sexta-feira, 2 de outubro de 2020

A MÍSTICA COMO PEDAGOGIA PARA NOSSOS TEMPOS: UM OLHAR PARA OS GRANDES MÍSTICOS

Um mergulho na mística medieval tem força pedagógica (Unsplash/John Towner)

Espiritualidade de Teresa de Ávila, João da Cruz e Teresinha de Jesus precisa ser revisitada

Cada vez mais temos visto surgir um interesse pela mística cristã, sobretudo a espanhola, não apenas nos círculos religiosos, mas também nos acadêmicos. Desde o aspecto literário até o psicológico, estudiosos têm se dedicado a compreender a importância da mística, a partir do estudo de autores medievais que, por sua experiência religiosa e espiritual, revolucionaram seu próprio tempo. Esse interesse secular pela mística e pelos místicos é um bom indício da importância desse "movimento". Cristãos e cristãs católicos são chamados a redescobrirem essa força espiritual.

Karl Rahner, importante teólogo do século passado, foi bastante preciso em sua leitura a respeito das perspectivas para o cristianismo que viria: ele afirmava que o cristão do futuro ou seria místico, ou não seria cristão. Se analisarmos, criticamente, as faces do cristianismo atual, perceberemos que a intuição teológica de Rahner se efetiva para este nosso século. Ou resgatamos o aspecto místico da vivência cristã, ou perderemos cada vez mais nossa especificidade de fé. Um cristianismo que resgate a mística será aquele que melhor passará por esse momento de crise em que passa a religião cristã.

A vivência mística em nossos tempos certamente se difere da experiência dos grandes místicos da época medieval. Uma volta à experiência espiritual desses místicos, contudo, torna-se uma via espiritual bastante pedagógica para nós hoje, mesmo mantendo as diferenças culturais, temporais e de compreensão e vivência da fé. Os séculos 15 e 16 foram uma época de profundas transformações para a sociedade europeia e consequente crise para a Cristandade. A mística surge como verdadeiro movimento, que podemos perceber como verdadeira inconformação à religiosidade da época. Sem dúvidas, isso é bastante inspirador para nós, hoje.

No catolicismo atual, por exemplo, temos visto se fortalecer movimentos de cunho espiritualista. O sujeito moderno é um requisitador de experiências e o cristianismo soube ler, de alguma forma, essa demanda. Esses movimentos espiritualistas trouxeram o corpo de volta para o cenário da vivência da religiosidade. O problema, porém, é que a "revalorização" do corpo só aparece para favorecer experiências psicossomáticas, que são esvaziadas de perspectiva espiritual. E é justamente isso que faz deles movimentos espiritualistas, pois desencarnados. Um mergulho na mística medieval tem força pedagógica para nos ajudar a compreender a como valorizar as experiências, resgatando verdadeiramente o valor do corpo para a vivência cristã, com profunda dimensão espiritual.

O Dom Especial desta semana reflete elementos místicos de três importantes referências para o catolicismo: Teresa de Ávila, João da Cruz e Teresinha de Jesus, esta última celebrada ontem, pelo calendário litúrgico. No primeiro artigo, O Senhor dentro de mim, eu toda mergulhada nele, Gustavo Ribeiro passeia pela mística de Teresa de Ávila, destacando a experiência profunda do amor de Deus que alcança o corpo. Augusto O., no artigo O caminho do amor é o da noite escura, reflete sobre o caminho espiritual vivido e proposto por João da Cruz, que consiste na entrega absoluta a Deus, para experimentarmos a deificação à qual somos vocacionados. Fruto da espiritualidade carmelita de Teresa de Ávila e de João da Cruz temos Teresinha de Jesus, cuja espiritualidade nos inspira ao mergulho no Evangelho como verdadeira proposta de vida. É sobre o que discorre Francisco Thallys Rodrigues, no artigo Espiritualidade: Teresinha de Jesus entre Deus e o mundo.

Domtotal

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com

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