quarta-feira, 28 de outubro de 2020

DOCUMENTÁRIO "FRANCESCO" OFERECE RETRATO COMOVENTE DO IMPACTO PROVOCADO PELO PAPA NAS PESSOAS

Houve um curioso tempo antes da pandemia do coronavírus quando o Papa Francisco viajava ao redor do mundo. As pessoas se reuniam em grandes grupos, às vezes na casa dos milhões, apenas para ter a chance de vê-lo.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 21-10-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O pontífice, então, destacaria questões internacionais urgentes e ajudaria a cimentar acordos de paz (veja-se, por exemplo, a visita de 2015 a Cuba e aos EUA, a visita de 2017 à Colômbia, ou a visita de 2019 à Macedônia do Norte). Mas ele também se encontraria com pessoas marginalizadas e, às vezes, mudaria suas vidas de inúmeras maneiras.

Um novo documentário com o simples título “Francesco” tem em seu centro essas pessoas. Embora também conte grande parte da história mais ampla do papado do ex-cardeal argentino Jorge Bergoglio, ele se concentra principalmente no modo como o papa de Buenos Aires tocou as pessoas que ele conheceu em vários lugares do mundo.
Evgeny Afineevsky, diretor de “Francesco”, cumprimenta o Papa Francisco (Foto: L’Osservatore Romano/NCR)

Um destaque: a comunidade deslocada Rohingya de Mianmar, com cujos membros Francisco se reuniu em Bangladesh em 2017. Outro: os 12 refugiados muçulmanos que o papa levou para a Itália no fim da sua visita a um campo de refugiados na ilha grega de Lesbos em 2016. E mais um: as vítimas do abuso clerical que Francisco inicialmente enfureceu durante a sua visita ao Chile em 2018.

O diretor do filme, Evgeny Afineevsky, disse ao NCR que, ao se preparar para contar a história abrangente do papado de Francisco, agora com sete anos, ele percebeu que “eu queria contar isso por meio das pessoas cujos corações e mentes ele tocou em suas ações”.

Parece óbvio que Afineevsky, que dirigiu anteriormente o documentário de 2017 “Cries from Syria” e o documentário de 2015 “Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom”, atrairia mais gente das margens da sociedade.

Três momentos em particular se destacam em “Francesco”, que tacitamente reconhece que agora vivemos em uma época sem viagens papais, mostrando imagens impressionantes de ruas ao redor do mundo esvaziadas devido aos confinamentos (o filme termina e começa com as imagens igualmente impressionantes de Francisco sozinho na Praça de São Pedro, concedendo uma bênção especial Urbi et Orbi no início da pandemia em março).

Um momento é um almoço que Francisco ofereceu aos 12 refugiados que trouxe de Lesbos, alguns meses depois. O papa está rodeado pelos filhos das três famílias, que lhe mostram desenhos de giz de cera assustadores, exibindo vidas jovens de imenso sofrimento.

Em uma das entrevistas do filme, Nour Essa, uma jovem e uma das ex-refugiadas, é compreensivelmente incapaz de encontrar palavras para explicar como as suas vidas mudaram.

Outro momento ocorre quando Francisco está cumprimentando 16 muçulmanos Rohingya em Bangladesh em 2017. O papa fez a visita depois de viajar primeiro a Mianmar, onde o governo destruiu as aldeias da comunidade minoritária, matou milhares de pessoas e forçou quase um milhão a fugir para o oeste, rumo a Bangladesh.
O diretor Evgeny Afineevsky, no centro, posa com vários membros da comunidade da minoria Rohingya que conheceram o Papa Francisco em Bangladesh em 2017 e são mostrados no documentário “Francesco” (Foto: NCR)

Enquanto o pontífice cumprimenta os refugiados um por um, a câmera mostra Francisco enxugando uma lágrima do seu olho. Ela também o mostra tendo uma explosão de raiva com um segurança vaticano, que parece estar tentando apressar o encontro para manter o papa dentro do cronograma. Francisco levanta o dedo e grita “Respeito!” várias vezes ao segurança.

Em outra entrevista do filme, um dos Rohingya que se encontrou com Francisco disse: “Do fundo do meu coração, estou muito grato pelo que ele fez. Que Alá o abençoe para que ele possa falar em prol de todas as pessoas perseguidas no mundo”.

O terceiro momento do filme é mais do que um momento. É um período de meses e anos em que Francisco errou muito, admitiu isso e depois começou a agir para corrigir seu erro.

Isso começa, é claro, com a viagem papal de 2018 ao Chile, quando o papa defendeu um bispo acusado de encobrir um padre abusivo. Ao voltar para casa, Francisco percebeu que algo estava errado e enviou o arcebispo maltês Charles Scicluna para investigar o caso. Mais tarde, o papa solicitou a renúncia de todo o episcopado católico do Chile.

O guia do filme ao episódio chileno é Scicluna e o sobrevivente chileno Juan Carlos Cruz, que descreve no filme como o pontífice se desculpou com ele durante um emocionante encontro de três horas no Vaticano em abril de 2018.

Cruz, que já se encontrou com o papa em várias ocasiões, disse ao NCR que Francisco “fortaleceu uma fé que eu nunca quis perder e que eu corria o risco de perder”.

“Ele é um homem como nenhum outro", disse Cruz sobre o papa. “Eu não tenho palavras para dizer o quanto ele mudou a minha vida.”

Afineevsky disse ver na cena do primeiro encontro de Cruz e Francisco o centro da narrativa do seu filme.

“Juan Carlos Cruz ajudou o Papa Francisco a perceber muitas coisas sobre a Igreja que estavam escondidas”, disse o diretor. “O bonito em Francisco é que, na sua idade, ele ainda está aberto para aprender.”

“Eu aplaudo o Papa Francisco, que tem sido capaz de se posicionar e admitir erros, algo muito difícil para os líderes”, disse Afineevsky.

O documentário “Francesco” teve sua estreia mundial no Festival de Cinema de Roma no dia 21 de outubro. Ele terá sua estreia na América do Norte no dia 25 de outubro, como parte do SCAD Savannah Film Festival. Quem comprar os ingressos do evento de Savannah pela internet [disponíveis aqui] pode assistir ao filme em casa por um período de seis dias.

Afineevsky disse que ele e outros cineastas esperavam lançar o filme nos cinemas após a temporada de estreias, mas agora estão trabalhando em um acordo para oferecê-lo por meio de um serviço de streaming.

O diretor disse que sente uma obrigação especial de oferecer o filme o mais amplamente possível, considerando-se como a pandemia do coronavírus afetou a capacidade do papa de viajar.

“Se antes ele podia viajar para todas as periferias do mundo, agora apenas as suas palavras podem viajar”, disse Afineevsky. “É por isso que, para mim, lançar o filme agora era muito importante, para que as suas palavras e ações possam viajar ao redor do mundo.”

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