quinta-feira, 24 de setembro de 2020

TEOLOGIAS QUE NÃO ESCUTAM

É importantíssima uma teologia pública, que seja feita a partir de baixo, das experiências do povo (Unplash/Nycholas Benaia)

É necessário recuperar o exemplo de Jesus de Nazaré

Todo relacionamento precisa de escuta atenta. Não raro ouvimos sobre relações que acabaram por uma pessoa não ouvir a outra ou porquê uma das partes não se atentava à demanda da outra, causando-lhe a sensação de falar com as paredes. De tanto insistir em ser ouvida e não obter resposta, considera-se o rompimento como única coisa a se fazer. Uma vez acabada a esperança, encerram-se também as possibilidades de retorno.

Quando olhamos para a questão da teologia e sua relação com o mundo, a premissa com a qual começamos nosso artigo também se aplica. Não dificilmente temos presenciado abordagens teológicas que se distanciam do mundo, não ouvindo o que este tem a dizer em suas diversas vozes. Focando-se somente em doutrinas, normas, teorias etc., a teologia tem constantemente se tornado surda àqueles com quem deveria se relacionar.

No entanto, em um país no qual a maioria das pessoas se diz cristã, ainda é possível perceber que elas querem ouvir algo dos teólogos. Algo que faça sentido para suas existências, que traga conforto e respostas aos seus dramas.

Diante desse cenário, torna-se importantíssima uma teologia pública, que seja feita a partir de baixo, das experiências do povo, de suas lutas e questões. Isso não implica em deixar a seriedade de lado. Muito pelo contrário, significa tomar a atitude essencial para um bom relacionamento, que é ouvir o outro com quem se relaciona. Descer de certo pedestal imaginário – no qual diversos teólogos se colocam, achando que estão acima de todo mundo – e abrir mão da pretensão de serem os detentores da verdade última, a qual somente eles têm acesso, são tarefas imprescindíveis. Não cabe mais uma visão teológica nos moldes da cristandade medieva, quando o cristianismo ditava o quer era certo e errado. Esse saudosismo nutrido por uma grande parte das pessoas religiosas no país somente contribui para o constante afastamento da teologia na relação cristianismo–sociedade.

É imprescindível que o cristianismo compreenda que não há escuta sincera se não há humildade e que não se alcançam pessoas sem a disposição de ouvi-las com atenção. Talvez, na contemporaneidade, ouvir seja um dos maiores desafios para o cristianismo.

Ao mesmo tempo, lidar com tal desafio pode fazer com que a proposta cristã volte ao seu fundamento: Jesus de Nazaré, o galileu que andava com os humildes e pobres de seu tempo, expondo o Reino de Deus numa linguagem cotidiana, de fácil assimilação, sem rebuscamentos, mas com profundidade e seriedade. Uma mensagem que, como disseram os caminhantes de Emaús, "ardia o coração" quando se ouvia. 

A principal tarefa teológica da atualidade deveria consistir em recuperar o exemplo de Jesus, refazer seu comprometimento de caminhar com o povo, sentir suas dores, ouvir seus clamores e anunciar-lhe a esperança do Reino de Deus. Todo o resto, portanto, seria adendo e nota de rodapé para explicitar algo importante de ser lembrado.

Infelizmente, é o exemplo de Jesus que tem sido tomado como nota de rodapé nas pomposas e bem articuladas elucubrações que vários teólogos têm feito em suas tentativas de falar somente a seus pares, deixando de lado aqueles para quem Jesus se dirigiria e a quem ouviria.

Domtotal

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), Doctor of Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), Bacharel em Filosofia e Licenciado em Matemática (UFMG) E-mail: fveliq@gmail.com. Site: www.fabricioveliq.com.br.

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