sábado, 24 de outubro de 2020

A MISSÃO DAS IGREJAS, MISSÃO DE TODA A HUMANIDADE




A missão de todo ser humano consiste em cuidar uns dos outros e do planeta Terra, que Deus ou a Vida nos confiou. Em meio a esta pandemia, a humanidade pode perceber claramente de que lado estão as pessoas, se a favor da vida ou se a favor do lucro da elite que domina o mundo. Neste sábado 17, pelo you tube, um sarau reuniu mais de 50 apresentações artísticas, entre músicas, encenações teatrais, espetáculos de dança e recitação de poesias. Era o lançamento festivo da campanha pelas vacinas gratuitas para todos os vírus do mundo. Ali se pedia a ONU que declarasse as vacinas contra a Covid 19 bens comuns da humanidade. E a mensagem das músicas e de outras artes nos vacinava contra outros vírus, como os da indiferença social e do individualismo. Afinal, o Brasil voltou ao mapa da fome, com mais de 17 milhões de pessoas em situação de desemprego e mais de 50 milhões em insegurança alimentar.

No domingo 04 de outubro, o papa Francisco surpreendeu a humanidade com uma encíclica que conclama todos/as a retomar a cultura da amizade social e da fraternidade universal. Dois setores da sociedade reagiram forte e negativamente à encíclica do papa. O primeiro setor foi a elite econômica, que se sentiu atacada quando o papa responsabiliza o Capitalismo pelos maiores sofrimentos da humanidade. O outro setor foi uma parte não pequena da hierarquia e do clero da própria Igreja Católica que não compreende um papa que rompeu definitivamente a aliança da Igreja com os poderosos do mundo que sempre a beneficiaram. 

Cada ano, em outubro, a Igreja Católica celebra o mês das missões. O tema deste ano de 2020 foi escolhido muito antes da pandemia que nos surpreendeu. No entanto, parece ter sido escolhido em função do momento que vivemos: “A vida é missão” e o lema que o desenvolve é a palavra do profeta: “Eis-me aqui, envia-me” (Is 6,8).

Ainda hoje, há cristãos que confundem missão com proselitismo e entendem de forma fundamentalista o mandado de Jesus: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a todas as nações” (Mt 28, 19). O próprio Novo Testamento revela que os apóstolos e discípulos não compreenderam estas palavras ao pé da letra. Eles não saíram pelo mundo afora para anunciar a boa notícia do reino. De fato, Paulo e seus companheiros fizeram viagens pelas cidades do Império Romano até à Europa. Entretanto, eles iam às sinagogas e fortaleciam grupos de discípulos de Jesus dentro do Judaísmo. Nem Paulo nem outros discípulos pediram aos judeus que deixassem sua religião. Nem exigiram dos gregos abandonarem sua cultura. Por isso, ele pode dizer: “eu me fiz judeu com os judeus e grego com os gregos” (1 Cor 9, 20). A mensagem de Paulo é que todas as pessoas, independentemente de sua cultura e religião, podem aceitar a proposta divina. O “reinado divino” vem ao mundo para todos. Somente mais tarde, nos anos 80, a sinagoga não aceitou mais os cristãos como membros da comunidade judaica. Então, o Cristianismo se separou do Judaísmo e se tornou religião autônoma.

Agora, na sua carta sobre a fraternidade universal, o papa Francisco pede a todas as religiões que, independentemente, de suas diferenças, se ponham a serviço da unidade de toda a família humana. Conforme os evangelhos, uma vez, discípulos contaram a Jesus que tinham encontrado alguém que expulsava o mal das pessoas. Eles tinham proibido porque aquela pessoa não pertencia ao grupo deles. Jesus os repreendeu dizendo: “Não façam isso. Quem não está contra nós é porque está do nosso lado” (Cf. Lc 9, 49- 50).

Neste mundo pluralista, é fundamental que as Igrejas recuperem esta abertura de coração. Devem ser comunidades de diálogo e acolhida do outro e nunca de intransigência e rejeição. Não há separação entre a missão das Igrejas e a missão de todas as organizações sociais que trabalham pela paz, justiça e união da humanidade. Homens como o papa João XXIII, Dom Helder Câmara e o pastor Martin-Luther King compreenderam profundamente isso. Foram profetas que transformaram o mundo e fizeram isso como poetas sensíveis e encantados com a humanidade.

No dia 11 de outubro de 1962, depois de um dia inteiro de trabalho no qual tinha inaugurado o Concílio Vaticano II com todos os bispos católicos em Roma, o papa João XXIII soube pelo seu secretário que a praça de São Pedro estava cheia de povo. Todos, com velas nas mãos, pediam para ver o papa. Este apareceu na janela, saudou a multidão e disse: “Olhem a lua cheia. Ela veio embelezar a nossa festa. Voltem para casa e dêem um abraço ou façam um gesto de carinho em nome do papa na primeira pessoa que vocês reencontrarem em casa. Digam que o papa lhes manda este gesto de amor”. Isso continua a ser o núcleo central da missão de todas as pessoas espirituais.


Marcelo Barros
Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo especializado em Bíblia. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos sociais como o Movimento de Trabalhadores sem Terra (MST). Tem 45 livros publicados dos quais está no prelo: "O Evangelho e a Instituição", Ed. Paulus, 2014. Colabora com várias revistas teológicas do Brasil, como REB, Diálogo, Convergência e outras. Colabora com revistas internacionais de teologia, como Concilium e Voices e com revistas italianas como En diálogo e Missione Oggi. Escreve mensalmente para um jornal de Madrid (Alandar) e semanalmente para jornais brasileiros (O Popular de Goiânia e Jornal do Commercio de Recife, além de um jornal de Caracas (Correo del Orinoco) e de San Juan de Puerto Rico (Claridad).

Nenhum comentário:

Postar um comentário