclusive em centros acadêmicos – que são, por excelência, lugares de livre pensar – para buscar impor sua agenda de pensamento. Quando o papa (que muitos não reconhecem como legítimo, vale destacar!) retoma o espírito do Concílio, ele faz um aceno importante dos rumos que ele enxerga para a Igreja que ele preside na caridade.

O papa Bento XVI havia feito um aceno trágico aos ultraconservadores quando readmitiu a possibilidade de voltarem com o rito tridentino. Por mais que muitos que se acreditam moderados tentassem justificar a posição de Bento, essa foi uma decisão ruim, do ponto de vista eclesiológico. Significou um verdadeiro golpe na reforma litúrgica do Concílio Vaticano II. Sobre isso, muitos teólogos e teólogas já se debruçaram com vigor, tal como o italiano Andrea Grillo, liturgista importante da nossa contemporaneidade. Enfraquecer a reforma litúrgica proposta pelo último concílio é enfraquecer a eclesiologia de comunhão, afinal, a liturgia é máxima expressão do ser Igreja!

Pautar suas catequeses, retomando expressamente o concílio e a reforma litúrgica, e, mais importante, interpretando-o de forma fiel ao seu espírito, é um caminho sinalizador de como Francisco compreende a Igreja. Por mais que os ultraconservadores alardeiem que o Concílio Vaticano II destruiu a Igreja e acabou com a Tradição, o que ele propõe é justamente o contrário: voltando às fontes da fé, viver a Tradição de forma genuína e aberta às interpelações do tempo, tal como deve ser. 

A reforma litúrgica foi um verdadeiro tesouro. Ainda há muito o que precisamos fazer, para efetivá-la mais concretamente, trazendo toda a qualidade que ela propõe para a vida celebrativa da Igreja. Ter o papa Francisco como aliado nesse caminho é deveras importante. Sua sobriedade é inspiradora de novas práticas pastorais que contribuam para a efetivação do Concílio Vaticano II. Defender e valorizar o atual Missal não é apenas preferir um tipo de celebração, é compreender que Igreja queremos ser: de comunhão, participativa e ancorada na Palavra de Deus, que é o próprio Cristo que se doa em alimento, para que nos configuremos a ele. Façamos também nós, pois, uma opção fundamental!

Domtotal

Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com

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