sexta-feira, 21 de agosto de 2020

PEDRO: PASTOR, PROFETA, POETA DO REINO, A TERRA SEM MALES

No lugar do báculo, que expressa o pastoreio do bispo sobre o povo, Pedro escolheu o remo, sinal de quem atravessa os rios e lagos no mesmo barco e rema junto como os pobres (Unsplash/Jordan Bauer)
Pedro fez dos brasis que encontrou nas margens do Brasil a sua realidade, a sua terra, o seu país
(Escrito ao som do álbum Missa dos quilombos, de Miltons Nascimento, Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra)

Pedro morreu, me contaram, eu não acreditei de pronto, embora soubesse que esta hora chegaria logo, devido ao estado de sua saúde. Pedro morreu com as/os cem mil brasileiras e brasileiros ceifados nesta pandemia, os que morreram não pelo vírus, mas pelo descaso. Pedro até em sua morte é solidário ao povo que assumiu como seu desde que aqui chegou.

Reze conosco em Meu dia com Deus

Pedro fez dos brasis que encontrou nas margens do Brasil a sua realidade, a sua terra, o seu país. E ao acolher o dom de ser pastor da jovem Prelazia de São Félix do Araguaia, por santa e providencial influência de dom Tomás Balduíno, Pedro faz a Igreja renascer em sua forma mais primitiva de organização: a de comunidade de comunidades, encarnando a radicalidade evangélica na Amazônia Legal, no Brasil da ditadura civil-militar.

Leia também:

Não foram anos fáceis, mas lá estava Pedro, este intrépido homem, de pequena estatura, gigante em espírito, incomensurável em identificação com a paixão sofrida pelo povo, em especial os perseguidos e violentados pelas políticas de morte que histórica e sistematicamente foram implantadas e vigoram em nosso país.

"As distâncias... Eu sou eu e as minhas distâncias. Não somente distâncias geográficas, mas também culturais, pastorais... A que distância estão minhas palavras de suas almas simples, elementares, endurecidas pelo sofrimento e o abandono? Gente de carga, trazida pelas ondas da pobreza, da solidão, do crime, próprio ou alheio... (do crime coletivo da injustiça social!...) Gente simples, gente que carrega a cruz... Estes são, apesar de tudo o que possa dizer contra eles, os pobres do Evangelho".

A terra vermelha do Araguaia não marcava somente a sua pele, mas deixava cada vez mais marcas indeléveis em seu espírito. E o sangue que ele viu vertido na terra, pelos tantos trabalhadores mortos, tingia-lhe e lhe tangia os sentidos, sempre apurados para perceber e sentir ao próximo, com os irmãos e irmãs, seu rebanho.

E foi na forja da luta que o sempre mais brasileiro Pedro se transformou, porque encontrou no Araguaia não só uma porção de terra e de gente esquecida, ali estavam os pobres do Evangelho, os preferidos de Deus. E foi ali, com aquela gente, que, literalmente, ele armou sua rede e se deixou ficar, vivendo com coragem o lema episcopal que escolheu para si, "humanizar a humanidade", que se expressava em cinco atitudes fundamentais: "nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar", ao modo do que pedia Jesus aos seus discípulos (cf. Mt 10,9-10; Mc 6,7-9; Lc 9,3).

Para sua ordenação episcopal em 1971 o convite trazia o seguinte texto: "Tua mitra será um chapéu de palha sertanejo; o sol e o luar; a chuva e o sereno; o olhar dos pobres com quem caminhas e o olhar glorioso de Cristo, o Senhor. Teu báculo será a verdade do Evangelho e a confiança do teu povo em ti. Teu anel será a fidelidade à Nova Aliança do Deus Libertador e ao povo desta terra. Não terás outro escudo senão a força da Esperança e a Liberdade dos filhos de Deus, nem usarás outra luva que o serviço do Amor".

Esse texto era um projeto de vida pastoral, a expressão mais poética de um coração deveras apaixonado pelo Evangelho abraçado na defesa dos pequenos. Palavras que afluem de um coração de poeta.

Poeta, título que Pedro sempre acolheu como seu. Não tinha receio de se deixar chamar de poeta, até o preferia ao chamado de dom. O poeta Pedro nasce com o contato com a realidade e a necessidade de ler a Palavra na vida do povo. A poesia estava entranhada em nele, porque vinha de uma fonte outra, a espiritualidade. Era ela o veio principal que o alimentava e assim se transformava, em sua caneta, em versos e poemas, canções que foram espalhadas pelos quatro cantos do mundo.

A poesia de Pedro não era uma estilística, era, antes de tudo, um modo de destilar seu profundo relacionamento com Deus e manifestar a paixão que sentia arder em si do zelo pelo seu povo. A poesia de Pedro não era uma necessidade literária, mas um brotamento da realidade evangélica, que fazia dele um olho d?água, água fresca sempre jorrando. As águas do Araguaia lhe brotavam desde dentro. À medida que se aprofundava na vida do povo, do seu povo, mais poéticas suas palavras se tornavam, porque cantavam os motivos da libertação. 

A práxis da libertação é um compromisso com a realidade em toda a sua complexidade, o que não significa ter quer dizer com dureza os motivos das lutas. E era isto o que Pedro fazia ao escrever, porque estavam ali expressas as denúncias de todas as marcas violentas que o poder fazia questão de marcar nas costas do povo, mas sem nunca deixar de anunciar a esperança da libertação, o anúncio permanente da chegada do Reino, a terra sem males.

Pedro, o homem que escolheu um remo como báculo, um chapéu de palha como mitra, o anel de tucum como insígnia episcopal, que não possuía palácio nem motorista particular e que fez de sua casa de portas abertas a catedral mais sagrada e acolhedora do mundo, porque tinha como altar o próprio povo. 

É difícil escrever sobre Pedro e não se emocionar. Eu mesmo interrompi muitas vezes a escrita para chorar. Não qualquer choro, mas um choro de esperança. Não há quem tenha tomado conhecimento de Pedro e seus escritos e poemas e não tenha sentindo acender em si uma chama, uma chama ardente de amor e de fúria. Sim, fúria. Contra toda injustiça semeada pelo meio do mundo e que tem sua manutenção realizada com frequência pelos poderes opressores que o capital possui.

Pedro singrou o Araguaia rumo à Pátria Grande, a Terra Sem Males do Reino, onde intercede por nós e por nossas pelejas cotidianas contra a tirania do poder capital. Que o testemunho profético de sua vida impregne as nossas vidas como a terra vermelha do Araguaia o tingiu. E que jamais deixemos de cantar a esperança da libertação mesmo que os ventos contrários nos tentem arrastar, porque o nosso anúncio é de que haverá uma terra sem males onde não haverá ricos ou pobres, onde todos seremos irmãos e irmãs e que já deve começar no hoje da história, mas terminará na vida futura, na ressurreição.

Viva Pedro! Que não morram as suas lutas. E que ele germine em nós como esperança!

"Se 'a primeira missão do bispo é a de ser profeta' e 'o profeta é aquele que diz a verdade diante de todo um povo'; se ser bispo é ser a voz daqueles que não têm voz (Card. Marty), eu não poderia, honestamente, ficar de boca calada ao receber a plenitude do serviço sacerdotal" (Uma Igreja da Amazônia conflito com o latifúndio e a marginalização social, introdução, p. 3).

Fonte: Domtotal
*Gustavo Ribeiro é natural de São Vicente de Minas/MG. Atualmente residindo em São José/SC, onde trabalha como Analista de Pastoral Sênior em um colégio católico. Graduado em Teologia. Graduando em Pedagogia. E pós-graduando em Gestão Escolar. Poeta nas horas vagas, que são poucas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário