sexta-feira, 7 de agosto de 2020

PADRES PARA NOSSO TEMPO: O QUE PENSAR?

O exercício presbiteral não se restringe à administração dos sacramentos e, ainda menos, na administração jurídica da paróquia (Unsplash/Gift Habeshaw)

O modelo do presbiterato é Cristo Bom Pastor, não uma figura sacerdotal romantizada
Há quem tenha quase que uma verdadeira devoção (do ponto de vista psicanalítico, bem mais que isso) por padres: pela figura e pelo que se pensa que eles representam. Há, também, quem tenha completa aversão por tudo aquilo que é clerical. O que não se pode negar é que o catolicismo atual não se compreende sem esse personagem na sua trama religiosa. O Concílio Vaticano II buscou resgatar uma eclesiologia de comunhão, na qual a hierarquia reocupasse o lugar que a ela cabe na eclesialidade: a do serviço ao povo de Deus. O atual Código de Direito Canônico, posterior ao derradeiro Concílio, reforça um modelo de Igreja na qual a hierarquia está bastante ligada ao poder. Párocos são, nessa perspectiva, quase que senhores feudais, segundo legisla o Direito Canônico.
O catolicismo atual, com vistas às perspectivas de futuro, precisa pensar, com responsabilidade e abertura, o ministério presbiteral na vida da Igreja. É preciso não romantizar o ministério ordenado. Falar em vocação na vida da Igreja é um desafio, pois não se trata de uma eleição, tal qual nos moldes bíblicos o povo de Israel se compreendia (e compreende). A apropriação da compreensão de "que tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque" (Sl 110,4), aplicando-a ao ministério ordenado, é uma desonestidade intelectual e bíblica sem tamanho; sem contar a ideologia que isso abarca. Pode-se, sim, compreender a vocação como um chamado de Deus, mas isso precisa ser bem compreendido. A vocação, antes de mais nada, é um clamor interno ao qual a pessoa precisa discernir.
No repensar do ministério ordenado, é urgente que avancemos na compreensão de que o exercício presbiteral não se restringe à administração dos sacramentos e, ainda menos, na administração jurídica da paróquia. Nos nossos tempos, a legitimidade do exercício do ministério presbiteral depende do engajamento testemunhal de uma vida disponibilizada ao serviço do Evangelho. Isso significa que o ministério ordenado deve se espelhar no Cristo Servo Sofredor, tal qual nos apresentam os evangelhos. Se orgulham-se de serem chamados de pastores que, de fato, os presbíteros se deixem conformar e configurar ao paradigma do Bom e Belo Pastor: aquele que realmente dá à vida por suas ovelhas, cuidando do rebanho "não por coação, mas de coração generoso; não por torpe ganância, mas livremente; não como dominadores da herança a [eles] confiada, mas antes, como modelos do rebanho" (1Pd 5,2-3).
Na semana em que se comemorou o dia do padre, nosso Dom Especial reflete sobre o exercício ministerial ao qual os presbíteros são chamados, em nossos tempos. No primeiro artigo, Ezequiel, de sacerdote a profeta, Solange do Carmo recorre a esta importante figura veterotestamentária, para refletir sobre a importância de uma atenção e sensibilidade por meio dos presbíteros, para bem compreenderem seu papel, na atualidade. Reuberson Ferreira, no segundo artigo, Que padres para nossos tempos?, reflete sobre a importância de se pensar a figura do presbítero segundo as exigências próprias do tempo, ao passo que provoca a atualidade do ministério, segundo três perspectivas que precisam se entrelaçar: o ético, o acadêmico e o místico. Por fim, encerra nossa reflexão, César Thiago Alves, no artigo Vale a pena ser padre em nosso tempo?, no qual busca o caminho de resposta à pergunta levantada, refletindo a partir de fundamentais aspectos, urgentes em nosso tempo.
Boa leitura!
*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com

Fonte:domtotal 


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