sexta-feira, 7 de agosto de 2020

QUE PADRE PARA OS NOSSOS TEMPOS?

Um seminarista segura um crucifixo em Detroit, Michigan, em 7 de junho de 2020, durante um protesto contra a brutalidade policial e em memória de George Floyd. (Seth Herald/AFP)
O padre de nosso tempo precisa ser ético, acadêmico e místico
Um olhar perspicaz e demorado sobre a história possibilita afirmar que, tal como aconteceu com vários outros atores sociais, a figura histórica do sacerdote católico sofreu mutações ao longo dos séculos. A imagem sacerdotal percorreu em distintos níveis e sentidos uma acidentada curva de altos e baixos, prenhe de contrastes que à certa distância podem ser lidos sob várias perspectivas.

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A imagem daquele simples vigário de roça que atendia pelo nome de João Maria Vianey, na bucólica cidade de Arns, diverge imensamente da de um atual cura de uma catedral moderna. A figura do sacerdote italiano, Pio de Pietrelcina, e seu modelo de assistência caritativa, diverge severamente da caridade transformadora de um sacerdote consistentemente formado a luz da teologia e da espiritualidade latino-americana, para exemplificar. Nessa mesma linha, para falar a partir daqueles que detêm a plenitude do ministério sacerdotal, a figura daquele prelado renascentista chamado de Giuliano Della Rovere (depois, papa Júlio II), que fora alçado ao episcopado de forma nepótica pelo seu tio, o papa Sixto IV, diverge imensamente da postura do cardeal-arcebispo de Wellington, capital da Nova Zelândia, Jonh Dew, que pediu aos seus diocesanos que o chamassem "apensas de Jonh" recusando capitalizar qualquer privilégio atribuído à sua função, combatendo, assim, um certo clericalismo obscurantista.

Esses contrastes são exemplos de como, em tempos e locais distintos, a compreensão do sacerdócio refletiu a vida de quem o assumiu. As posturas pessoais dos padres são filhas do seu tempo, marcadas pela cultura, teologia e entendimento do ministério. Assim é forçoso inquirir qual ideia deve mover a atuação do padre nestes nossos tempos. Mais especificamente, interrogar qual ideal ministerial deve guiar o sacerdote na atualidade. Numa pergunta: Que padre para o nosso tempo? Inúmeras respostas podem ser aventadas, no entanto, prevejo três: o ético, o acadêmico e o místico.

Há uma tênue linha entre o ético e o estético na vivência atual do ministério sacerdotal. Para exemplificar a partir de um tema belicoso, podemos dizer que o arquétipo sacerdotal medieval açodadamente fecundou o imaginário de muitos padres e ganhou espaço. O inadvertido uso de batinas, saturnos, barretes, alvas, clergyman alastrou-se entre o clero. A vestimenta em si nada tem de errado, basta recordar que logo após o Concílio Vaticano II, usar clergyman, diferente de hoje, era visto como sinal de avanço. O limite, contudo, reside quando, inúmeras vezes, indumentárias eclesiásticas sobrepõe-se a conduta e a vida. Vestem-se trajes que deveriam falar da pobreza e do despojamento (batina) sobre roupas de grife cosidas sob a exploração de empobrecidos. A veste talar, que deveria acusar a disponibilidade para servir, resplandece a incapacidade de se fazer atingir; ou essa mesma roupa, que deveria testemunhar uma Igreja, com diria João XXIII, disposta mais ao remédio da misericórdia, torna-se catalizador de uma mentalidade punitiva. Deve-se dizer que não é totalidade dos que fazem uso dessas vestes que se pautam por esse espírito. Mas, com esse exemplo, quer-se afirmar que, no ministério sacerdotal, use batina ou não, o princípio da ética e da coerência de vida devem ser sempre um imperativo. A imagem, a estética, não pode sobrepor-se ao ético se quisermos viver um ministério fecundo nestes tempos.

Um outro viés que deve ser trilhado pelo ministério sacerdotal nos nossos tempos é o acadêmico. Não se quer falar aqui de titulação universitária. Em regra, os padres já cursam duas faculdades, são moldados pelo universo da academia. Mas quando falamos de padres e o meio acadêmico, diz-se daquilo que é mais genuíno desse ambiente: o debate, a discussão. O padre do nosso tempo, deve ser alguém capaz de debater, portanto, ser bem preparado. Debater, não simplesmente fazer apologia! Ouvir, reconhecer valores e crescer no entendimento do mundo. Igualmente, diz-se que ele deve entender que a academia goza de ciências que descortinam mais profundamente outros campos da vida humana e que, por isso, podem ajudar a esclarecer sem furtar aquilo que é próprio do sacerdote. Não raro é comum ver sacerdotes, opinando sobre todos os temas, sem nenhum preparo, fazendo juízos que, se não são errados, padecem minimamente de razoabilidade. Seu discurso não é fecundo! Por vezes até atinge os sentimentos, mas é incapaz de moldar a razão e conduzir sadiamente a vida de fé das pessoas. Assim, o sacerdote do nosso tempo dever ser alguém moldado pela têmpera da academia, isto é, do diálogo e da transdiciplinariedade.

Por fim, o desafio do ser sacerdote nestes tempos é ser um místico. Karl Ranher, disse que, neste século, ou seriamos místicos ou não seriamos nada. Ser místico hoje, diferente de outros tempos, não é simplesmente ter contemplações, epifanias ou revelações. Ser um místico é, conformado a Cristo, conseguir contemplar e rezar o mundo com esperança, fecundando o coração de pessoas. No afã de atingir esse ideal, muitos ministros ordenados pautam-se por condutas a margem do Evangelho. Colocam-se como paladinos de curas, mercadores de esperança, artífices da graça divina, criaturas "sobre-humanas" e, não raro, chanceleres da ação de Deus. Muitas vezes, levianamente. Não é esse tipo de místico que precisamos ser. Nossa mística deriva da configuração ao Evangelho. Assim, curar não é para nós moeda maior do que escutar e sentir compaixão pelos injustiçados. Milagres não são ordem do dia que acontecem somente sob nossa mediação, mas são graça de Deus ofertada livremente a homens e mulheres. Não precisamos ser "sobre-humanos" para falarmos de Deus, necessitamos apenas viver nossa humanidade nos mesmos moldes daquele que foi plenamente humano e, assim, seremos místicos.

Ser padre, de fato, ao longo dos tempos, mudou. Na atualidade, nem de longe a vivência do ministério se tornou menos insólita. Antes o contrário, nestes tempos ela exige uma carga de naturalidade que se pauta pela ética, pelo diálogo e pela mística.

Dom Total

*Reuberson Ferreira, é sacerdote e religioso Missionário do Sagrado Coração. Mestre e Doutorando em Teologia pela PUC-SP.

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