sexta-feira, 16 de outubro de 2020

O QUE SÃO FRANCISCO XAVIER TEM A VER COM IRMÃ DULCE E AMAZÔNIA?


São Francisco Xavier e santa Dulce, ligados por um caso de 'parentesco missionário' (Arquivo)
Ambos os santos ultrapassaram todas as barreiras para realizar sua missão em nome de Deus

Deve ser um caso de "parentesco missionário". São Francisco Xavier é o padroeiro esquecido de Salvador (BA). Ele era popular e bem celebrado até 1759, quando os jesuítas foram expulsos do Brasil por ordem do Marquês de Pombal, e toda e qualquer referência à Companhia de Jesus e ao padroeiro jesuíta foram banidas da cidade. Hoje, porém, a patroneada cidade de Xavier é, na verdade, arena de Irmã Dulce. Aliás, e aqui começa o parentesco, o Anjo Bom da Bahia feito santa no ano passado, foi cogitado por alguns para substituir Xavier no patrocínio de Salvador. O arcebispo da ocasião, dom Murilo Krieger, se manifestou contrário à mudança. Longe de serem concorrentes, Xavier e Dulce estão mais aparentados do que se imagina.

Xavier era impelido da "necessidade que tinha, de perder a sua vida temporal para socorrer a vida espiritual do próximo", confessa ele. Mais tarde, aos missionários mandados ao Oriente, se dizia "o vosso primeiro cuidado seja modelar os vossos passos pelo exemplo do grande são Francisco Xavier". Não é à toa que hoje esse Francisco é o padroeiro das missões. 

Irmã Dulce também tinha um ardente desejo missionário, tanto que escolheu ingressar numa congregação que leva missionária no nome: Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição. Conta-se, inclusive, que a jovem Dulce nutria o desejo de ser missionária no Japão. Façanha essa realizada por Xavier, não sem antes de ter passado por Moçambique, Socotorá, Goa, Travancor, a Costa da Pescaria e Cabo de Comorim, Ceilão, Malaca, Amboino, Molucas, Moro, e, por fim, lá nos berços do sol, o Japão. A santa dos pobres nunca esteve por estas bandas. Ela dedicou toda sua vida e missão aos doentes da capital baiana. Isso mostra que nem sempre é preciso ir tão longe assim para ser missionário(a).

As cidades e grandes centros urbanos como Salvador precisam de homens, mas também de mulheres discípulos(as) missionários(as) de Jesus Cristo comprometidos(as) nos mais diversos campos. 

Nessas eleições, Salvador registra aumento de candidaturas femininas em mais de 470%. A política também é lugar de missão. Mas não me entenda mal, compreender política como tarefa missionária não é ser "terrivelmente cristão", nem das bancadas da Bíblia, da bala e do boi - sem esquecer de incluir entre os bois, as boiadas que Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, mencionou durante a reunião ministerial de 22 de abril, no Palácio do Planalto. O estilo de Xavier - e também o de Dulce - nos ajudam a entender o que significa ser missionário(a) hoje.

O jesuíta não fez missão no Oriente sozinho. Ele contava com companheiros qualificados para o trabalho. Suas inúmeras cartas atestam isso. Missão se faz em rede - ninguém solta a mão de ninguém! 

Dulce também escreveu cartas. Algumas delas ao jesuíta italiano Ippolito Chemello, o padre Popó. Os biógrafos de santa Dulce pouco valorizam a relação da baiana com esse jesuíta. Mas em seu livro, o jornalista Graciliano Rocha deixou escapar em uma nota de rodapé uma informação importantíssima da proximidade da irmã com a ordem de Xavier: a amizade com o padre Ippolito que por muitos anos morou em Salvador e colaborou na formação espiritual da santa. A freira Maria Rita Lopes Pontes escolheu como lema das Obras Sociais Irmã Dulce (OSID) "Amar e Servir". Curiosamente os jesuítas tem um lema inaciano que reza "em tudo Amar e Servir". Será simples coincidência ou influência do padre Ippolito? Seja como for, tanto para o jesuíta Xavier, quanto para Dulce missão é "em tudo Amar e Servir".

Onde entra a Amazônia nessa história? A canonização de Irmã Dulce foi celebrada em Roma no dia 13 de outubro de 2019. Nesse tempo, também acontecia em Roma o Sínodo dos Bispos para a Amazônia que teve seu início em 6 de outubro e se estendeu até o dia 27 do mesmo mês de 2019. No Brasil, outubro é tradicionalmente o mês das missões, quando Xavier é lembrado como inspiração missionária. "Não parei nem sequer um instante", escreveu certa vez o jovem que sempre esteve numa incessante correria apostólica. 

Xavier era um homem de fronteiras: Depois de 10 anos desde quando começou seu trabalho na Índia, morreu às portas da China, à sua fronteira. Centenas de anos depois, o Apóstolo do Extremo Oriente, deu nome a um povoado do Extremo Ocidente, isto é, da nossa querida Amazônia, na tríplice fronteira Brasil, Colômbia e Peru: A cidade de Tabatinga (AM) deriva do povoado de São Francisco Xavier de Tabatinga. Xavier foi aos confins do Oriente, Dulce às palafitas do bairro dos Alagados. Missão se faz em fronteiras, sejam elas geográficas ou existenciais.

Em uma de suas inúmeras cartas, Xavier escreve pedindo missionários "que tenham letras, para responder às muitas perguntas que fazem os japoneses. Seria bom que fossem bons artistas (filósofos)" e acrescenta "que soubessem alguma coisa da esfera, porque folgam em grande maneira os japoneses em saber os movimentos do céu, os eclipses do sol, o minguar e crescer da lua, como se gera a água e a chuva, a neve e o granizo, os trovões e os relâmpagos, os cometas e outras coisas assim naturais". Xavier propõe aprender o que é próprio da cultura dos japoneses com quem está vivendo. 

Xavier pede missionários que possam inculturar-se! Curiosamente, o estilo de evangelização adotado por Xavier, a inculturação, é a mesma linha que o sínodo para a Amazônia propõe. Não se trata de ir à Amazônia e doutrinar os seus povos. Ser missionário(a) aí é aprender deles a valorizar e proteger suas expressões culturais permeadas das "sementes do Verbo". Como diz o teólogo Eleazar Hernández, Palavra de Deus e palavras dos povos originários se complementam porque têm os mesmos autores: Deus e a humanidade. Missão é reconhecer que Deus nos precede, Ele chega antes.

Mas afinal, o que o santo apóstolo do Extremo Oriente tem a ver com o Anjo Bom da Bahia e com a Floresta Amazônica? Neles todos há a presença de um Deus que não é o ídolo do "Deus acima de todos". Nesse "deus" autoritário, eu também não creio. 

Prefiro por minha confiança (2Tm 1,12) no Deus de Francisco Xavier e de Dulce dos pobres, no Deus que não opta por estar acima de todos, mas desce para livrar seu povo da opressão e da miséria porque ouve seu clamor (Ex 3,7-8). Não está acima de todos, está aqui, conosco - Emanuel (Mt 1,23) - e se encarnou no meio de nós (Jo 1,14), nos nossos povos e culturas, também na nossa querida Amazônia.

Domtotal 

*João Melo é religioso jesuíta. Acadêmico do curso de graduação em Teologia (FAJE). Graduado em Filosofia (UNIFAI) e especialista em Catequese UNISAL-SP

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