sexta-feira, 25 de setembro de 2020

EVANGELHO SEGUNDO MATEUS: UMA PÉROLA PARA A IDENTIDADE CRISTÃ

Podemos comparar o Evangelho segundo Mateus a uma pérola: ele é fruto de um processo, que resultou numa verdadeira joia que devemos conservar com bastante esmero (Martin Bureau/AFP)

Primeiro livro do Novo Testamento é contribuição para a compreensão do que é ser cristão e sobre a vida comunitária
Escrito, muito provavelmente, entre os anos 80 e 90 do primeiro século de nossa Era, o Evangelho de Mateus ocupa um lugar de destaque na tradição cristã. De todo o Novo Testamento, este escrito é o mais citado pelos Padres da Igreja, por exemplo. De fato, é um Evangelho bastante especial: compõem de uma maneira bastante forte tanto os elementos da vida de Jesus, lidos à luz da fé pascal, bem como o contexto próprio da comunidade do último quartel de século, a quem originalmente o texto de dirigia. A sensibilidade desse escrito se faz notar, quando reparamos o modo como é sensível à tradição judaica: é um Evangelho escrito para cristãos convertidos do judaísmo, e mostra muito sensivelmente como a fé cristã está enraizada na fé judaica. Isso, sem perder o frescor do novo olhar trazido pelo cristianismo.

O Evangelho de Mateus é, mais que tudo, uma importante catequese. É um precioso modelo e testemunho catequéticos, de como a narrativa do que cremos se mostra importante para a educação da fé dos discípulos e discípulas de Jesus. Num momento em que judaísmo e cristianismo iam, cada vez mais, distinguindo-se, e consciente de que a maior parte dos membros de sua comunidade eram cristãos vindos do judaísmo, o autor do Evangelho de Mateus soube trabalhar muitíssimo bem a compreensão de qual a identidade daquela comunidade formada por seguidores e seguidoras de Jesus. Num jogo de continuidade-descontinuidade, esse Evangelho é uma feliz contribuição para a compreensão do que é ser cristão e sobre o significado de formar uma comunidade de cristãos e cristãs.

Podemos comparar o Evangelho segundo Mateus a uma pérola: ele é fruto de um processo, que resultou numa verdadeira joia que devemos conservar com bastante esmero. Por muito tempo, acreditou-se que este havia sido o primeiro dos quatro evangelhos a ser escrito, dada a sua completeza narrativa e outros elementos. Estudos, por fim, mostraram que ele não foi o primeiro. E, mais que isso: ele teve como fonte tanto o Evangelho segundo Marcos quanto as Tradições de Ditos de Jesus (esta última que se perdeu). Essa descoberta ressalta a originalidade com a qual o autor do Evangelho de Mateus soube trabalhar as suas fontes e, além disso, responder às suas próprias questões, tão essenciais para a comunidade situada na região da Síria, no fim do primeiro século, e as de nós, cristãos e cristãs de todos os lugares, mesmo dois mil anos depois.

O Evangelho segundo Mateus é uma fonte inesgotável para nós, que nos pretendemos seguidores e seguidoras de Jesus Cristo. Para o contínuo redescobrir e reafirmar de nossa identidade cristã, esse Evangelho é uma contribuição essencial para que a Igreja de Jesus seja fiel à sua vocação e missão evangelizadoras. No Dom Especial desta semana, lançamos o olhar para essa inesgotável fonte, destacando três elementos em meio a toda uma riqueza sem fim, para que o desejo de aprofundar mais nessa leitura se aguce. No primeiro artigo, A importância do Evangelho de Mateus para o discipulado, Rodrigo Ferreira da Costa nos introduz na questão do ser discípulos, tão fundamental para o evangelho. Antônio Ronaldo Vieira Nogueira, no artigo O Reino de Deus, onde está?, propõe uma reflexão, articulando dois discursos de Jesus, no Evangelho de Mateus – o da montanha e o escatológico – mostrando como o Reino dos Céus se endereça aos pobres, em primeiro lugar, o que nos conclama a uma ética da solidariedade. Por fim, Eduardo César traz o artigo O discurso em parábolas: um evangelho dentro do evangelho de Mateus, no qual destaca a importância essencial das parábolas como uma pedagogia pertinente e efetiva para dizer o Reino.

Boa leitura!

Domtotal 

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com

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