terça-feira, 20 de outubro de 2020

EM NOME DE DEUS

Em nome de Deus, algumas instituições humanas justificaram suas práticas violentas para com grupos que não se adequavam às suas regulações
É impossível reconciliar o uso que algumas pessoas fazem do nome do Deus de Jesus Cristo (Pixabay)

Tânia da Silva Mayer*

Desde que o mundo é mundo o ser humano recorre aos deuses para justificar sua origem e seu fim. Sua sorte e infortúnio também eram delegados às divindades em razão de uma compreensão mágica da própria existência. No fundo, a fase aguda dessa procura e apoio no divino para justificar a existência provoca uma humanidade infantilizada, descompromissada com a autonomia do sujeito e sua consequente responsabilidade diante de suas ações. É um rompimento radical com ética que torna a vida social possível.

Em nome de Deus, algumas instituições humanas justificaram suas práticas violentas para com grupos que não se adequavam às suas regulações. Nessa esteira estão as próprias igrejas cristãs, que, a partir de uma análise histórico-sociológica, pode-se ver hoje, sem dubiedade, o modo como exerceram e continuam a exercer a influência sobre nossas sociedades, a partir da prerrogativa de que suas crenças devem ser a baliza das relações sociais. Isso decorre da compreensão de que tais crenças são validadas por Deus, autoridade que não pode ser contestada.

Ainda nesse aspecto, também os indivíduos recorrem aos seus deuses para justificarem seu ponto de vista, pensamentos e atitudes diante dos outros e do mundo. E isso não resulta apenas num modo singular de compreender a vida, a existência e as relações. Resulta numa espécie de fundamentalismo que flerta até com atitudes criminosas e que se coloca em paz diante destas.

Por isso, não raras vezes vemos algumas pessoas advogarem para si mesmas uma justiça divina que normaliza seus crimes e violências. Com bastante frequência, isso tem acontecido, sobretudo, com relação ao cristianismo. O nome de Deus tem sido evocado e pronunciado como testemunha de estupros, assassinatos, desvio de dinheiro dos fiéis, racismo ou mesmo a xenofobia, a homofobia, o machismo, entre outros. Não há pudor, temor ou medo, trata-se de uma evocação, do uso de um discurso religioso para se dizer que está com a razão e justificar as injustiças praticadas e chanceladas sob a autoridade divina requisitada.

Logicamente, todos os nossos discursos acabam se entrecruzando com outros discursos e a procura por uma autoridade que os legitime é comum para todos nós. Mas é impossível reconciliar o uso que algumas pessoas fazem do nome do Deus de Jesus Cristo para justificarem seus erros e crimes, suas irresponsabilidades diante da vida, suas fés interesseiras e suas perversões mais horrendas.

Precisamente, o Deus de Jesus está sempre ao lado dos que sofrem, das vítimas do mundo e nunca de seus algozes. Repetir isso sobre o Deus de Jesus não é demais em um tempo em que seu nome tem sido pronunciado em vão, num vão de discernimento ético-humano, para nos fazer passar à normalidade as atitudes e os acontecimentos que escarneiam e negam radicalmente aquilo que o próprio Deus mostrou de si no cuidado dos pequenos e sofredores do mundo ao optar por suas vidas ameaçadas por aqueles que, em nome dos seus deuses, articulam maldades e vão tornando a vida social triste e impossível.

Domtotal 

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com

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