quarta-feira, 19 de agosto de 2020

SOMOS O PADRÃO QUE DEUS DEVE SEGUIR?

De alguma maneira, colocamo-nos como régua a aferir se as ações divinas são justas (Unsplash/ Ashkan Forouzani)
Fiscais das ações divinas " multam" Deus  por não se adequar aquilo que se esperam dele.

Talvez uma das visões mais correntes de Deus no meio cristão ainda seja a daquele que retribui o mal com o mal e o bem com o bem. Uma espécie de juiz implacável que, diante do mal feito, não tem outra escolha, se quiser ser justo, a não ser dar a paga necessária pelo pecado e conceder o mérito aos que agiram conforme seus mandamentos. Em outras palavras, a imagem de Deus como "justiceiro" e "meritocrático".

Curiosamente, mesmo os Evangelhos mostrando uma visão de Deus totalmente diferente e o discurso presente na boca de muitas pessoas que se dizem cristãs seja de que ele é o Pai de Jesus Cristo, amoroso, perdoador etc., comumente um "mas" precede tais falas. Busca-se conciliar a concepção de Deus dos Evangelhos com as noções de justiçamento. "Deus é amor, mas também é justo", "Jesus perdoa, mas exige que andemos em santidade". Nessas e outras frases, esse "mas" se torna quase uma definição complementar a respeito do divino.

Um dos maiores problemas desse tipo de discurso é que ele mensura Deus, sua justiça, amor e perdão a partir de nós mesmos e das nossas concepções. De alguma maneira, colocamo-nos como régua a aferir se as ações divinas são justas ou injustas, se o Senhor estaria certo ou não em perdoar alguém, ou ainda, se determinada pessoa poderia ou não ser amada por ele. Por transferirmos para Deus nosso senso de justiça, transformamo-nos em fiscais dos assuntos divinos, de maneira que nos sentimos autorizados a "multar" Deus por sua atitude seguir na contramão do que esperamos dele.

No entanto, ao retornarmos ao texto bíblico, principalmente nos Evangelhos, ele nos revela que o amor de Deus jamais pode ser mensurado, que sua justiça está muito acima da nossa e que sua capacidade de perdoar vai muito além daquilo que possamos imaginar. Assim, afirmar "Deus é amor" e colocar um "mas" em seguida é não compreender o que tal definição quer dizer.

Sendo amor, então, não há limites para sua atuação, de maneira que não há nada que possamos fazer para que Deus nos ame menos ou mais. Todo discurso que visa estabelecer certa preferência divina por alguns de seus filhos e filhas não encontra nenhuma sustentação a partir do que fora anunciado por Jesus Cristo. Da mesma forma, se Deus é amor, então não é possível haver algo que ele não possa perdoar ou que façamos e nos separe de seu amor, como bem disse Paulo em Romanos 8. Nenhum "mas" deve ser colocado depois da frase "Deus perdoa a todos e todas que se arrependem". Por último, se Deus é amor, então a entrega de seu Filho não pode ser vista como uma tentativa de aplacar a ira divina cuja honra fora maculada pelo pecado humano. Antes, deve ser entendida constituinte do próprio Deus que, como amor, sempre se entrega e se coloca disponível a fim de ser recebido ou rejeitado. Afinal, aquele e aquela que ama verdadeiramente sempre dá a quem ama as opções do acolhimento desse amor oferecido como também de sua rejeição. Assim, entregar-se aos que se ama faz parte da própria essência de Deus. Toda mensagem que professa uma exigência de Deus por algum pagamento espiritual ou financeiro a fim de que conceda sua bênção segue na contramão do que Jesus falou sobre o Pai.

Com isso em mente, qualquer tentativa de mensurar as ações do amor divino colocando um "mas" revela uma não compreensão do Deus cristão. Deparar-se com isso é, com certeza, desesperador para algumas pessoas, mas também, como todo amor deve ser, libertador para muitas outras.

Domtotal

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), Doctor of Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), Bacharel em Filosofia e Licenciado em Matemática (UFMG) E-mail: fveliq@gmail.com. Site: www.fabricioveliq.com.br.

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